E Kanye West criou o Dark Side of the Moon do hip-hop.

Glow in the Dark, o novo show do megalomaníaco astro do hip-hop, é definido por ele como “uma missão para trazer a criatividade de volta à Terra”. Essa é a historinha que dá o mote à space o pera que o cantor criou, e que está a caminho do Brasil para o TIM Festival, em outubro.

Pense nas mais manjadas experiências de ficção científica, de Jornada nas Estrelas a O Homem que Caiu na Terra. Misture com todos os clichês do gênero, o principal deles um computador-espaçonave que dá conselhos ao seu tripulante, aqui chamado Jane (Hal, o computador de 2001, Uma Odisséia no Espaço, deve estar se revirando no cemitério de computadores; aceleração no hiperespaço). Outros: pin ups que fazem strip tease e simulam sexo virtual, luas que explodem, gêiseres de fogo, explosões e muito crepúsculo espacial. Até um dinossauro apareceu (no espaço? sério isso?) para engolir o astro do rap megalô – mas logo ele escapou, rasgando o ventre da criatura e ressurgindo no palco.

Vi o show na quinta fila do Madison Square Garden na terça-feira à noite (é um espetáculo totalmente diferente do que ele apresentou no Lollapalooza Festival, no domingo à noite). É esse que vem ao Brasil – maior do que o do Daft Punk, há dois anos. O show tem os efeitos visuais mais mirabolantes, tudo em cores laranja, vermelho, púrpura e neon rosa. Cortinas de telões superpostos (que entretanto estão integrados em imagem e efeitos), som surround. É talvez o mais high tec dos shows que irão ao Brasil este ano. São 50 toneladas de equipamento, segundo a organização do TIM Festival.

No final de tudo, a nave-mãe Jane diz a Kanye: “Nós precisamos do poder do maior astro do universo, Kanye. Nós precisamos de você”. Eu podia ter dormido sem essa… Mas piora depois: West, depois de uma longa lição de moral no público, termina dizendo que tudo que ele precisa é dele mesmo, Kanye. Milionário, o hip-hop americano pode se dar ao luxo de excentricidades como essa – talvez, hoje, seja um dos poucos gêneros a ir tão longe, já que o rock está meio pobrinho ultimamente.

Foi uma noite entre manos. Começou ali pelas 19h com um rapper meia-boca chamado Consequence. Depois virou coisa de responsa: Lupe Fiasco veio com sua banda e seus MCs, e é um rapper cheio de groove, jazzy as vezes. Ele chama para fazer uma base um cantor branquelo que faz o gênero Justin Timberlake e eles arrasam em duas canções, a primeira em cima de Daydreamin’. O cara tem estilo.

Depois foi a vez de Pharrel Williams e seu combo N.E.R.D. Muitos decibéis, pouca criatividade. Finalmente veio Kanye, com seus músicos todos vestindo as roupas de sua fantasia espacial – capacetes que lembram os dos garotos do Daft Punk, malhas e ombreiras geométricas. O Madison Square Garden quase veio abaixo – o público dançou freneticamente até na hora da verborragia típica de Kayne, que faz longo discurso no final.

Você vai me perguntar: mas e o essencial? você gostou?
Not really, not really.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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