estamos num desses bairros paulistanos tidos como “nobres” (ou quase), dentro de uma loja cintilante da rede de supermercados pão de açúcar.

notamos que a moça do caixa que computa nossos itens ostenta no nariz um minúsculo esparadrapo transparente (ou quase).

ficamos curiosos, machucou o nariz, foi?

não, não machucou. o esparadrapinho ali faísca discretamente para ocultar o que há por baixo dele: um minúsculo piercing de nariz.

perguntamos o porquê da faisquinha, e a mui jovem mocinha – algo desconsolada, algo conformada – nos esclarece que na, garbosa rede de supermercados pão de açúcar, funcionários são proibidos de usar piercings.

e nós estamos em 2007, a diversidade bombando lá fora.

e estamos em 2007, num bairro dito “nobre”, habitado por gente tida como “esclarecida”, entre cidadãos “conscientes” que detestam (e nunca, nunca, nunquinha praticam) preconceito, discriminação, seleção ideológica, cisão sócio-econômica, censura política, blá, blá, blá…

e estamos em 2007, num bairro “nobre”, dentro de um supermercado “top de linha”, abarrotado de produtos diet, light, orgânicos, preocupados a valer com nosso colesterol, nossa glicose, nosso meio ambiente, nossa ecologia.

lá fora do supermercado, dentro dos apartamentos, cidadãos e cidadãs de “bem” e de “classe” sorvem sua dose diária de alta cultura (e de alta costura) e degustam seus shitakes, seus shimejis e seus champignons adquiridos no pão de açúcar, enquanto comentam entre dentes como lutam pela liberdade de expressão, como prezam os direitos humanos, como deploram o racismo, como admiram a diversidade sexual, como toleram toda e qualquer diferença.

(alguns deles são até donos e/ou altos funcionários da rede pão de açúcar ou de outras tantas corporações “chiques”, “prestigiosas”, “pluralistas” e “politicamente corretas” que compõem a superestrutura desta sociedade.)

ocasionalmente, alguns deles até proíbem seus e suas “melhores” funcionárias e funcionários de usar piercing, saias, esmalte, lantejoulas ou tons escuros de pele.

e é em parte por conseqüência de sua adesão “cidadã” irrestrita ao livre arbítrio do livre mercado da autodeterminação dos povos dos méritos individuais de cada cidadão civil(izado) que a jovem menina do caixa do pão de açúcar não pode usar piercing no nariz, não, sinhô, não, yayá.

supomos, em nossa vã filosofia, que aquele apêndice “moderno” e “vulgar” poderia chocar fregueses mais conservadores, agredir o senso estético e a elegância de freqüentadores mais “finos”, provocar piripaque em velhinhas mais cardíacas.

mas, não, dormirão tranqüilos fregueses, freqüentadores, velhinhas e altos executivos: piercing não pode!, a “nobre” família paulistana está salvaguardada!

enquanto o murmurinho corrói as árvores ao redor, comentamos com a moça do piercing camuflado que, assim, desse jeito, com aquele esparadrapinho meio arroxeado piscando no nariz, cada vez mais e mais gente freguesa ainda vai olhar e estranhar e perceber e perguntar e prestar atenção no piercing que o pão de açúcar (não) tolera e que ela (não) usa .

ela solta um riso discreto, mas satisfeito, e responde que sim.

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