névoa

ei, tu, cara-de-tatu. pega teu preconceito mais recôndito, aquele que mais te incomoda porque, quanto mais tu tentas expeli-lo pelo cuspe, mais ele te corrói por dentro.

ei, você aí. que tal levar seu preconceito para passear um pouquinho?

dê uma volta com ele. passeie pelas calçadas, vá pela sombra. mostre ao seu preconceito os cachorrinhos no pet shop. juntos, façam muxoxos às crianças de 12 anos entupidas de consumismo mórbido de shopping center.

ainda que seja difícil, respeite seu preconceito. pague-lhe um sorvete. evite o marketing nas vitrines, sucumba ao marketing onipresente: carregue o seu preconceito para dentro do cinema, conduza-o a assistir um filmão hollywoodiano cotado para ganhar o oscar. compre um saco grande de pipocas.

pague duas entradas, uma meia para você, uma inteira para o seu preconceito. colabore na campanha benemerente que levará o dramalhão da hollywood mountain a faturar bilhões de dólares mundão pobre a fora e umas estatuetas de marketoscar no ex-epicentro do planeta.

e, bingo!, pegue-se de repente de mãos dadas com seu preconceito, no escurinho do cinema, entre beijos lânguidos (de língua) e fogosos, enquanto “brokeback mountain”, de ang lee, se avoluma diante de seus (quatro) olhos.

goste. emocione-se um pouquinho assim, ó. derrube uma lágrima furtiva, mas saia do cinema dando de ombros para o “western gay”, por não ter se identificado tanto assim.

então olhe de novo para seu preconceito, veja como ele está mudado. pergunte-lhe se gostou do filme (com jeitinho, para não magoá-lo).

molhe seu preconceito com um copinho d’água gelada (antes, faça um bochecho, tire o sal e os piruás do dente, cuspa). teste seu companheirinho eriçado, umedecendo-o, para descobrir se, depois do filme com que você não se identificou tanto assim, seu preconceito irá proliferar feito gremlins n’água, ou se, pluft!, vai se extinguir feito sal diluído em água doce.

dê soro ao seu preconceito. ele merece.

chuvisque-o de lágrimas, suor, urina, sangue, esperma, sucos vaginais, saliva, catarro. cuspa. engula. aplique um chego, uma chegadinha, um xamego, um bole-bole no seu preconceito.

cuide-se bem, perigos há por toda à parte, e é tão necessário viver. mas cuide do seu preconceito no escuro do seu quarto, à meia-noite, à meia-luz. dispa-o de seu capote “pré”, desnude-o, acaricie-o e faça-o gozar feito conceito nu (goze com ele), materializado em pré-pós-conceito, em tudo ao mesmo tempo agora onde tudo se mistura.

mate seu preconceito. deixe-o à míngua de inanição. só então olhe-se despido(a) no espelho e veja-o ali de volta, transmutado feito zelig em sua própria face. repita todo o ritual, moldando-se à sua própria imagem e semelhança como fizera até então com seu preconceito (peça o dinheiro de um dos ingressos de volta na bilheteria).

entenda, com carinhos à farta, que o seu preconceito É você, e que você É o seu preconceito.


flor

o grande lance de “brokeback mountain” está em ser uma modalidade de filme (ou de atitude humana, em termos mais abrangentes) bastante inusual para todos nós, independentemente de nossa própria natureza: é um filme que coloca em xeque e em choque e em confronto e em harmonização elementos que até o final do século passado não cabiam juntos num mesmo compartimento, por serem, aparentemente, 100% incompatíveis uns entre os outros.

antes, como já disse o cantor popular, mulher era mulher, bicha era bicha e a mulata não era a tal. filme gay era filme gay, black movie era para black people (ainda não há tradução precisa em português), filme de faroeste era para joão machão valentão, e assim por diante – e filme branco, masculino e heterossexual podia ser visto livremente por gays, negros e mulheres, porque não havia perigo nenhum de gay virar hétero por assistir ao beijo ardoroso entre um homem e uma mulher, nem havia risco de o sujeito virar michael jackson de tanto se mirar em leonardo dicaprio e nicole kidman, nem mulher nenhuma saía cuspindo do cinema por assistir a tanta violência testosteronizada. tudo que não tinha remédio remediado estava.

pois eis que, entre centenas e milhares e milhões e bilhões de pessoas que estão cerzindo esse mesmo novo tecido nas periferias (e no centro) do mundão afora, ange lee de repente nos aparece com “brokeback mountain”.

[ang lee nasceu em pingtung, taiwan, do outro lado do mundo.]

por elegante espírito do tempo, mas também por habilidades ancoradas em psicologia, razão, sensibilidade, emoção e sabedoria, ang lee logrou atravessar as fronteiras que antes não se atravessavam.

moveu ao escurinho do cinema exércitos de pessoas ainda receosas, semi-hipnotizadas, apegadas em proposições-bóias como “não é só um western gay” ou “é uma história de amor universal, que vale para qualquer um”. multidões silenciosas entraram no e/ou sairam do cinema ainda amedrontadas, atordoadas – mas certamente modificadas, por terem tido a coragem de pular a barreira, primeiro, e pela experiência vivida, depois.

ang conseguiu colocar “só um western gay” na vitrine histérica do oscar, o que moverá mais e mais multidões silenciosas à doce arapuca armada por ele. tantos
farão como os que já fazem e dirão que “brokeback mountain” só é possível porque não edifica uma história de redenção gay, ou porque se ajusta (por isso mesmo) à américa autopunitiva & atormentada de mr. bush – bullshit! [é só prestar atenção minuciosa às muitas piadas ferinas que ang lee remete ao texas, ao texas de mr. bush. só faltou ser (quase) explícito também ali, mas eu (acho que) entendi. até tu, mr. bush?]

pois então, dear, mr. bush, aí mesmo no coração de sua terra em guerra cega contra o espelho chamado “terrorismo fundamentalista islâmico”, ang lee veio de olhos puxadinhos universalizar um tema que até então ainda não saíra desavergonhadamente do armário, com todos os olhos abertos para cenas não só de beijos que não ousam dizer seus nomes, mas até mesmo de – suuuuuustoooo! – sexo anal quase explícito entre dois homens. ninguém perdeu um pedacinho sequer por ter passado por tais cenas, ou será que perdeu?

[alguma saudade do tempo em que fechávamos os olhos, assustados, aos excessos sanguinários de jason, freddy krueger e rocky balboa? teremos doravante de fechar olhos indignados às cenas de sexo quase explícito? acabou a era do subterfúgio, ou alguém ainda precisa dum alien e duma sexta-feira 13 para viver?]

investido de coragem, lee arquitetou a travessia que iria transportá-lo e a seu filme da “sociedade secreta de armário” (alô, bares gays!, alô, opus dei!, alô, candomblé!, alô, maçonaria!, alô, ciganos!, alô, escotismo!, alô, igreja evangélica!, alô, vaticano!, alô, tfp!) para a “sociedade ‘normal'” (alô, santa “normalidade” do pauzinho oco!). e se flagrou, ele próprio, executando a travessia que seus dois adoráveis personagens não conseguem concluir, da não-aceitação social à aceitação social, da auto-rejeição individual à franca autoaceitação individual.

ouso dizer que ang lee deve ser outro homem depois da urdidura e do sucesso (intelectual, não indu$trial) de seu filme. se ele quis mover o mundo ao seu redor a partir da movimentação destemida de si próprio, eis.

será que ang lee perdeu algum pedaço no percurso? será que resiste inteiro? e seus espectadores, os resistentes-temerosos e os românticos-ansiosos, os que nunca viram nem quiseram ver o beijo de juninho em “américa” e os que tanto quiseram ver, mas não viram o beijo de juninho em “américa”?

não sei se perdemos pedaços, mas todos, gays e héteros e bis e pans e trans, saímos do cinema em fila silenciosa, assustadiça. independentemente das compotas e cubículos e gavetas em que nos guardamos, cada um de nós, saímos, muitos de nós, desconfortáveis do cinema, matutando que “essa história não diz respeito a mim”, “não me identifiquei”, “é só um western gay” (no caso dos héteros), “esse filme é bom para hétero ver, não para mim” (no caso dos gays), “não é só um western gay, é uma história de amor universal” (os héteros), “será que lá no fundo esse filme está contando a minha própria história?” (os gays).

ou, hum, atendendo à arquitetura de ang lee e invertendo tudo onde tudo se mistura: “não é só um western gay, é uma história de amor universal” (os gays), “será que lá no fundo esse filme está contando a minha própria história?” (os héteros). e os bis, e os pans, e os trans, e os assexuados, nossa senhora, quanta gente saindo aturdida do cinema!

o desconforto é amplo, venha ele em forma de leve irritação, encantamento, identificação (in)esperada, negação, indiferença, pena, consternação, tristeza, melancolia, gosto amargo de fracasso compartilhado. porque “brokeback mountain” conta, sim, a história pessoal de cada um de nós, na medida em que permitimos, como o casal atópico do filme, que nossos sonhos íntimos se deixem aos poucos, ao longo da vida toda, sucumbir ao rolo compressor de uma entidade opressora e essencialmente feroz e sanguinária chamada “sociedade”.

“brokeback mountain” somos nós mesmos porque é (somos) o retrato da opressão intolerante que o nosso vizinho comete diariamente contra aquilo que de mais precioso guardamos dentro do nosso próprio armário.

“brokeback mountain” somos nós mesmos porque somos (é) a mola propulsora da máquina da sociedade, aqueles que calam diante das minúsculas humilhações individuais diárias, que se fazem dia a dia submissos ao rolo compressor que, afinal, foi construído por um monte de pessoas iguaizinhas a (e diferentinhas de) nós mesmos.

“brokeback mountain” é o sujeito desajustado, a ermitã, o pária social, a solitária no sótão, o fascínora feroz, a bela adoecida, o tolo na colina, a moura torta, o mendigo na esquina, a louca varrida. são o homem e a mulher que optaram por dar de ombros e de costas a seus próprios desejos para não aborrecer uma sociedade sem desejos, sem personalidade, sem vida, para não despertar a fera ferida adormecida oculta atrás desta sociedade.

“brokeback mountain” é a “laranja mecânica”, a anti-“laranja mecânica”. é a montanha-monolito de “2001, uma odisséia no espaço”, o antimonolito, aquilo que arde e cura. stanley kubrick morreu, viva o rei stanley kubrick.

“brokeback moutain”, dando de costas a dar de costas a si própria, é o século xxi se olhando de frente, cara a cara, sem medo de quem espreita ali atrás. é o mundaréu de gente diferente que não se entreolhava frente a frente embarcando na mesma nau, no mesmo noé, na superfície contínua do mesmo planeta. é um grito pela paz e pela tolerância. mr. bush não se verá do mesmo modo como se via se ousar assistir a “brokeback mountain”. ou olhará no espelho e verá osama bin laden, ou gisele bünchen, ou um dos anões amigos de branca de neve.

ops, tropeço. talvez o mais provável seja que mr. texas “billy the kid” bush não assista jamais a “brokeback mountain” (alô, saddam hussein!, alô, mr. fhc!, alô, seu lula!, alô, mano chávez!, alô, madame bachelet!, alô, companheiro fidel!). não se pode ter tudo ao mesmo tempo agora. lamentavelmente a resistência e a intolerância seguem poderosas penetrando feito lança pontuda (ui!) a era de aquário e o século xxi.

mas, ok, a resistência a “brokeback mountain” (daquele tipo tão martelado -apavorado- como “não sou obrigado a ver dois homens se beijando”, “não vejo filme de gay”), a esta altura, terá sido a resistência à realidade. o medo de ver “brokeback mountain” é o mesmo medo que mantém espectadores “arrumadinhos” distantes de, por exemplo, “a pessoa é para o que nasce”, o filme brasileiro que ousa despir de preconceitos atávicos os corpos lindos de três cantadeiras cegas velhas gordas pedintes de esmolas no sertão da paraíba. alô, maroca, alô, poroca, alô, indaiá.

se você tem medo de “brokeback mountain”, de “a pessoa é para o que nasce” e de um punhado de obras novas de arte que estão pintando por aí, prepare-se, porque daqui por diante você há de sentir cada vez mais medo (e não, não é carrie, a estranha, quem veio para te assombrar). são as portas dos armários que estão sendo todas abertas. e o ar que está entrando é tão fresco e refrescante quanto pode ser asfixiante e causador de vertigem para narinas acostumadas por demais à naftalina da hibernação.

porque mofo é veneno, mas ar puro também inebria e entontece. respira fundo, tu. a atmosfera é toda tua – elege o ar que tu preferes respirar, ó, minha flor de quantos sexos e cores e credos quiseres ter.

[p.s.: e eis que este blog se rendeu ao assunto da temporada, ao bochicho da moda, à grande roda compressora que infesta todas as logomarcas planeta afora para locomover mais um bloquebâster fantasmagórico da montanha nada mágica hollywoodiana. este blog não tem patrocinador, não ganhou nenhum centavo por isso, está propagandeando o rolo-ang-compressor-lee à toa, de graça. pirateou uma foto no cyberespaço para ilustrar o tijolaço – dona hollywood não deve se incomodar. a mobília do mundo tá toda revirada, mesmo.]

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