lado b
o único show das cercanias do tim festival 2005 a que me rendi foi o do television, que eu amo tanto, tanto, tanto. sabe aquela mística que gira solta no ar carregado, de que o velvet underground conquistou pouquíssimos fãs lá por 1967, mas que motivou a maioria desses fãs a formar suas próprias bandas de rock’n’roll? pois é, television foi uma delas, e certamente muita gente boa que ouviu television lá por 1977 também se sentiu movida a botar o pé na profissão de tocar uma guitarra e de cantar. tom verlaine é incrível, o show foi excelente (apesar de não muito envolvente), o ambiente estava tranqüilo, e tal e coisa, e coisa e tal. me deixei ser assaltado assim por uma felicidade, uma nostalgia, uma nostalgia feliz. de repente percebi que o formigamento gostoso por dentro se devia, sim, à banda e ao show, mas menos a eles que a uma ternura interna minha comigo mesmo, um carinho que saía daqui, circulava eletricamente pelo som da television e voltava para cá, quentinho, morninho. é que, mais que de tudo, o gostoso estava sendo voltar a um antigo pedro que amava tanto, tanto, tanto ouvir o vinil importado de “marquee moon” em 1991, recém-chegado em são paulo, todo perdido e enebriado de patti smith, lou reed, debbie harry (e também de nara leão, paulinho da viola, clara nunes, mas agora deixa isso pra lá, o que é que tem?)… deu muita saudade, auto-saudade, saudade feliz.

lado a
em compensação, também andei ouvindo o novo disco de oswaldo montenegro, mais um retorno dele ao mito eterno-interno de “léo e bia”, musical que criou em sei lá que ano (em que ano?). assim como certas camadas de “formadores de opinião” adoram proclamar seus amores por mitologias do tipo television, no contrapé as mitologias do tipo oswaldo montenegro permanecem tabu, objeto blindado de que muitos nem aceitam se aproximar, outros detestam apaixonadamente detestar, outros gostam emparedados em silêncio profundo, sem nunca se atrever a deixar o amor montenegriano dizer seu nome. uma vez, alguém que estava assessorando o cantor de “bandolins” e “agonia” me perguntou por que a imprensa era tão refratária ao oswaldo, ao montenegro. eu não soube responder, saí pela tangente de explicações esfarrapadas, e até hoje me pergunto o por quê, aquele por quê. dizem(os) que ele é “chato”, né? (é mesmo?) mas, nestes dias de ânimos exaltados e invertidos, o cerco de silêncio dos “formadores” a oswaldo parece estar diminuindo uns decibéis – tanto é que a “edição especial” de “léo e bia” conta com a adesão de um elenco eclético que inclui, de “z” a “a”, zélia duncan, zé ramalho, sandra de sá, raíza (?), ney matogrosso, moska, lui coimbra, jorge vercilo, glória pires (lembra que nos anos 80 a glória foi cantora, um pouquinho?), eduardo costa. aí eu ouvi, e achei que as letras (nem sempre) são rasgadas, ferinas, fortes. e fortemente brasilienses (e, portanto, políticas). e (nem sempre) mais densas e trabalhadas que precárias ou populistas. e continuei sem resposta àquela velha pergunta sobre a refração dos formadores de opinião refratária. e também fiquei pensando que existe uma corrente elétrica condutora entre, sei lá, raul seixas, belchior, zé ramalho, oswaldo montenegro, renato russo, humberto gessinger, marcelo camelo…, que também não consigo explicar em português. no mais, além do mais, a versão de ney matogrosso para “léo e bia” é bem bonita. meus ouvidos pararam nos versos “qualquer maneira de amor varia/ e léo e bia souberam amar/ como se não fosse tão longe”. (e lembrei que oswaldo “descobriu” cássia eller e zélia duncan.) e eu queria saber se foi o oswaldo que “sampleou” o mote “qualquer maneira de amor vale a pena” de caetano veloso e milton nascimento, em “paula e bebeto” (1978), ou se foram veloso e nascimento que “citaram” o montenegro de “léo e bia”, agora re-neymatogrossizado. qualquer maneira…

lado a, lado b
e, depois, existem aqueles artistas que não pertencem à torcidona dos oswaldos montenegros, nem às torcidinhas dos televisions, porque conseguem ser maleáveis o suficiente para falar aos corações & mentes das torcidinhas que ficam dentro-fora das torcidonas, como das claquetonas que ficam fora-dentro das claquetinhas. estou falando isso porque está diante de mim “a time to love”, o novo disco de stevie wonder, que não tenho nenhum medo de afirmar que é um dos mais embasbacantes autores da história da música popular do planeta terra. (sei que a motown foi o iê-iê-iê dos e.u.a., o som radiofônico “vulgar” dos suis da américa dos nortes, mas alguém aí sabe dizer se stevie é considerado cafona, brega, kitsch, boco-moco na américa de cima, seu próprio lar?) stevie wonder não se gasta, não se banaliza. porque lança discos só vez por outra, desde que ultrapassou a zona de segurança das fases acachapantes da implantação da motown, nos anos 60, e da consolidação do pop negro à la stevie wonder, nos anos 70. (não que “part-time lover”, “jungle fever”, “chemical love”, “my love is with you”, das fases “decadentes”, também não sejam boas de doer, mas deixa isso pra lá, vem pra cá…) dá nervoso e tremedeira ver a capa de um disco novo do wonder, em pleno 2005. dá síndrome de abstinência das colossais “signed, sealed, delivered”, “superstition”, “you are the sunshine of my life”, “higher ground”, “heaven is 10 zillion light years away”, “they won’t go when i go” (terrivel, terrível, a letra dessa), “isn’t she lovely”, “master blaster (jammin’)”… ouvi o disco novo apenas uma vez, e ainda nem me atrevi a me atrever formar opinião qualquer. com stevie, bom mesmo é ir devagar com o andor, devagar, devagarinho, um pouquinho de cada vez, conservando o medo (gostoso) de estar diante de um novo álbum de wonder. mas, já que o pensamento não pára, já fico me fazendo perguntas tolas enquanto seguro a caixinha do cd: como alguém pode gostar de roberto carlos e não gostar de stevie wonder, ou vice-versa? como alguém pode não gostar de roberto carlos ou stevie wonder? como alguém pode não gostar de stevie wonder e roberto carlos? como é que pode um disco não ter apenas dois (ou um) lado(s)?

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