e a crise política continua ofertando oportunidades espetaculares, pela aura de clareza que ela adiciona a situações antes nebulosas, a condições antes ilusórias. a imprensa parece ser uma das bolas da vez, ao lado do império do futebol, das relações entre os médicos e a indústria farmacêutica e assim por diante. ou alguém ainda crê em mitos sobre neutralidade, imparcialidade e pluralismo do jornalismo, quando vê na banca a capa da “veja” desta semana, que ataca frontalmente a hipótese de o brasil passar a proibir a comercialização de armas de fogo em seu território? independentemente da convicção que cada um de nós vier a formar sobre esse referendo, é bom notar que a “veja” já formou a dela, peremptória. e parece querer com volúpia que seu milhão de leitores a compre também, instantaneamente. e, o mais importante de tudo: está armada até os dentes para defender o direito dos brasileiros “de bem”, dos brasileiros “honestos”, de continuarem armados até os dentes.

mas aí eu pergunto: por que diabos brasileiros “honestos”, “do bem”, precisariam ou quereriam ter armas de fogo em casa? será que a proibição do comércio de armas incomoda porque afeta os cidadãos “do bem”? ou porque transferiria um punhado de cidadãos “do bem” para o o rol “maldito” dos brasileiros “do mal”?

e, a bordo dessa gangorra, os maniqueísmos entre o “bem” e o “mal” resistirão a tudo, mesmo à queda do muro petista de berlim?

já que é para falar da “veja”, nessa mesma edição armada até os dentes a prestigiada revista semanal dá conta a seus leitores sobre os ipods que a gravadora warner entregou e/ou (e? ou?) quis entregar ao pelotão de jornalistas que iria entrevistar maria rita e/ou (e? ou?) criticar seu novo disco. a compacta comunidade que freqüenta as páginas da revista também semanal “carta capital” e/ou (e? ou?) habita este blog já sabe que a “veja” usou a “carta capital” e/ou (e? ou?) este blog para pautar essa “corajosíssima” “reportagem” não assinada.

queridos “veja”, a gente sabe que vocês lêem a “carta capital” e/ou (e? ou?) este modesto blog (o observatório da imprensa também já percebeu suas visitas, olhaí no blog-observatório do mauro malin, “em cima da mídia”, sob a vinheta “presente de gravadora”). vocês são bem-vindos aqui, apareçam mais vezes, a gente sempre pode conversar, dialogar, quem sabe tomar um chazinho juntos, bater papo, confrontar posições com elegância e civilidade. porque esse papo de apontar uma arma invisível para nossas têmporas, como se invisíveis fossem as nossas têmporas, não dá mais pé.

p.s. aos colegas jornalistas que aceitaram e/ou (e? ou?) devolveram os ipods da warner. não se trata, aqui, de julgar ou fazer patrulha sobre quem aceitou. cada um sabe de si e de suas próprias motivações, convicções e ideologias. mas não se trata, tampouco, de bobagem ou fofoca de comadre. é importante, importantíssimo, que essa entidade aterrorizante chamada “imprensa” seja confrontada com seus próprios “paradoxos” e “contradições”, especialmente num momento em que ela própria tem investido com apetite sangrento em apontar (com a munição imaterial – e várias vezes letal – da palavra) “deslizes” “morais” da política, do futebol, da música, da medicina, da farmácia, da “sociedade civil” moradora do viaduto da “baixa avenida paulista”. no meio do caminho havia uma imprensa, e ela era não só observadora como também personagem da trama de que tantos “cidadãos” adoram se dizer “envergonhados”.

p.s. aos queridos “veja”. se aqui fosse a indústria fonográfica, será que vocês não batizariam essa apropriação não creditada de informações de outras revistas & outros blogs de… pirataria? pirataria é só na indústria de discos, livros, perfumes, calçados, roupas, remédios & bobagens que tais?

hum, esse assunto me lembrou de dona rita lee, que inventou com lee marcucci uma música chamada “pirataria”, no longínquo 1975, quando o termo ainda não era dotado da aura armamentista-belicosa que possui hoje – ainda não sabíamos se a pirataria que vinha vindo seria “do bem”, “do mal” ou, ora, bolas, nem uma coisa nem outra. dizia mais ou menos assim, nos trechos mais aplicáveis para o nosso casinho aqui:

“enquanto isso eu continuo no mar/ a ver navios pra poder navegar/ a nau dos desesperados/ navio-fantasma e seus piratas pirados!/ não, não!”

ou, então,

“não é possível ser pirata em paz/ que um transatlântico vem logo atrás/ eu sei que ele está perseguindo/ o meu tesouro escondido/ não, não!”.

por gentileza, não repare no excesso de “aspas” deste texto. é que esta vida anda mesmo uma ilha cercada de “aspas” por todos os lados.

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