então eu fui almoçar, num restaurante moderninho do bairro de higienópolis. como estava sozinho, enquanto esperava o rango lia as análises políticas mais recente na revista semanal (não vou dizer que era a “carta capital” porque essa é a revista do meu patrão e não quero aqui fazer finta de capacho – sentiu a ironia no breque?). estava todo aberto na página que estampava uma big foto de luiz inácio, quando chegou o garçom para servir a minha quentinha.

de repente, tudo se transformou. meu olho pipocou do lula e pulou para o bife, enquanto o olho do garçom pulava de mim para o steak e do medalhão de carne para o presidente de papel na revista de papel. garçom versus freguês, todos os olhos se encontraram nos meus e nos dele. e ele resolveu romper suas próprias noções de hierarquia, aparentemente impróprias para aquele salãozinho invocadinho da higienopolândia, chão-poleiro de fernandos, de henriques, de cardosos. pôs-se a falar, a voz bem baixinha para não atrapalhar o trânsito.

“e aí? ele sabia ou não sabia?”, foi o cochicho-pergunta-desafio que o garçom me entregou fumegando acompanhado de um filé com pimentas verdes.

pára, pedro, pedro, pára, pensa, respira, responde.

“ele sabia, ao que tudo indica, né? mas a gente também sabia, não sabia?”, respondi-perguntei, revelando-me mais para mim mesmo que para meu questionador.

pronto, foi a senha. cheguei a temer que se instalasse um súbito mal-estar, mas, não, o garçom se abriu em flor. puxou um papo arretado, falou fartamente sobre política, contou-me detalhes que eu desconhecia sobre a privatização da companhia vale do rio doce nos tempos tucanos do quase-vizinho fhc (pra ser sincero, ainda não assimilei bem a maracutaia que ele me contava – ficou para a próxima tentar decifrar essa). mas o garçom falou, falou pelos cotovelos, coisas tipo essas que tento agora plagicombinar (sob o risco de inventar um pouquinho por sobre os modos de fala que não consigo propriamente arremedar):

“agora estão todos os partidos unidos contra o pt e o lula, são todos contra um. pra mim tem algo esquisito aí.”

“eu nunca tinha votado no pt nem no lula, só votei desta vez. agora querem dizer que ele é o pior de todos os presidentes, mas eu não acho ele o pior.”

“ele não pode ser tão ruim assim. quando entrou o dólar estava a cinco reais, hoje está a dois.”

“o lula é muito respeitado lá fora, como nenhum outro presidente do brasil foi.”

“eu sou pernambucano como ele. conheço pernambuco. meu lugar de origem é ruim. mas o dele é pior ainda.”

antes que a sola de sapato esfrie, não resisto à sanha de fazer pesquisa eleitoral, ainda mais que o sujeito me surpreendeu sinalizando que odiava o pt e agora – justamente agora – não odeia mais.

“vota nele de novo?”, pergunto-torço.

“não”, responde, sólido como o pretume da coca-cola que borbulha no copo.

aplico meu confessionário: “eu voto. muita água ainda vai rolar até daqui a um ano, mas, para mim, ele não só não é o pior como é o melhor presidente que nós temos em muito tempo”.

olhos se cruzam de novo, a mesa ao lado chama, mastigo as fibras, leio revista, ele volta, comenta mais um pouco.

“e o roberto jefferson? não era aliado, do ptb? eu queria entender qual é a dele, por que ele fez isso. eu não entendo.”

“ficam criticando o que o pt fez, mas todos os partidos não fazem igual? é tudo igual. fizeram o mesmo, e pior ainda. o que o fhc fez não conta? e a vale do rio doce?”

“meu patrão não pára de falar mal do lula. quando ele está aqui, eu discuto com ele o tempo inteiro.”

não bastasse a gentileza de debater política comigo, ainda me brinda com a madrepérola de alertar que não engole mais, não, esse papo-sapo de patrão. que patrão pode até resmungar (ó, minha santa ladainha lamuriosa do bigode loiro!), mas vai ter que ouvir de volta – aliás, não é isso mesmo que está fazendo comigo, com o freguês higienopolitano, higienopolista?

arquiteto uma retribuição, um gesto generoso que possa ser interpretado por ele como um agradecimento por sua doce rebeldia sem papas na sola do ovo. enquanto arquiteto, mr. servidor me devolve mais uma, aumentando o tamanho da minha gratidão:

“disse que não votava, mas ainda vou pensar. sou bem capaz de votar nele de novo, sim”, dispara, sólido como as fibras doces de um canavial, como os goles viscosos de uma garapa temperada com muito gelo e gotas grossas de um belo limão.

ai, ai, ai. chamo-o para ver, avanço umas páginas na revista e mostro a ele as frases do presidente do ibope sobre lula: “é a maior crise da história. qualquer outro presidente já teria caído. sarney, fhc, itamar…”

tento panfletar. “pra mim, isso é sinal de que este presidente é forte, é respeitável, como nenhum dos que vieram antes conseguiram ser”, ensaio, todo desconjuntado (e nem agora consigo reproduzir o desajeito todo de minhas próprias palavras, desacostumado talvez com os modos de fala da discussão em viva voz, sem o filtro solar da parede da torre de papel, nem das classes sociais “inimigas”).

ele, o garçom, se infla de um contido contentamento, “é, o cara é forte”.

porque o sertanejo, meu caro garçom, é antes de tudo um forte. estamos falando de bóias-frias, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados. estamos falando de lula, do garçom, de mim. estamos falando de/com um, ou melhor, dois cidadãos que votaram no lula e se vêem sob a ameaça do emparedamento, da farsa patroa que quer entubar preferencialmente em suas contas correntes o depósito-bomba de mais um monumental equívoco histórico.

mas não.

saio do restaurante satisfeito, reabastecido, a cabeça ribombando as frases preciosas do garçom-lula sobre patrões, pernambucanos, sertanejos, fernandos, luizes. a fala desembainhada, a opinião confusa, as noções nítidas construídas de dentro para fora e o desejo de participação não hierárquica reforçam e revigoram essa minha sensação tão presente-pulsante, de que estamos bem no umbigo de um momento ímpar, único, incrível, histórico.

como disse alguém lá no blog do idelber outro dia, o umbigo fica longe do cérebro – de dentro do umbigo, não dá para raciocinar direito. como disse meu xará pedro noizyman há pouco aqui no meu blog, “isto é a história acontecendo, mudando o mundo e as nossas vidas, right here, right now”. a diferença, que o garçom pernambucano ensina de cátedra, é que há uma nova consciência no ar, que não há de permitir que troquemos as mãos pelos pés nem que confundamos os equívocos de agora com os equívocos de sempre.

não vamos meter mais essa nota de dois dólares furados no bolso. sim, já amargamos equívocos históricos colossais, mas esta não é uma época governada pelos patrões que espumam “a culpa é do povo”, nem uma época governada pelo equívoco – o governo, hoje, mora dentro do homem que serve nossa ração, mora dentro da mulher que requenta nosso feijão. mora dentro da nossa cabeça.

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