como tentativa de reagir à crise, me pego aproximado do universo penitenciário, pela via da leitura de “meu casaco de general – quinhentos dias no front da segurança pública do rio de janeiro” (companhia das letras, 2000), de luiz eduardo soares. onde tudo se mistura, sorvo em suas linhas um casamento explosivo (implosivo?) de cohecimento acadêmico (o cara é antropólogo, cientista social, sociólogo, professor etc.), vida política (o cara trabalhou em secretarias de segurança pública no rio, no rio grande do sul, no brasil), vida policial (o cara conviveu diretamente com delegados, coronéis, generais, meganhas, cabos, recrutas, bandidos), vida artística e suburbana (o cara fez teatro, o cara é chapa de marcelo yuka e mv bill).
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dá alento e dá desencanto. percebo que, de fato, a vida política é a vida policial é a vida suburbana é a vida publicitária (duda mendonça chora agora na tevê situada nos meus ombros) é a vida cotidiana é a vida real.
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não há discurso articulado possível neste instante, mas deixa eu propor um brinquedo, uma brincadeira, um folguedo? estando ainda no início da leitura, já destaquei trechos impressionantes, que dão mais alento que desencanto, que esclarecem falando supostamente de outro assunto que não o que nos mobiliza a todos aqui-agora.
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então, a brincadeira é de roda e quintal (de quebra-cabeça) e é cibernética, internética (de recorte-e-cole). destaco trechos lindos, brutos, impactantes, esclarecedores. intervenho sobre eles, justapondo negritos, itálicos, parênteses, numerais, penduricalhos, badulaques. no final de cada trecho separado por [colchetes], a gente volta e brinca de roda, de recortar-e-colar. uni-duni-tê, o escolhido foi vo-cê.
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[“como sugeria mandela, ‘verdade e reconciliação’. os gregos, na antigüidade clássica, consideravam o esquecimento a pior punição, a mais grave das maldições, o pior que se poderia desejar a um ser humano. aprendi, no jacarezinho, que a superação da tragédia coletiva depende da celebração pública da memória individual e coletiva dos grupos vitimados pela barbárie do estado. a reconciliação será possível apenas se aprendermos a suportar a verdade.”]
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brincadeira, recorta-e-cola! luiz eduardo soares está falando de polícia, de violência, de (a)política pública de segurança. mas não soa um gongo, um sino, um alarme o’clock? e se misturássemos tudo? se recortássemos “mandela”, colássemos (sob sua própria resistência e perplexidade) “lula”? brincando mais, vamos trocar “jacarezinho” por “brasil”, por “planeta terra”? “barbárie do estado” por “apatia do cidadão”, “barbárie do cidadão”? “reconciliação” por “cpi”? o que mais, que trocas mais?
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milhares delas podem ser feitas. mas fiquemos, por ora, com a semiconclusão: a reconciliação será possível apenas se aprendermos a suportar a verdade. sem falsos sustos, sem capuzes, sem máscaras, sem maquiagens, sem falsos moralismos, sem auto-sabotagens tenuemente suicidas. próximo trecho.
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[“a postura tradicional das esquerdas sendo negativa, diz-nos o que não fazer; é omissa sobre o que fazer. adotar uma posição negativa, denunciando os erros, ainda que seja insuficiente, funciona quando se está na oposição. mas é trágico quando se está no poder.

(os militantes dos partidos de esquerda e das organizações não-govenamentais costumam cumprir com bravura e dignidade o papel de críticos dos governos e das polícias 1), (denunciando abusos, brutalidade e corrupção policiais, desrespeito aos direitos humanos e aos direitos civis 2). (todavia, poucos traduzem as posturas negativas em propostas, convertendo a indignação em sugestões práticas sobre alternativas viáveis. há exceções, como o viva rio e o sou da paz, que nasceram exatamente para reverter essa tendência. mas, apesar das notáveis contribuições que já contabilizam, são ainda poucos esses atores criativos e comprometidos com a construção do futuro, que vão além das cobranças e denúncias 3).

(nesse ponto, é preciso ter cuidado 4). não pode haver lugar, aqui, para mal-entendidos: (denunciar é importantíssimo, ajuda a salvar vidas e a sensibilizar a sociedade, preparando-a para admitir e até reivindicar posturas mais inteligentes e civilizadas do poder público. mas não basta 5). (já derrotamos a ditadura. nossa tarefa agora é reinventar a sociedade brasileira. e a responsabilidade é nossa, de todos e de cada um 6). (é difícil esperar o salvador que nos conduza pelo deserto até o paraíso. é perigoso cruzar os braços e torcer para que a história faça seu trabalho evolutivo, corrija espontaneamente nossos defeitos, nos devolva a trilhos civilizados e separe o joio do trigo. a história não é o livre jogo do mercado, não é a mão invisível da natureza, não é uma entidade mágica. a história, afinal de contas, somos nós mesmos e o que nossas parcas virtudes puderem fazer de nossos destinos incertos. nossa responsabilidade é intransferível. melhor elaboraramos bem nossas convicções 7).”]
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recorte-e-cole. brinque de ser sério, leve a sério a brincadeira:
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(1) troque, a seu bel-prazer, “militantes dos partidos de esquerda e das organizações não-governamentais” por “jornalistas”, “críticos de música”, “analistas políticos”, “donos de mídia”, “eleitores do lula”, “eleitores anti-lula”, “lula”, “classe política brasileira”, “músicos populares”, “artistas”, “policiais”, “cidadãos que acham que bandido tem que morrer”, o que mais você quiser dentro do seu próprio micro-universo.
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(2) saia de dentro de sua própria delegacia moral, mental, particular, e abranja “abusos, brutalidade e corrupção” a quem mais tiver o dom da (ir)responsabilidade neste mundo em que calhamos de viver: “governo”, “oposição”, “mídia”, “imprensa”, “cidadão alienado”…
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case (1) com (2), produza (3), veja que bicho que dá. se puder, mentenha guardada a semi-conclusão macerante (POUCOS TRADUZEM AS POSTURAS NEGATIVAS EM PROPOSTAS, CONVERTENDO A INDIGNAÇÃO EM SUGESTÕES PRÁTICAS SOBRE ALTERNATIVAS VIÁVEIS, pronto, gritei!, até que enfim!), mantenha acalentada a semi-conclusão alvissareira (SÃO AINDA POUCOS – mas existem! – ESSES ATORES CRIATIVOS E COMPROMETIDOS COM A CONSTRUÇÃO DO FUTURO, QUE VÃO ALÉM DAS COBRANÇAS E DENÚNCIAS, pronto, cochichei…, com suavidade e em voz alta…).
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(4) tome cuidado. se arrisque. tome cuidado se arriscando. ouse. mexa-se, acorde, desperte, há um líder dentro de você.
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(5) recorte-e-cole. mantenha “poder público” no lugar, mas ao mesmo tempo troque “poder público” por “eu mesmo”. compartilhe. poder público é você mesmo, meu nego, nega minha. leia, releia, corte-se, cole-se, coloque-se dentro de sua crítica. autocritique-se, autoacaricie-se, ame-se, mova-se. guarde bem forte a semiconclusão azedinha-doce: “NÃO BASTA”.
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(6)
já derrotamos a ditadura
já derrotamos a ditadura
já derrotamos a ditadura

nossa tarefa agora é reinventar a sociedade brasileira
nossa tarefa agora é reinventar a sociedade brasileira
nossa tarefa agora é reinventar a sociedade brasileira

a responsabilidade é nossa, de todos e de cada um
a responsabilidade é nossa, de todos e de cada um
a responsabilidade é nossa, de todos e de cada um

como 2 e 2 são 5,
a responsabilidade é nossa
a responsabilidade é nossa
a responsabilidade é nossa
a responsabilidade é nossa
a responsabilidade é nossa
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(7) pense na polícia. pense no vidro fechado que separa você da criança que faz malabarismos no sinal vermelho. pense na política. pense na raiva que a corrupção lhe provoca. pense nas suas trepadas apressadas, interrompidas. pense nos seus amores evitados, malvividos, malsucedidos. pense no beijo que você não deu na testa do seu pai, da sua mãe, de sua irmandade. inverta a ordem e não altere os produtos, mantenha pulsante a semiconclusão, inverta a ordem e altere o produto:

nossa responsabilidade é intransferível
nossa responsabilidade é intransferível
nossa responsabilidade é intransferível

a história, afinal de contas, somos nós mesmos
a história, afinal de contas, somos nós mesmos
a história, afinal de contas, somos nós mesmos

porque depois que você morrer, companheiro(a), a história acabou para você. a história é aqui-agora, malditos os homens que tiveram a sorte de nascer num tempo interessante. quem sabe faz a hora, não espera acontecer. vem, não vamos embora. vem, vamos ficar. por isso eu resolvi agora: eu vou mais ficar. próximo trecho.
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[“(os bons policiais vivem um drama que não deveria ser subestimado. ganham pouquíssimo para arriscar a vida, com freqüência moram longe do trabalho, têm de esconder a identidade profissional, pois onde moram isso pode lhes custar a vida 8). (além disso, envergonham-se dela, tal o grau de deterioração da imagem pública da instituição a que servem 9). (humilhados, negligenciados, condenados a um cotidiano muitas vezes modestíssimo, algumas vezes miserável, os policiais só são lembrados quando faltam, quando erram: cada dificuldade revelada, cada falha observada implica mais cobrança, mais pressão 10). não admira que tudo isso, preso na garganta anos a fio, exploda na primeira oportunidade, dentro de casa, com a família, no maracanã, numa briga de vizinhos, numa disputa de trânsito, na prisão de um criminoso ou na visita de um subsecretário. (que oportunidade melhor do que essa, a visita de um subsecretário? de início, as palavras são tímidas, como que a apalpar o terreno. os primeiros a falar tremem, balbuciam, desculpam-se pela ousadia, olham, a cada frase, seus superiores, buscando aprovação e licença 11). (ante a receptividade positiva, as palavras crescem de volume e ganham peso, conteúdo, gravidade. libertam-se até dos cuidados com a opinião dos oficiais. e quando estes falam, desligam-se das censuras do comandante. aos poucos, as mãos levantadas multiplicam-se, pontilhando o salão. logo a participação é torrencial. o tom predominante é de lamento, reivindicação e crítica não do que dissemos na palestra, mas da situação salarial, das condições de trabalho e da tirania do regimento disciplinar 12).”]
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(8) recorte-e-cole. troque “policiais” pelo nome da sua própria profissão (“jornalista”, por exemplo). troque, até, pela profissão de político do baixo clero, quiçá pela de político do alto clero, presidente do brasil ou dos eua, “dono do mundo” na “guerra dos mundos”. troque policiais por “heloísas helenas”, “robertos jeffersons”, “josés dirceus”. troque o joio pelo trigo, chame o joio de trigo, chame o trigo de joio. iguale, zere, reconstrua. consulte sua carteira de identidade, consulte-se: você é obrigado(a) a esconder sua identidade, sua identidade de homem, mulher, travesti; heterossexual, bissexual, homossexual; religioso, laico, profano; católico, evangélico, macumbeiro; cristão, judeu, muçulmano; crente, agnóstico, ateu; branco, pardo, preto; sedentário, nômade, cigano; nortista, sulista, oriental; sulista, nortista, ocidental; militar, civil, marginal; dasluzete, remediado, miserável; político, policial, reles vagabundo; músico, jornalista, publicitário; político, artista, empregada doméstica; santo, puto, louco; abstêmio, bêbado, drogado; médico, paramédico, curandeiro?
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case (8) com (9), cutuque sua(s) identidade(s): você se envergonha de sua(s) identidade(s)? envergonha-se de si próprio, antes-durante-depois de se envergonhar da classe política que você (não) elegeu? em seu rumo inevitável para a morte, deteriora-se de dentro para fora, ou de fora para dentro? constrói-se, enquanto se deteriora?
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(10) você comemora seus êxitos? você recebe elogios, se auto-elogia? ou você vive sob pressão, sob a contínua explicitação negativa e repressora de seus “erros”, “culpas”, “falhas”, “impotências”? recorte-e-cole, troque “policiais” mais uma vez por “eu mesmo”, e/ou troque “policiais” por “presidente lula”. você comemorou algum êxito do presidente lula (ou “meu mesmo”)? ou se deteve, desde o primeiro minuto, a condená-lo/censurá-lo/repreendê-lo/reprimi-lo por qualquer ato que ele (“eu mesmo”) praticasse? antes de lula, fez isso com os ex-presidentes do brasil? quantas vezes por dia você faz isso com você mesmo – se autocondena, se autocensura, se auto-repreende, se auto-reprime violentamente? não se reprima, não se reprima. não me reprima, não se reprima. não nos reprima.
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porque violência policial, meu caro, minha querida, mora dentro de sua própria delegacia moral particular. é lá dentro que são presos, torturados e mortos mais “políticos corruptos”, mais “marginais”, mais “culpados”, mais “inocentes”. se você autorizar a demolição, sua casa e seu cérebro se tornarão sua própria cadeia, o complexo penitenciário que algema suas mãos, suas pernas, sua língua, sua liberdade. e todo presidente será, forçosamente, ruim, safadoladrãofeladaputa – afinal, o presidente não é igualzinho a você? entre dentro do contexo, aperte a mão de seu presidente. afinal, ele mora aí dentro de você, num cantinho escuro da sua cela moral particular. converse com ele um tiquinho, dê-lhe um caldo de feijão (de início bem ralinho, para não assustar), brinque de “fome zero” com seu pequeno presidente particular. seja presidente do seu corpo, governe, anarquize. isso é melhor e não faz mal.
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(11) recorte-e-cole. troque os policiais medrosos diante do subsecretário pelos políticos, pelos srs. senadores e deputados, pelo deputado sangüinário, pelo laranja, pelo publicitário de campanha, pelo acuadíssimo presidente da república. veja-os/ouça-os tremendo, balbuciando, desculpando-se pela ousadia e pela desfaçatez, olhando seus superiores em busca de aprovação e licença, renunciando à vice-presidência da cpi. goze o momento, um pouquinho só, se possível um montão. entre no barco, a barca grande já vai partir e você também é um bicho de noé. não se esqueça de que crocodilos também choram, também são filhos de deus. e que, domesticado por seu próprio presidente particular, também mora dentro de sua cadeia moral um fofo e gordo crocodilo. chore, não tenha medo, nem que sejam de crocodilo suas lágrimas.
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(12) ganhe peso, ganhe conteúdo, ganhe gravidade. ganhemos. percamos-os, também. desistamos de procurar a luz no fim do túnel, porque a luz é o próprio túnel, por mais escuro que ele pareça. libertemo-nos até dos cuidados com a opinião de nossos oficiais, exteriores ou interiores. multipliquemo-nos, pontilhemos o salão. lamentemps, reivindiquemos, critiquemos, mas pulemos também um passinho para a frente, bundinhas empinadas. de volta aos comentários acima, recombinemos (1), (2) e (3). façamos do limões uma baita limonada. embebedemo-nos de limonada de cereja, goiabada de marmelo, de (6) e de (7). a história, afinal de contas, somos nós mesmos.

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