hey, mãe, não sou mais menino, mas… na semana passada lá fui eu, mais uma vez, para um show do roberto carlos… era um lugar fechado, e talvez isso tenha colaborado para a instalação de um estado sereno de espírito, comandado com efeitos de pastor e pop star pelo cara mais sereno do pedaço…

as cabeças, muitas delas grisalhas, se distribuíam harmoniosamente pela imensidão daquela platéia, enquanto, ele… ele contava, com suavidade e aquele estilão “tô nem aí” de sempre, que, assim devagarinho, está tentando aprender a dizer não… “não”, uma dessas muitas palavras extirpadas do vocabulário do rei, virou a cereja do bolo do clássico “detalhes” (1971), quando ele desistiu de ficar repetindo apenas que “não adianta nem tentar me esquecer” e proferiu o “não” sonoro, solitário e redondo. “não”, fechou questão.

tudo isso, mãe, me causou uma imensa saudade de você (o dia das mães vinha chegando, para me complicar um pouquinho mais). você fez tudo por mim e jamais quer que eu sofra, mãe, e as senhoras grisalhas ao meu redor atendiam a qualquer mínimo comando do líder. se ele unia as mãos em palmas, lá iam elas, tão felizes quanto distantes do palco real, imitando o clap, clap, clap que rendia estabilidade, serenidade e felicidade ao homem de branco que fazia as vestes do reitor das maternidades. de repente, fiquei sentindo vontade de que você estivesse lá comigo, mãe, e que o pai estivesse com a gente também…

eu já sabia de antemão, mãe… aquelas senhoras prontas a fazer o coro do “sim” para seu rei maior me lembravam de você, mãe, não adiantava nem eu tentar lhe esquecer… eram mulheres sofridas, lindas, submissas, tristonhas, eufóricas, melancólicas e, acima de tudo, plenas de amor da cabeça aos pés. amorosas, amorosas como nenhum homem saberia ser. são coisas muito grandes pra esquecer, e eu fui ficando com saudade de você.

mas, contudo, eu não podia fazer nada. proteção desprotege, quando roberto carlos falava “não”, peremptório, nossas mães fingiam nem ouvir. preferiam colar seus olhos no acróstico para maria rita (eu também colei os meus). mas aquele “não” do rei iria ecoar mais tarde nos corações lotados de amor de todas aquelas mulheres. no início ia ser difícil, mas depois elas iam se acostumar. porque, mesmo idosas e submissas, elas tinham os ouvidos mais aguçados que ninguém, viam e ouviam, como sanchos pança de um garboso dom quixote, a seda que era seu rei naquele dia sereno de maio de 2005. escutariam o zunido da flecha de curare de seu ídolo romântico e lá mais adiante iriam começar a dizer também seus tímidos e minúsculos “nãos”.

e eu, mãe, que vivo alistado na legião avessa (aquela que devagarinho tenta aprender a dizer uns arremedos de “sins”), fiquei com muita saudade de você. meu coração também está lotado de amor, hey, mãe, e é por isso que desejo um feliz dia dos filhos e das filhas para a senhora.

[* embora se diga que roberto carlos compôs “como é grande o seu amor por você” (1967) para sua mãe, este texto de “ficção” prefere incorporar (samplear?) pequenos trechos de “detalhes” (1971) e de “filho único” (1976); as três canções são de roberto e erasmo carlos; roberto só não cantou “filho único”, que ficou por conta do tremendo erasmo carlos.]

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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