quer mais um exemplo de como atitudes de auto-admiração como a do jogador grafite se espalham rapidamente pela sociedade, feito rastilho de pólvora boa? pois já achei mais um.

outro dia, n'”o globo”, o jornalista hugo sukman (que eu respeito e admiro) deitou algumas bobagens sobre a jovem guarda, numa crítica sobre um disco realmente meio, er, irregular – um novo volume da série “um barzinho um violão” (mmmedo), cheio de alhos & bugalhos (minha faixa predileta é “o ritmo da chuva”, hit 1964 com demétrius, reinterpretada com imensa fofura por fernanda “pato fu” takai e rodrigo “los hermanos” amarante). não lembro direito as palavras, mas ele dizia que a jovem guarda não foi movimento, que só roberto & erasmo prestavam dentro daquele caldeirão, umas tolices tipo essas.

hoje, no mesmo “o globo”, deparo com carta-resposta na seção dos leitores, redigida por leno azevedo – ele mesmo, em pessoa, o gileno, potiguar de natal, o leno da dupla leno & lilian. repara só nestes dois trechinhos:

“nos estados unidos, a direita cristã chegou a queimar os discos dos beatles. aqui também tentaram algo semelhante com a ‘beatleânica’ jovem guarda através da famigerada passeata dos ‘bem-pensantes’ contra o iê-iê-iê (ponta do iceberg de uma intolerância que ainda pode ser observada hoje).”

“ter sido malvista pela extrema direita e sua similar tacanha, a extrema esquerda, foi o maior aval de independência artística que a jovem guarda podia ter tido. já hugo sukman a acusa de fazer ‘roquinho de branco’, afirmação contraditória, já que ele diz que o rock no brasil começou na tropicália (?!), em 1968. além de ter uma conotação racista, como se o fato de ser branco fosse um epidérmico defeito musical no rock. se falasse em ‘sambinha de preto’, provavelmente seria processado.”

reparou na atitude nova do leno, que substitui o habitual silêncio diante de agressões por um cândido gesto de apreço por sua própria obra? e ele enconstou num nervo exposto – racismo é tosco, e é tosco em qualquer caso, em qualquer casa e em qualquer cor (posso testemunhar, porque sou branco de olhos azuis e já cansei de ser chamado, em tom pejorativo/intimidador, de “branquinho” – mas, ei, posso me orgulhar da minha cor, dá licença?).

no mais, vou além do que o leno falou e lembro um outro detalhe ignorado pelo hugo na crítica: a jovem guarda foi a motown brasileira, o ponto de partida para toda uma linhagem “black music” neste belíssimo brasil negrão. muita gente que floresceu no iê-iê-iê virou bleque pau depois, mesmo tendo pele branca, e isso valeu, no início dos anos 70, para, por exemplo, wanderléa, erasmo carlos, roberto carlos e leno & lilian. nesse período, raul seixas, ainda desconhecido e exercendo o cargo de produtor de discos na cbs, foi grande eminência parda da jovem e negra guarda – um dos grandes discos dessa leva, que quase ninguém conhece, é “leno e lilian” (cbs, 1972), uma mistura explosiva de soul, funk e rock’n’roll, embalada por uma ternura que só a experiência jovem-vanguardista poderia ter ensinado.

não bastasse, a jovem guarda foi a escola de nomes efetivamente negros (ou quase), embora não propriamente iê-iê-iê, como tim maia, jorge ben, trio mocotó, wilson simonal, getúlio côrtes, cassiano, toni tornado, gerson king combo, hyldon, luis vagner, tony bizarro & frankye adriano, guilherme lamounier etc. etc. etc. é história à bamba, não dá para decretar que não existiu. abaixo a invisibilidade. e viva o grafite, seja para lápis branco, amarelo, pele-vermelha, verde com bolinhas rosadas, pardo ou negro como as noites que não têm luar.

(p.s.1: fico sabendo – alô, chris martins! – que erasmo, wanderléa, golden boys e the fevers estão começando pelo rio uma turnê de comemoração aos 40 anos da jovem guarda. o lado meio chocho é o eterno retorno às “comemorações”, que reduzem esses artistas a bem menos do que tudo que eles são. o lado comovente é que a turnê correrá os sescs de são gonçalo, madureira, são joão de meriti, niterói e nova iguaçu – ou seja, é o iê-iê-iê de volta às suas próprias origens, ao subúrbio, ao brasilzão natal nuclear.)

(p.s.2: além da fase rock’n’roll de leno & lilian, recomendo também os dois discos originais, bem iê-iê-iê romântico, da dupla: “leno e lilian”, 1966, e “não acredito”, 1967. já eram proto-soul music, mimosos até a ponta dos cabelos louros de lilian knapp e dos caracóis dos cabelos de leno azevedo.)

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