Vi que o colega Mauro Teixeira, blogueiro, escreveu uma crítica ao meu livro sobre Belchior. Não é totalmente desprovida de fundamento: a maior acusação que ele me lança é de não ter elucidado o “mistério erguido em torno de Belchior”, na acepção detetivesca da expressão. Nisso concordo com ele. Até tentei fazer uma autópsia noturna no corpo do cantor, mas não foi conclusivo o exame que poderia demonstrar a hipótese de envenenamento. Tentei também um download do córtex cerebral, para ver se tinha sido a amargura que o levara, mas o equipamento falhou.
Caricaturas à parte, o mínimo que posso dizer de Mauro Pereira é que é um ingrato. Ele escreveu errado o nome de Belchior durante toda a vida, em suas resenhas voluntariosas (provavelmente por conta do rigor investigativo que o fascina tanto). Isso perdurou até o dia de ontem, quando ele terminou de ler minha biografia e pela primeira vez grafou corretamente o nome: Antonio Carlos Belchior. O nome que estava na Wikipedia, de onde se copiava automaticamente tudo que era “amplamente conhecido” sobre Belchior, foi inventado pelos redatores de O Pasquim (Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes) para justificar o título da capa do jornal, O Maior Nome da MPB. Imagine você passar a vida escrevendo errado o nome de um artista, como fiz com o resenhista nos dois parágrafos acima?
Mauro Ferreira diz que escrevo com estilo e que meu livro “parece uma grande reportagem”. Não posso discordar. Às vezes me esqueço de fazer reportagens, mas logo volto atrás, como naquela canção do Wander Wildner. Tenho que advertir, porém, que A Sangue Frio, de Truman Capote, embora pareça “apenas uma grande reportagem”, é um livro referencial da literatura universal. Mauro ainda reclama uma biografia “que ilumine recantos escuros da alma do biografado”. Nesse ponto, parei imediatamente de me sentir lisonjeado com o elogio dele, de que eu tenho “estilo”.
Mauro exibe aquela pose de implacabilidade na análise de uma presumível falha da discografia. Ele exige lista de canções. Eu acho justo. Só recomendaria ao colega que, para manter as aparências de honestidade intelectual, retorne no tempo e exija isso também de Nelson Motta e O Som e a Fúria, biografia de Tim Maia que nem discografia tem e ele adorou. Ou de Caetano, uma Biografia, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que também não tem discografia – e 95% das biografias brasileiras de música, como as de Erasmo Carlos, Aracy de Almeida, Rolando Boldrin ou Elis (de Arthur Faria).
Para revestir de alguma autoridade seu argumento, Mauro aponta um erro de digitação (2006, em vez de 2016) na discografia, e a ausência de uma reedição de oportunidade em CD. São detalhes que poderão ser plenamente corrigidos numa segunda edição.
Mas foi quando ele disse que “tudo isso seria desculpável” se houvesse uma narrativa minuciosa da vida de Belchior que eu fiquei intrigado. Quem me desculparia? Tem que pegar senha? Ele me desculparia por escrever que Belchior era corinthiano, que estudou caratê, que ensinou a filha a apreciar Kurosawa e compôs a música Ypê tendo como inspiração a árvore da casa do sogro? Que compôs Vício Elegante para a namorada do Parque Ecológico do Cocó?
Sua noção de “minucioso” não fica muito clara. Eu gostaria que ele apresentasse (pode colocar um link aqui nos comentários, se quiser) um único artigo ou relato anterior ao meu que narre a vida de Belchior no mosteiro dos Capuchinhos ou na infância em Sobral. Um único artigo que comprovasse que essas passagens já tinham sido descritas anteriormente em periódicos ou livros.
Mauro acha que recorrer à própria fala de Belchior em depoimentos históricos gravados durante toda sua vida é sintoma de fragilidade de uma biografia. Os programas de Fernando Faro, as antigas edições do Pasquimou da revista Música: tudo isso são preciosas fontes documentais, registros da história, verdadeiros tesouros. É como arbitrar que só podem existir fontes primárias num trabalho biográfico. Paulo Cesar Araújo, rato de arquivos, retira dali grande parte do material fundamental de suas grandes biografias.
Como eu já disse em resposta a um post de uma leitora, exigir que o autor de J.D.Salinger – A Life, Kenneth Slawensky, “decifre o mistério” da misantropia de Salinger definitivamente para que sua biografia tenha “fôlego investigativo” e seja “desculpável”, me desculpem, é bizarro. Equivale a interditar qualquer autor de escrever sobre David Livingstone porque ele sumiu na floresta.
O final do texto de Mauro o encontra já inchado de auto-importância, dizendo que está impaciente à espera de outra biografia. Não tenho como afirmar isso, mas suspeito que até sei de quem é que espera biografia que mereça o texto laudatório. O fulanismo é a doença juvenil do compadrio.

7 COMENTÁRIOS

  1. Rapaz, não perca tempo em se rebaixar ao nível de responder bobagens. Ignora que é melhor. Dar corda só te desvaloriza e faz publicidade pro fulano. Sinta firmeza na sua pesquisa e no seu livro e chega de chochorô. A internet é um festival de chorume, mas isso é consequência imediata ao que as pessoas pensam realmente. Não incense fogo de palha.

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