Filme retrata a explosão do funk paulista, desde sua origem na Baixada Santista até os dias atuais, com agendas lotadas e cachês que têm enriquecido dezenas de jovens da periferia

Treze dos cinquenta atuais vídeos mais assistidos pelos usuários do YouTube Brasil são de funk. Nenhum com menos de um milhão de views, alguns com mais de 20 milhões, como “Onde Eu Chego Paro”, de MC Boy do Charmes. Todos guardam uma característica em comum: a ostentação. São músicas que idolatram o consumo de bebidas, carros, tênis e roupas de marca, cordão de ouro, baladas e mulheres bonitas. Por trás desse fenômeno que é ignorado pelos veículos de comunicação está o funk paulista, vertente surgida a partir de 2005 quando um grupo de MCs foi até a Baixada Santista ver como os colegas de lá estavam recriando o funk carioca. A música subiu a Serra do Mar e foi parar na Cidade Tiradentes, onde o produtor cultural Renato Barreiros, na época atuando na subprefeitura, deu espaço para que os jovens da periferia pudessem se manifestar. Em vez de falar do proibidão ou de denúncia, o funk ostentação preferiu falar de um outro Brasil, daquele que está criando uma sociedade de consumo de massa. Virou febre na internet. E agora, sem a mesma pretensão, mas com o objetivo de fazer um registro histórico da boa fase do gênero, Barreiros e Konrad Dantas, o Kondzilla, se juntaram para produzir o documentário “Funk O$tentação”. Foi ao ar ontem e desde então já foi visto por mais de 25 mil pessoas. Barreiros, colaborador deste FAROFAFÁ, concedeu a entrevista abaixo. Mas antes vale a pena ver o vídeo.

Eduardo Nunomura: Como surgiu a ideia de fazer um documentário?
Renato Barreiros: Falei com o Kondzilla (Konrad Dantas) que achava que o funk ostentação merecia um registro melhor porque é o grande movimento de massa dos últimos cinco anos. E é um movimento nascido na periferia, sem apoio da mídia e que conseguiu inclusive ganhar o Brasil hoje. Aí combinamos de fazer!

EN: Como foi a produção do documentário e a criação do roteiro?
RB: A criação do roteiro foi uma troca de ideias sobre os personagens mais importantes. Como eu conhecia um pouco pela experiência em Cidade Tiradentes (produtor cultural) e ele por ser o cara que fez 90% dos clipes de funk, saiu fácil. A produção era assim: “Vamos marcar o MC X pra entrevistar tal dia, dá pra você ir? Consegue arranjar alguém pra fazer o som?” Não tínhamos um real, então contamos com a força da galera que acreditou no projeto. Sabíamos que se dependéssemos de governo ou das marcas não ia sair.

EN: O documentário apresenta a trajetória do funk paulista desde os primeiros trabalhos na Baixada Santista. E não nega a origem importada do funk carioca. O que fez o movimento paulista superar o da matriz?
RB: Acho que com o tão falado “surgimento da nova classe média” existe um sentimento de bem estar na população brasileira de conseguir acesso a certos bens de consumo que antes eles não tinham. Quem conseguiu expressar isso na área da cultura foi o funk ostentação, por isso o sucesso.

EN: O funk da ostentação seria, assim, o retrato do novo Brasil?
RB: Exato, seria a trilha sonora.

EN: Impossível ver o documentário e não se impressionar com o contraste entre o culto à ostentação (os carros, as joias e roupas dos artistas) e a paisagem da periferia, com suas casas inacabadas, os morros e o chão de terra batida. O funk ostentação retrata a realidade ou uma utopia para a maioria dos jovens?
RB: Acho que esse novo Brasil deu a esperança do jovem de que ele pode chegar lá, pode comprar um carrão, um perfume importado, uma roupa de grife, o que antes parecia impossível. Para os funkeiros é uma realidade, pois eles estão faturando alto. Para o público também não deixa de ser porque eles compram camisa da Lacoste e da Ed Hardy parcelando em muitas vezes, pesquisam até o último momento para comprar um perfume importado que querem e compram com as economias de meses… Então muitos já têm acesso a esses produtos, talvez não no volume desejado, mas já têm.

EN: O funk ostentação tem mudado a estética do videoclipe, mas também foi feito à base de muitos malabarismos e improvisações, não é mesmo?
RB: Olha o primeiro clipe que bombou, “Megane ou de 1100” do Boy do Charmes, o Kodzilla me contou que ele chegou em Cidade Tiradentes só com uma câmera na mão. A rua onde  iam filmar tinha feira, mas não sabiam, que só terminou às 4 da tarde, tiveram que correr pra filmar tudo rápido pra não acabar o sol, o pessoal que ia trazer a moto atrasou.. Mas saiu e o clipe tem hoje mais de 6 milhões de exibições, a música virou um hino… Acho que até nisso mostra um pouco do novo Brasil. É um Brasil que conquista as coisas com sufoco, mas não desiste dos seus sonhos…

EN: Mulheres bonitas, cordão de ouro, carros e bebida. A ostentação do funk está sendo imitada pela música sertaneja, pelo rock e até pelo rap. Dá para imaginar o que vai ser dessa tendência daqui por diante?
RB: O pagode baiano também já aderiu. O Ed City regravou Bonde da Juju do Bio G3. Acho que agora a mídia convencional vai começar a olhar para o movimento e logo teremos funk ostentação na novela das 8!

EN: O sonho de um funkeiro é ser global?
RB: Não, o sonho do funkeiro é estourar na quebrada onde ele nasceu, ser reconhecido na comunidade. A questão local tem muita força.

EN: Ou seja, você vê a rendição do que chama de grande mídia ao funk – e não o contrário?
RB: Acho que vai haver um encontro entre os dois, a grande mídia vai incorporar o funk porque dá Ibope, e os funkeiros vão entrar lá porque querem conquistar novos territórios. Mas a grande conquista pra eles mesmo é serem reconhecidos onde nasceram, o MC Dedê faz show em Florianópolis, Porto Alegre, mas mora em Cidade Tiradentes porque ama o bairro dele. O Boy do Charmes continua morando na comunidade do Charmes em São Vicente.. Acho esse um fator revelador.
EN: Como está a questão da perseguição que os funkeiros sofriam nas periferias? O funk ostentação que é tocado até nos clubes de gente rica tem reduzido as ameaças aos artistas?
RB: Existe uma maior aceitação com certeza, mas acho que o poder público ainda se omite. O funk é mais tratado pelas Secretarias de Segurança país afora do que pelas Secretarias de Cultura.

EN: Os funkeiros paulistas já estão ganhando muito dinheiro ou a ostentação que tanto cantam ainda está aquém do seu potencial?
RB: Estão! Muito! Os cachês são acima de 4 mil Reias e só na sexta feira eles fazem pelo menos 4 shows! Tem funkeiro fazendo show até na segunda feira!

EN: Uma última pergunta: paralelamente ao funk ostentação, já estão surgindo outros tipos de discurso no funk?

RB: Ainda nada com muita força, mas certamente irá surgir algo negando as marcas e tal… Acho que é o caminho natural… Obrigado mesmo! E obrigado a você e ao Farofafa por sempre darem espaço!!

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