A cantora e compositora Gaby Amarantos, um dos simbolos do tecnobrega paraense, assimilou o pop estrangeiro e hoje reafirma as múltiplas identidades da Amazônia brasileira.

 

Gaby Amarantos durante a gravação do DVD "Live in Jurunas"

 
 

O nome dela é Gaby Amarantos. Nasceu há 31 anos, dentro de uma família de sambistas. “Minha família tem uma escola de samba, a Coração Jurunense. Meus tios tinham um grupo tradicional de samba, Seja Sambista. Foi ali meu despertar de cantora”, ela conta. Os nomes Coração Jurunense e Seja Sambista não devem soar familiares nem aos maiores culturadores das tradições brasileiras, mas é porque Gaby é paraense, do bairro pobre de Jurunas, em Belém.

O samba corre em suas artérias, mas não corre sozinho. “Temos uma cultura forte de quadrilhas, quando acaba o carnaval já começa a preparação das festas juninas.” Gabi diz que descobriu o dom musical cantando em igreja. “Depois cantei na noite, cantei MPB, cantei Elis Regina.” E, talvez mais importante que tudo, cresceu mergulhada no forte costume local das festas de aparelhagem (algo mais ou menos equivalente aos bailes black do eixo Rio-São Paulo) e dos carros de som que povoam as ruas belenenses com a música dita brega do Pará. “Você já acorda com o carro de som na janela. Cresci ouvindo muita música brega, por osmose.”

Na somatória dessas e de outras referências, Gaby se fez símbolo vivo daquilo que aos poucos vaza para o resto do Brasil sob o nome de tecnobrega. Trata-se de uma das movimentações culturais mais originais surgidas aqui nestes anos 2000, tanto em termos musicais como do aparato industrial que se formou ao redor, amplamente desconcertante para quem se acostumou a pensar em música nos parâmetros e cifrões impostos pela hoje agonizante indústria fonográfica multinacional.

Gaby não é protagonista do tecnobrega, pelo simples fato de que não há protagonistas no tecnobrega. O que há é uma pequena multidão de artistas, muitos deles semianônimos, e um conjunto menor ainda de sucessos arrasa-quarteirão gravados à exaustão por diversas bandas – ali, as músicas são mais importantes que os músicos. Nesse cenário caótico, Gaby é pioneira na construção dos novos modelos, além de personagem marcante num universo que permaneceria ignorado pelo Brasil caso ainda prevalecessem os ditames monotemáticos e eurocêntricos da mídia tradicional.

A moça de Jurunas é uma pororoca racial, descendente de índios, africanos e portugueses. “Meus bisavós paternos presenciaram a abolição, foram escravos, trabalharam em engenhos de cana-de-açúcar. Minha avó materna era índia, meu avô descendia de portugueses. A história do índio é muito forte, tudo no tecnobrea vem da batida do tambor.” Seu pai, Conrado, é bancário aposentado, e a mãe, Elza, dona-de-casa e fazedora de bicos. “Minha mãe fazia coisas alternativas, era consultora da Avon, lavava roupa para fora. Tive uma infância pobre, humilde, meu pai era guarda de banco. Depois as coisas melhoraram.”

Se nossa identidade indígena se escondeu nas entranhas do Brasil, a negação da identidade amazônica escondeu por décadas a música paraense do resto do país. Fafá de Belém veio para o sul, Pinduca fez certo sucesso nos anos 70 com sua reinvenção tropicalista do carimbó. A originalíssima confluência de culturas chamada Amazônia fez da cultura paraense uma mistura vertiginosa de influências indígenas, caribenhas, norte-americanas e (menos) brasileiras. Os tios da tradição paraense, chamados “mestres da guitarrada”, tocam guitarra inspirados no iê-iê-iê de Roberto Carlos, no carimbó e em ritmos caribenhos como cumbia, calipso, merengue, soca…

Da mesma encruzilhada entre Roberto Carlos e o Caribe, avolumou-se toda uma tradição local de música romântica, que desembocou no chamado brega (mais tarde tratado pejorativamente por públicos ditos “informados”). Metade brega, metade Caribe, o conterrâneo Beto Barbosa disseminou nos anos 1980 a lambada, outro ritmo fermentado no Pará, e mais tarde abocanhado e digerido em fricote pelo baiano Luiz Caldas.

E o tecnobrega, o que é? É a incorporação da música eletrônica que grassou mundo afora nos anos 1990 por todo esse vasto manancial musical. “Tecnobrega é a versão eletrônica do brega. Para baratear os custos de produção, a gente começou a usar guitarra, teclado e baixo dos teclados”, simplifica Gaby. Em 2002, ela fundou a banda Tecno Show, uma das precursoras de uma avalanche de bandas, artistas, discos, MP3 e hits tecnobrega. A velha cultura das aparelhagens se agregou à tecnologia e encheu de luzes, cores, telões LCD e efeitos pirotécnicos as festas cultuadas por multidões mestiças que deixaram de lado os Chemical Brothers para balançar ao som de… música do Pará.

Aqui é preciso tomar um atalho antropofágico, à maneira dos modernistas de 1922 ou dos tropicalistas de 1968. O tecnobrega é um borbulhante espetáculo de canibalismo musical. O refrão de “Thriller”, de Michael Jackson, vira “firmêê, firmêê”. “Single Ladies”, de Beyoncé, se transforma em “Não Me Segure” e “Tô Solteira”, entre outras versões e subversões. Triturado pela nação tecnobrega, o pop anglo-saxão ganha sotaque, cadência, molejo e tonalidade de pele paraenses.

O jornalista Vladimir Cunha (nascido no mesmo bairro que Gaby e codiretor, com Gustavo Godinho, do excelente documentário Brega S/A) defende a originalidade da apropriação: “A matriz visual e sonora pode ser gringa, mas a matriz lírica não é. Quando Marlon Branco canta ‘essa menina não se liga em rock/ o que ela gosta de escutar é aparelhagem’, na música ‘Chupa Paula’, é uma tomada de posição do caralho. Ou quando, em ‘Wal Pescador’, a menina canta ‘Wal pescador, Wal pescador/ você conquistou o coração das Super-Xanas’, sendo que Super-Xanas é uma turma de meninas da periferia e Wal é realmente um pescador da região do Marajó, é outra afirmação de identidade. E temos todas as letras que mencionam as gangues, as ruas, os bairros, os carrinhos de lanche, os camelôs, os sistemas sonoros”.

No ano passado, uma controvérsia explodiu no Pará, por conta de um grupo baiano, a Banda Djavú, que estourou nacionalmente cantando músicas do repertório tecnobrega, especialmente da Banda Ravelly – e sem dar crédito aos autores canibalizados. O Pará se revoltou, foi protestar em programas populares de TV, forçou a Djavú a citá-los como donos de músicas como “Me Libera”, “Rubi”, “Meteoro”, “Soca Soca”, “Maciota Light”. Se em novembro Gaby denunciava a pilhagem das riquezas locais por colonizadores vorazes, hoje ela já revê as consequências da confusão. “Hoje agradeço muito eles terem aparecido. Foram eles que fizeram a imprensa e as pessoas prestarem atenção na gente. Vou criar o fã-clube da Banda Djavú”, brinca.

A situação se inverteu ao ponto de a Som Livre, gravadora da Rede Globo, se render e preparar um DVD reunindo dez bandas paraenses de tecnobrega. Deve sair em abril, com apresentações ao vivo de nomes como Viviane Batidão, Eletrobatidão, Banda Ravelly, Banda AR-15 e, claro, Tecno Show. “Os produtores daqui só trabalhavam com artistas de fora, sertanejos, micaretas. Agora começaram a trabalhar com tecnobrega.”, celebra Gaby.

Se antes da Djavú existir ela já gravara “La Isla Bonita”, de Madonna, em português, com o título “Quero Te Amar” e sem crédito aos autores, hoje reavalia esse naco do festim antropofágico: “Minhas primeiras músicas eram todas versões. Mas não estou de acordo, não faço mais”. A questão ganha contornos práticos, pois segundo Gaby hits tecnobrega foram limados do DVD por serem versões não-autorizadas. A canibália segue rolando solta nos alto-falantes, mas esse fator tem de ser ocultado na institucionalização via Globo.

A tensão entre o legal e o ilegal é permanente no tecnobrega, e é exatamente nessa trincheira que a indústria tradicional tromba com indústrias alternativas e é sobrepujada por elas. É forçada a manter o discurso antipirataria, e por isso tende a combater os camelôs de rua como os que vendem CDs de coletânea a granel nas vizinhanças do mercado Ver-o-Peso. Mas esses produtos não podem ser considerados piratas, porque não desrespeitam direitos autorais e costumam ser entregues aos camelôs pelos próprios artistas.

Gaby já levou muita música para os “empresários” do mercado informal, mas afirma que a história já avançou novos passos. “Agora não tem mais essa história do camelô, isso é passado. A gente apronta e coloca no Shared, manda link para os DJs”, diz, referindo-se a mecanismos de compartilhamento de músicas via internet. “Coloco no meu Messenger, ‘baixe aqui a nova do Tecno Show’, começo a divulgar a música.”

O domínio da tecnologia é outro dos trunfos centrais, o que pode ser constatado no portal Brega Pop, uma verdadeira mina para buscar os mais recentes hits do tecnobrega, ou tecnomelody, como agora eles preferem ser chamados. “São os produtores que não gostam do nome tecnobrega”, diz Gaby, insinuando uma repulsa da cena pelo estigma “brega”.

Como a maioria absoluta dos colegas, ela grava suas músicas ao computador, dentro da própria casa. Conta um pouco do processo: “Todo mundo tinha estúdio no fundo de quintal e gravava de modo antiprofissional. Sem querer e perceber, a gente conheceu um produtor, o Beto Metralha, que tinha estúdio, mas nunca tinha gravado nada. A gente foi descobrindo tudo junto. Gravava com microfone de videokê, era muito amador”. Assim era também o programa de TV que chegou a manter numa TV local, gravado em casa, sem cenário nem infraestrutura.

A malha semi-industrial concebida no dia-a-dia pelos paraenses foi dissecada no livro Tecnobrega – O Pará Reinventando o Negócio da Música (Aeroplano), coordenado pelos pesquisadores Oona Castro e Ronaldo Lemos, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). O estudo mapeia o movimento como um fenômeno de inclusão social. Mostra, por exemplo, que 84% dos envolvidos nas aparelhagens têm outras profissões – são comerciantes, pintores, pedreiros, carpinteiros, eletricistas…

São inúmeras as evidências de que o tecnobrega recoloca num circuito de criação artística um contingente de cidadãos que pelas vias tradicionais nunca teria acesso ao outrora controlado domínio da cultura. É o que explica Vladimir Cunha: “Quem faz o tecnobrega é o menino e a menina pobre de periferia. Um computador completo hoje, em certos lugares de Belém, custa entre R$ 600 e R$ 900, um preço as classes C e D já podem pagar. E tem a chegada dos celulares com MP3 player, que mudaram ainda mais a forma como essa população mais pobre se relaciona com a música. Já vi isso no ônibus, um menino e uma menina que não se conheciam trocando MP3 de tecnobrega via Bluetooth”.

As novas indústrias não são um mar de rosas, longe disso. Os donos de aparelhagens acumulam poderio, os participantes se hierarquizam, formam-se panelinhas. O jabaculê, uma das práticas que enriqueceram (e corroeram por dentro) a velha indústria musical, já diz presente no tecnobrega, segundo conta Gaby: “Tem artista que paga para o DJ tocar sua música nas festas, é uma prática nova. Mas a música só é sucesso se o povo aclamar. Se não tiver o grito da galera, se não tremer o corpo, não adianta que não vai”.

Por outro lado, o caso Djavú trouxe consigo o efeito de chamar atenção dos artistas paraenses para os direitos autorais. É o que diz Olívia Bandeira, da equipe de pesquisadores da FGV que segue acompanhando a cena: “Há artistas que começaram a editar suas músicas depois da polêmica com a Banda Djavú. Se antes afirmamos que ganhar dinheiro com direito autoral estava fora do vocabulário deles, hoje esse assunto aparece espontaneamente nas conversas”.

As letras do tecnobrega são em geral menos incisivas e politizadas que, por exemplo, as do hip-hop e do funk carioca. Desavenças amorosas e diversão na balada são os temas predominantes. Diz Vladimir Cunha: “Minha teoria é que o tecnobrega não precisa de mensagens políticas ou sociais para ser subversivo. A mera existência dessa música feia e malfeita, que confronta a elite local com certos aspectos que ela prefere ignorar, já é uma subversão em si”.

Novamente aí, Gaby é paradigma. O corpo é seu veículo para ostentar uma personalidade que classifica como “chamativa”. “Foi uma estratégia, eu queria que as pessoas me olhassem. Sempre gostei de paetês, penas, plumas, aplicações de espelhos, rabos de cavalo, cabelão, boá de pele, maquiagem carregada no glitter”, descreve os figurinos que, obviamente, ela mesma inventa. É o que ajuda a aproximá-la da comunidade gay de Belém.

“Sou a rainha GLBT, apesar de não ser homossexual”, festeja. Mas ela sabe que o visual que olhos do Sudeste associariam imediatamente ao imaginário drag queen tem muito a ver, antes disso, com a herança amazônica. “É uma drag mais indígena, a gente tenta com os recursos que tem colocar a modernidade no índio. Tem que ter um CDzinho pendurado. Não acho legal copiar só Beyoncé, Britney Spears e Madonna.”

Cita como referência Eloy Iglesias, drag queen e cantor (sério) paraense que canta rocks de Cazuza para animar anualmente a Festa da Chiquita (uma espécie de parada gay que acontece dentro das celebrações católicas do Círio de Nazaré). “Ele tem uma linguagem amazônica, usa uns moicanos de pena, plumagens, sementes”, diz, lembrando que muitas palavras usadas na subcultura gay, como ‘pajubá’ e ‘erê’, vêm de línguas indígenas.

Sobre autoafirmação feminina, Gaby responde de viés: “Na minha música procuro usar mais o contexto social. Mas agora estou começando a abordar esse tipo de assunto. Tem uma música nova minha que a governadora (Ana Júlia Carepa, do PT) quer usar na campanha de reeleição. Fala da mulher que diz ‘não preciso de você’, consegue viver e se sustentar sozinha, acha que o homem é um atraso na vida dela. O governador anterior era homem, a governadora não quer que ele volte, a letra diz: ‘Os erros que antes você cometeu/ eu tive coragem e fui consertar’”.

Vladimir complementa: “A mesma Gaby que se impõe como objeto sexual para as classes C e D, que não comungam do culto ao estereótipo branco de beleza, é capaz de fazer uma música como ‘Surra de Chicote’, sobre a violência contra a mulher, na qual ela diz que vai dar uma surra num cara que a agrediu e conclama as outras mulheres a fazer o mesmo quando forem agredidas”.

A quem ouça um tecnobrega e tome o estilo por “pobre” ou “repetitivo”, eis aí a rica cornucópia de identidades que ele carrega. A própria Belém, antes hostil à música criada por seus cidadãos mais marginalizados, começa a ceder. Gaby conta: “No começo foi um escândalo, ‘meu Deus, que música horrível, de má qualidade!’, ‘que letras ruins!’. Fomos muito apedrejados. Hoje dá até pra zoar, porque quem criticava já gravou tecnobrega. Eu só me divirto vendo. Todo mundo tinha vergonha, agora todo mundo quer uma fatia no bolo”.

Nossa heroína índia-negra-portuguesa finaliza, em ritmo de otimismo: “Belém hoje é uma democracia racial. O tecnobrega virou moda. Antes eu era proibida de tocar na Estação das Docas, agora toco lá. Sou convidada para fazer comercial, jingle político. Pela primeira vez em 13 anos de carreira consegui aprovar um projeto em lei de incentivo à cultura”.

O mundo novo pode não ser o país das maravilhas de Alice. Mas que ele é surpreendentemente diferente e mais plural que o mundo velho, isso ele é.

 

(*) Texto preparado originalmente para a revista Fórum e publicado na edição 84, em março de 2010, quando Gaby começava a se lançar na carreira solo que solidificaria neste 2012, lançando o álbum Treme e participando da novela Cheias de Charme, da Globo, como inspiradora de personagens centrais e cantora da canção de abertura.)

4 COMENTÁRIOS

  1. Que texto excelente.Verificamos a pluralidade musical brasileira que aflorou finalmente e tem na NET livre uma aliada de importância. Gente que inventa música longe dos padrões até então celebrados e aceitos e coisa e tal.As pessoas estão cantando suas observações sobre tudo o que as rodeia ou de conhecimento que tiveram de seu jeito.Não é mais preciso saber quem foi Montesquieu, Rousseau ou ter frequentado uma Universidade para ser aceito com sua música. Deram um pontapé suave e retumbante nos clichês e no monopólio da indústria fonográfica nacional e de quem ditava qual deveria ser o padrão. Hoje o padrão é qualquer um, basta que tenha um bloco para ouvir ,gostar e seguir e viva a democracia musical.

  2. Observando o texto, muito bom, + principalmente os dois comentários, positivos, lembro que grande parte deste país, centrado no centro sul sempre esteve e ainda está de costa para a diversidade cultural do centro-oeste, nordeste e norte, o que é lamentável. Desconhecer faz parte, infelizmente, da população do centro sul, em que pese o processo imigratório que ficou nos “retido no bolsão, que separa de maneira invisível, os moradores das cidades do centro-sul “. onde até pouco tempo não tinha rompido a sutil linha de separação. O remédio é voltar-se para dentro e deixar “inspirar” por outras culturas, seja o brega e/ou a guitarrada (que deixou de queixo caído o Nelson Motta) do Pará, o Maracatu de Pernambuco, o boi do Maranhão e tantos outros por ai.

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