Na segunda parte da entrevista, Alcione relembra os hoje esquecidos compositores baianos de “Não Deixe o Samba Morrer” (e esquece o nome da cantora que a apresentou esse samba – alguém aí sabe quem foi?) e fala sobre ser ou não ser “a maior cantora do Brasil”.

Comenta sobre afinidades com Rita Lee e Lobão e se confessa fã ardorosa de Axl Rose, dos Guns n’ Roses (“ele me lembra um pouco a Janis Joplin, com aquela voz rouca, aqueles gritos”).

Fala de seu amor por Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e José Sarney, e sobre a fundação de seu selo independente, Marrom Music – pelo qual lançará, em outubro, gravações que provavelmente gravadoras tradicionais não aprovassem, com sua versão para canções de Burt Bacharach, Charles Aznavour e Armando Manzanero (na nossa “democracia racial”, Alcione pode gravar canções que não sejam de samba, sinhô?).

Faz inconfidências engraçadas sobre colegas como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e Zezé Motta, e só deixa o riso de lado ao contar episódios de racismo explícito que já sofreu.

 

Pedro Alexandre Sanches: Quem são os compositores Edson e Aloísio, que deram “Não Deixe o Samba Morrer” pra você?

Alcione: Edson e Aloísio são dois baianos que moravam em São Paulo. Uma cantora novata chegou pra cantar aqui no Rio, na casa Black Horse, onde eu cantava. O nome dela era… Vou lembrar depois. Eu estava escolhendo músicas pro meu repertório, e disse: “Minha colega, que música bonita, onde você achou?”. Ela respondeu: “Eu queria gravar, mas meu produtor disse que não é muito comercial”. Eu me calei. Me calei, aprendi a música, no dia de colocar meu repertório eu levei. E hoje é uma música que praticamente construiu minha carreira.

PAS: E o produtor nunca vai se manifestar pra contar essa história…

A: Não, nunca vai. E Edson e Aloísio eu cheguei a conhecê-los, eles vieram ao Rio, eu fui a São Paulo encontrar com eles. Já faleceram, os dois. Eles só me deram essa música, “Não Deixe o Samba Morrer”, mas é uma música definitiva, é uma “As Rosas Não Falam”.

PAS: Sei que você é muito amiga de Maria Bethânia, mas em geral as cantoras de samba não se misturavam muito com as da MPB, como Elis Regina, Gal Costa

A: É verdade. Mas eu sou uma pessoa por natureza… Minha amizade com Bethânia começou com uma brincadeira. Lênia Grilo, secretária do Roberto Menescal, era fã de Bethânia até debaixo d’água, você não podia dizer isto de Bethânia pra ela. Eu ligava e dizia: “Aqui quem está falando é a maior cantora do Brasil!”. Ela dizia: “Oi, Bethânia, você tá aqui?” (risos). Ela sabia que era eu. Um dia Bethânia mandou recado a Menescal, que queria entregar meu primeiro disco de ouro, porque gostou de ouvir meu trabalho. Menescal me chamou para entregar o disco de ouro lá na companhia. Eu não sabia que Bethânia já tinha chegado, quando fui chegando falei: “Chegou a melhor cantora do Brasil!”. E Bethânia: “E tá aqui a segunda lhe esperando”. Gente, quase que eu me jogo para debaixo da mesa (risos). Mas depois ficamos amigas, e até hoje quando a gente se reúne é só para rir. Adoro, porque ela tem um senso de humor muito bom.

PAS: Adorei saber que você dizia “eu sou a melhor cantora do Brasil”. Você é?

A: Não. Aquilo era brincadeira. Era só pra provocar Lênia Grilo. Sempre achei as minhas amigas, como Bethânia, Leny Andrade, essa menina, Gal Costa, Elis Regina as maiores cantoras deste país. Eu estava começando, como é que eu queria ser a maior cantora do Brasil? Era um absurdo que eu gostava de botar no ouvido de Lênia.

PAS: Mas é uma manifestação de autoconfiança, não é importante a gente ser confiante na gente mesmo?

A: Não, na época eu nunca achei que era a maior do Brasil, nem agora. Acho até que posso estar entre as melhores, mas na época, não. Falava só pra provocar a Lênia.

PAS: Você chegou a conviver com Elis?

A: Cheguei a conversar com Elis um dia, ela era da mesma companhia também. Estava na sala de Menescal reclamando pra mim que queria vir pro Rio, pro show Trem Azul, mas estava com dificuldade de arrumar gente pra tomar conta dos filhos dela. No meu show conto essa história e falo: “Ah, tanto que eu era embevecida por ela, Maria Rita correu o risco de eu me oferecer, deixa tomar conta dessas crianças que eles vão ver, muito ‘Garoto Maroto’, muito ‘Sufoco’ (1978)”. Maria Rita ria muito dessas histórias.

PAS: Elis demonstrava afeto? Não tinha problema com as sambistas?

A: Sim, engraçado, nunca tive problema com Elis Regina. Aquela foi a única vez que pude conversar com ela. Depois, quando Zuza Homem de Mello chamou eu e Emílio Santiago pra cantar no Anhembi, ele levou Elis pra assistir, e ela foi ao camarim nos cumprimentar. Foi a última vez que vi Elis Regina.

PAS: Ela viu show seu, então.

A: Viu, eu e Emílio cantando.

PAS: Uma afinidade que jamais alguém iria supor é Alcione e Rita Lee, mas você já cantou música dela. Existe alguma afinidade?

A: Ah, você não sabe. Como é o nome desse filho que toca com ela?

PAS: Beto Lee.

A: Eu tomei conta desse menino em Montreux, enquanto ela ensaiava. Disse: ‘Deixe este pequeno aqui comigo’. Até hoje ela lembra. Eu faço uma homenagem a ela no meu show, ela gosta muito de mim, eu gosto demais dela. Tudo que ela canta sempre foi bem-feito, bem-bolado. Ela é a rainha do rock no Brasil, não tem pra ninguém. E fomos fazer o festival de Montreux juntos, eu, ela e Martinho da Vila.

PAS: Ela no meio do samba?

A: É, ela lá no meio do samba. Já tava lotado dois meses antes.

PAS: Entrevistando Lobão há pouco tempo, ele contou que no começo, quando ele chegou à gravadora RCA, João Nogueira e Alcione nem o cumprimentavam porque não podia misturar o pessoal do samba com o do rock. Chegou mesmo a acontecer isso?

A: Essas coisas… Teve uma história engraçada comigo e Lobão também, porque eu não gostava dele. Não suportava Lobão (risos). Não porque ele era roqueiro, mas porque ele debochava do juiz na frente do juiz, e você sabe, eu sou meio antiga, né? Criada daquele jeito (faz voz de pito): esse rapaz não tem respeito com uma autoridade! Um dia fui chegando no programa do Chacrinha, e ele, “Marrom da minha vida, sou tão seu fã”, me deu foi muito beijo no rosto. Eu, muito sem graça, olhei pra minha irmã e disse: ‘Se tu contar isso pra alguém lá em casa (risos), que Lobão me beijou…”. Aí fiquei com remorso, chorei foi muito no caminho de casa. Por que implico com o rapaz?, o rapaz gosta tanto de mim, me deu uma porção de beijo no rosto. Fiquei com remorso, aí um dia no show cantei uma música dele pra ele, ele foi, contei a história. Era implicância minha mesmo, eu gosto dele pra caramba. E quando ele entrou na bateria da Mangueira?

PAS: Se não me engano ele disse que você estava na comissão julgadora.

A: Eu estava lá. Ele foi tocar tamborim na bateria da Mangueira. “E aí, Lobão, vai arrasar?” “Vou.” Ele é legal, o pessoal da bateria ama Lobão.

PAS: Mas num primeiro momento chegou a haver mesmo essa rivalidade entre o samba e o rock?

A: Não, comigo nunca. Uma vez perguntaram a Renato Russo qual era a cantora dele, ele falou: “A minha cantora é Alcione”. Como pode ter essa rivalidade? Esses meninos dos Paralamas do Sucesso gostam muito de mim, Lobão, Jota Quest. E eu também, gosto deles. Agora vou lhe dizer do rock quem é que eu gosto lá de fora. Só gosto dos Rolling Stones e dos Guns n’ Roses. Não posso perder Guns n’ Roses no Rock in Rio (risos). Sou apaixonada, por causa daquele Axl Rose, ele parece uma criança no palco. Gosto da voz dele, me lembra um pouco a Janis Joplin, com aquela voz rouca e aqueles gritos deles. Quando tiver o Rock in Rio tenho que dar um jeito de estar bem na frente pra assistir Guns n’ Roses. E só vou se Axl vier. Não é de todos que gosto, não. Gostava também do Queen, aquele cara cantava muito, Freddie Mercury. Mick Jagger é um charme, ele e todos os Rolling Stones são ícones, lendas vivas de tudo que aconteceu da minha geração pra cá.

PAS: Mas você ouvia quando era jovem?

A: Ouvia (cantarola), “I can get no/ satisfaction”. Cansei de ouvir Rolling Stones, Beatles

PAS: E o pessoal da Motown? Você deve gostar de todos.

A: Ah, é, ali é o seguinte, né? Sempre fui fã de Michael Jackson, desde quando eles eram o Jackson Five. É o homem que criou o vídeo, com “Thriller”, o melhor do mundo até hoje, disparado. Adoro Earth, Wind & Fire, The Platters, Lionel Richie.

PAS: Em geral as pessoas não fazem essa relação, mas o soul pra eles é como o samba é pra nós, não?

A: É, uma coisa sagrada, né? Aquelas mulheres que cantam nas igrejas nos Estados Unidos, pra mim é o suprassumo de uma coisa divina. Eles cantam pra Deus, é muito bonito.

PAS: Você era amiga da violonista Rosinha de Valença (grande violonista brasileira que morreu em 2004, após 12 anos em coma), não?

A: Ah, Rosinha… Foi Bethânia que me apresentou ela. Quando voltei da Itália, as duas se reuniram em casa para perguntar se eu tinha ido procurar minha identidade lá no Coliseu (risos). A gente chamava uma à outra de Matusa. De Matusalém (risos), “olha, vocês são mais velhas do que eu, hein?, a mais novinha aqui sou eu”. Elas me provocavam também. Uma vez fiz um troféu todo ruim aqui em casa, todo velho, e dei pra elas, “Troféu Antiguidade pra vocês duas” (risos). Rosinha era uma pessoa muito alegre, engraçada. Gravei com ela uma música do Altay Veloso, (cantarola) “quando o couro do tambor gritou, rufou na minha janela…” (“Sinfonia da Paz”, 1991), só ela no violão e Jamil Joanes no baixo. O primeiro show que fiz no Canecão foi com Rosinha de Valença, ela foi minha convidada. Foi uma época muito boa, que Deus a tenha.

PAS: Você acompanhou ela nos anos em que ficou em coma?

A: Cheguei a ir em Valença várias vezes, levava coisas pra ela. Um dia a irmã dela falou pra eu cantar “Rio Antigo” (de Nonato Buzar e Chico Anysio, gravada por Alcione em 1979), porque ela ia saber que eu que que estava lá. Aí comecei a cantar bem perto do ouvido dela, “quero bate-papo na esquina/ eu quero o Rio antigo com crianças na calçada/ brincando sem perigo/ sem metrô e sem frescão…”. Ela não olhava pra mim, olhava assim pro espaço, mas sabia que era eu que estava ali. Aquilo me emocionou muito.

PAS: Por que aconteceu isso com ela?

A: Ela teve uma isquemia, não foi? Estava comendo um torresmo, se não me engano, e foi parar no Miguel Couto. A gente saiu doidinha pra lá, todo mundo, ela já estava em coma. E foi ficando, não saía, tanto que teve ir pra casa.

PAS: Uma coisa esquisita, né? Não ficou e nem foi embora…

A: Todo mundo tem seu tempo, né? Ficou mais de dez anos. Matusa…

PAS: Não falamos ainda de Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara

A: Ah, dona Clementina? Sempre gostei muito dela, e ela gostava muito de mim (imita, com tom de voz resoluta, idêntico ao de Clementina): “minha filha, quando lhe vejo na televisão eu choro” (risos). Eu estava fazendo o programa Alerta Geral, e ela foi convidada pra cantar comigo, aquela música “dotô, jogava o Flamengo e eu queria escutar…” (“Incompatibilidade de Gênios”, de João Bosco e Aldir Blanc, gravada por Clementina em 1976). E ela estava com uma roupa linda, toda bordada, eu disse: “Mas, dona Clementina, como a pessoa vem pro programa mais bonita que a apresentadora?”. Ela disse (imita): “Foi Clodovil que me deu este vestido (risos), agora você me ajuda a botar este troço na minha cabeça”. Ajudei a botar o troço na cabeça dela, “está com inveja de mim?”, “muita, não me faça mais isso” (risos). No dia do aniversário dela, me lembro tão bem, falei: “Quero saber o que a senhora quer ganhar de presente” (imita). “Eu quero um relógio Seiko.” Dei o relógio pra ela. Zezé Motta me contou uma coisa tão engraçada dela, não sei se a gente pode botar. Zezé tinha um show em que fazia Rita Baiana, jogava a alça e o peito aparecia. Zezé foi convidar dona Clementina pra fazer o Projeto Pixinguinha com ela. “Minha filha, como eu posso fazer um projeto com uma moça que bota os peitos do lado de fora?” (risos), dona Clementina falando.

PAS: Mas ela fez ou não?

A: Não fez! Ela era muito engraçada. Dona Ivone, não, já é mais fina, mais calma, recatada. Dona Ivone me contou que dona Clementina uma vez fez uma malcriação pra ela, porque estava com uma roupa que não queria usar no show. Dona Ivone tinha que cantar “não vadeia, Clementina…”, e ela tinha que entrar (imita Clementina em “Partido Clementina de Jesus”, de Candeia, que ela gravou em duo com Clara Nunes em 1977): “Fui feita pra vadiar” (risos). Dona Ivone tá lá no palco, “não vadeia, Clementina”, nada dela entrar (risos). Até que, depois de muito custo, “não vadeia, Clementina”, (imita), “fui feita pra vadiar” (risos). Eu ri muito disso, ela não estava gostando da roupa. Dona Jovelina Pérola Negra era uma deusa do pagode. Quando essa mulher subia ali no Terreirão do Samba, a poeira subia. “Lá vou eu com meu sorriso aberto” (cantarola “Sorriso Aberto”, samba gravado por Jovelina em 1988)… Você via a poeira subir. Não conheci nenhuma mulher cantar pagode como dona Jovelina, um agudo que era tom de cuíca. Adoro ouvir os discos dela até hoje. E ela era muito engraçada, gostava muito de mim também. Pra mim aquela festa só começava depois que ela chegava (imita, de novo com perfeição), “e aí, galera, como é que é rapaziada?, deixa comigo, deixa comigo”, já alegrava a turma toda. Deus leva, né?, porque quer pra ele. Ele quer também o que é bom, né?

PAS: Esse é um bom argumento… E eu estou cometendo a injustiça, estamos falando de todas as sambistas e faltou Leci Brandão.

A: Minha colega Leci Brandão, mangueirense como eu, a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira. Ela fez um samba pra mim, chamado “Quero, Sim” (gravado em 1979). A Brandão é uma irmã que eu tenho. Ela agora vive mais em São Paulo, e é deputada, um dia liguei pra ela: “Deputada, tá tudo certo?”. “Tudo certo, Marrom.”

PAS: Eu votei nela, lá em São Paulo.

A: Se eu tivesse que votar em São Paulo, votava nela também. Ela vai ser uma boa deputada, porque é muito bem articulada, engajada nas coisas que acha certas. Gosto muito dela.

PAS: Você gravou um dueto num disco dela, não foi?

A: Gravei “Fim de Festa” no disco dela (em 1980), depois ela gravou no meu também. O show de Leci é muito bom. Ela é percussionista, igual Mart’nália, elas tocam tudo. Mart’nália é outra, de uma nova geração, que eu chamo de minha filha. Conheci desde pequena, ela tem um talento fora de série, primeiro porque tem aquela vozinha que ela sabe colocar, dança samba como muita gente não dança e é uma percussionista de primeira. Gosto muito dela.

PAS: Já vi você tratar como filhos Mart’nália, Maria Rita, Beto Lee, os filhos de Jair Rodrigues… Todo mundo é filho da Alcione?

A: Todos são meus filhos, Diogo Nogueira eu chamo de anjo barroco. É assim que eu gosto deles, é assim que eu considero. Quando eu convido pras festas aqui, boto “Martinalhada”, porque já vale pra Martinho da Vila e o povo dele.

PAS: Passando de Leci para outra da política, fale um pouco sobre Dilma Rousseff. Você intermediou o encontro dela com Lily Marinho?

A: Não, não fui eu. Eu fui lá porque porque dona Lily Marinho mandou me convidar, através da Hildegard Angel. Aí fui praquele encontro, cantei pras duas. Ainda tive oportunidade de cantar pra dona Lily, uma pessoa tão fina e tão trabalhadora, consciente dos deveres sociais dela. Gostei dela. E nesse dia a gente se encontrou com Dilma Rousseff, que falou pra todas nós. Mas eu já tinha me convencido que minha candidata era Dilma Rousseff antes daquele encontro.

PAS: A impressão foi boa? Você conheceu ela naquele dia?

A: Foi, conheci ela pessoalmente naquele dia. Acho que ela vai fazer um bom governo. Ela não é fraca, não é nada fraca. O povo que se prepare, porque ela não vem pra fazer graça, não. Ela vem pra seguir o que Lula deixou pronto e melhorar ainda mais. Outra pessoa que eu amo é Lula. Eu chego a ser até fã de Lula.

PAS: Aposto que deve ser recíproco…

A: É (sorri), ele gosta muito de mim.

PAS: Você acha então que o Brasil está no rumo certo, em termos políticos?

A: Eu acho que sim, embora as pessoas não achem que ele esteja no rumo certo quando falo do José Sarney, que é outra pessoa que eu amo – gosto muito dele e da família dele.

PAS: Rola patrulha porque você gosta dele e não esconde?

A: Não, não adianta, eu gosto mesmo. Mas isso não é uma coisa que me abata, até porque antes de Sarney ser vereador a gente já era amiga dele e da família dele. Ele já gostava do meu pai, tem uma coisa muito antiga, não tem a ver com essa coisa de poder.

PAS: Há muitas críticas por conta da permanência dele no poder no Maranhão…

A: Realmente o Maranhão precisa mudar sua história, nós temos essa consciência. Mas nós tivemos oito anos de governo de Jackson Lago e não aconteceu nada com o Maranhão. Eu voto aqui, mas faço campanha lá também, pra Roseana Sarney. Vou continuar fazendo a minha cantoria por aí, e Sarney, a vida política dele pra lá. Eu não nasci pra política, já fui convidada a me candidatar aqui e lá no Maranhão, e não tenho a menor intenção. Nem pensar, não tenho paciência, comigo dois e dois são quatro. E, depois, não posso ferir o trato que tenho com Deus. Eu vim aqui pra cantar, vou me meter na política? Vou misturar duas energias que não combinam? Não, vou ficar com a minha.

PAS: Você foi uma das primeiras artistas que se colocou ao lado de Dilma, não?

A: Pode ter certeza, e não me arrependo. Tenho certeza que ela vai fazer um governo digno pra nós, se não perseguirem e perturbarem a mulher. Por enquanto ela tá firme. Ela tem cara de tambor que amanhece (risos), sabe tambor-de-crioula, que toca até de manhã e não fura? Ela é desses tambores que amanhecem, tocam a noite inteira até de manhã e não rasgam o couro.

PAS: Você falou antes de umbanda e candomblé. Várias músicas lindas suas falavam disso, dos orixás.

A: A verdade é que agora eu tô tendo até uma compreensão maior dos orixás. Gosto da umbanda, gosto demais. Gosto de toda espiritualidade, porque foi por ela que encontrei respostas pra minha vida. Adoro a história dos orixás, adoro. Li um livro chamado Tambores de Angola, que fala sobre os pretos velhos, os exus, que são os guardiões dos terreiros, é uma história muito linda. Agora estou lendo A Cabana, que é um romance, mas depois vou terminar de ler O Jardim dos Orixás, gosto muito de saber sobre eles. É um livro psicografado.

PAS: Psicografado e falando de orixás?

A: Falando de orixás e da espiritualidade como um todo. Adoro ler Zíbia Gasparetto, Chico Xavier. São vários exemplos de vida, coisas que precisamos aprender sobre espiritualidade. Depois tenho que ler Aruanda, que fala sobre a umbanda, que é uma religião nascida no Brasil, brasileira.

PAS: “Aruandê”, que você gravou lá no começo (em 1975), é o quê?

A: “Aruandê” fala de Aruanda, a terra de Aruanda a umbanda, a terra dos caboclos, dos pretos velhos.

PAS: Eu não sei, Aruanda é um lugar na África?

A: Não, Aruanda é um lugar espiritual, no espaço, onde vivem os pretos velhos, todos os orixás. É um termo da umbanda, mais da umbanda que do candomblé, “salve, Aruanda, salve sua banda”.

PAS: Até hoje você canta músicas desse tipo, ou era mais no começo?

A: Ano retrasado eu gravei (cantarola) “ajoelhei no gongá pra te esquecer”, que é de Telma Tavares (e de Roque Ferreiro, “Corpo Fechado”), “acendi vela pra Deus me iluminar/ fui na Bahia fazer um cangerê”, muito legal, “ainda bem que vovó saravou/ minha avó é show de bola/ aprendeu lá em Angola”.

PAS: É bonito que essas religiões simbolizavam também uma resistência dos africanos aqui, porque os brasileiros queriam retirar isso deles.

A: É, mas eles conseguiram. Até hoje, mesmo dentro da espiritualidade, tem preconceito com preto velho. Muita gente não sabe que preto velho assume aquela forma de preto velho mais humilde pra se aproximar, mas às vezes é um médico, um homem louro de olhos azuis em outra encarnação. E tem gente que tem preconceito, não sabe a luz que tá perdendo.

PAS: Isso é por racismo?

A: É. Se é preto velho, acham que é um espírito inferior. E a sabedoria deles vai muito mais além do que as pessoas possam imaginar, porque eles lidam com as forças da natureza. É água, é terra, é fogo, é ar, manipulam isso bem.

PAS: Ao longo da sua vida, você sofreu com racismo, na sua própria pele?

A: Sofrer, sofrer, eu lá tenho cara de quem veio aqui nesta Terra pra sofrer por causa disso? Vou te dizer uma coisa, eu já respondi muito mal pra muita gente errada. Uma vez, há muito tempo, fui proibida de entrar num clube em Porciúncula, eu e o guitarrista, porque nós éramos negros. Até Marisa Rossi e Adriana, a cantora, todo mundo se retirou também do clube, em solidariedade a nós. Um dia também me lembro que estava no hotel Sheraton, pra uma convenção de vendedores da Philips. Eu tinha chegado da França, com um modelo francês, bonito, e quando cheguei no balcão do hotel pra me identificar, um cliente falou assim: “Ih, chegou navio negreiro”.

PAS: Um brasileiro?

A: Um brasileiro. Não posso dizer a você o que eu disse pra ele, não é bom (acaba contando o palavrão que falou para ele, mas sob a condição de não constar na reportagem). Não quero que você escreva isso, porque tenho tantos amigos brancos, só tive que responder praquele canalha, porque ele não tem cultura. As pessoas que não têm cultura precisam ouvir isso.

PAS: Ele sabia que você era Alcione, uma cantora?

A: Eu não era tão famosa no começo, estava começando a estourar “Não Deixe o Samba Morrer”.

PAS: Tem essa história de que quando o negro fica famoso não tem mais preconceito, mas não é bem assim, é?

A: Não é porque fiquei famosa, é porque eles olham pra mim e sabem que eu tenho cara de tambor que amanhece.

PAS: Não só a Dilma, você também (risos).

A: Eu não gosto de confiança comigo. Sabem que a resposta está na ponta da língua, até porque eu conheço meus direitos. Então ninguém mais tira essa onda comigo. Mas não gosto de responder, nós somos um país misto. Aprendi na minha família, com meu pai, que nós todos somos iguais. Eu não tenho preconceito contra nenhuma religião, tô te falando, nenhuma, cada um que reze a sua reza. Na minha banda tem macumbeiro, espírita, pastor da Igreja Batista, gente da Universal.

PAS: Pode ter ateu também?

A: Pode ter ateu. Eu já tive até um muçulmano na minha banda. Todo mundo reza a sua reza, a gente tá no Brasil, graças a Deus.

PAS: Eu sempre pergunto sobre isso nas minhas entrevistas, e todo mundo da sua geração ou mais velho tem história sobre ter sido proibido de entrar em clube, ou ter de entrar pela porta de trás. Muitos não querem falar de racismo, mas ele estava aí até recentemente, nesse nível.

A: Ele não estava, ele está aí. É que a gente se impõe. Ele está aí. Se você não se impõe, as pessoas acham que pode. Comigo não pode, nem morta. Respeito é bom e eu gosto. E, olha, as pessoas que trabalham na minha casa eu trato como iguais. Minha mãe dizia que a gente tem que respeitar até uma criança, porque uma criança pode fazer você passar uma vergonha (ri). Respeito criança e adulto, tem que respeitar.

PAS: O que mudou na carreira da Alcione com este atual estágio da indústria fonográfica?

A: Mudou que agora resolvi ter o meu selo, que se chama Marrom Music, uma coisa chique. Não tem axé music? Por que não pode ter Marrom Music? Estou correndo atrás do patrocínio, ponha na sua matéria, quem quiser patrocinar meu DVD de 40 anos de carreira, vai ser histórico. Vou gravar standards, Armando Manzanero, Charles Aznavour, e músicas que chamo lados B do disco, que gravei, mas nunca foram tocadas no rádio.

PAS: Por exemplo?…

A: Por exemplo, essa música do Altay Veloso que vai ser o nome do meu disco, “Duas Faces” (lançada originalmente em 1990). Eu tenho a face da música romântica, do samba, do reggae, de tudo… Vou cantar Fatima Guedes também, vai ser uma surpresa pra todo mundo.

PAS: Tenho impressão de que qualquer diretor de gravadora ia torcer o nariz para essas gravações, não?

A: Podia até ser, hoje em dia acho que não. Mas agora, sendo o meu selo, é até melhor ainda, porque vai sair assim. As pessoas vão gostar muito desse disco. Tem uma música que eu ouvia com Burt Bacharach, “The Look of Love”, nós vamos cantar também, com um arranjo bem bonito. Os lados B não tocam no rádio, mas meu público canta, sabe tudo, então vou gravar pra que outras pessoas que não conhecem passem a conhecer.

PAS: “Figa de Guiné” estaria aí?

A: “Figa de Guiné” não sei se está aí, não. Ela é um lado B.

PAS: Conheci não há muito tempo, porque roubei na internet (risos).

A: (Canta.) “O que me livra da mandinga é figa de guiné”… E eu tenho uma música de Cassiano que vou regravar, se você quer saber, chamada “Mr. Samba”. Você não acredita, o arranjo da época é moderno até hoje, vou fazer ele igual.

(A entrevista termina. A fotógrafa que me acompanha, Adriana Lorete, pergunta sobre os próximos shows, e conta uma história para Alcione:)

Adriana Lorete: Eu tenho uma filha de 15 anos, você é a diva dela.

A: Leve ela ao show!

AL: Ela me pediu: “Deixa eu faltar aula, eu preciso conhecer minha diva”. Ela convenceu minha irmã, foi no show da praia, dizia que não podia perder o seu show. As unhas dela são grandes em homenagem “à minha diva”. Tem 15 anos, adora funk, mas a diva dela é Alcione.

A: Tem muitos jovens que vão no meu show, sabia? Muitos mesmo. Um dia cheguei na rádio pra fazer um programa, uma garotinha na porta, sem mentira, deste tamanhinho, disse: “Você pode cantar ‘Condenados’ (gravada em 2002)?”. É uma música da Fatima Guedes, difícil como o quê, que é que uma menina daquela pode querer com “Condenados”?

PAS: Tenho vergonha de contar, mas já que Adriana falou da filha… Não tenho filhos, mas tenho uma filha que se chama Alcione, em sua homenagem (mostro uma foto no celular, da Alcione paulista, de 6 anos de idade)…

 

A: Ah, a bochecha (risos)! E ela é muito linda!

PAS: Ai, que vergonha…

A: É Alcione o nome dela?

PAS: Não é legal ser nome de cachorro, né?, mas é que é com tanto amor…

A: Não, a gente já botou aqui, meu irmão tinha cachorros e botava os nomes dos amigos dele. Isso é homenagem. Mas, também, ela é muito linda, ela merece ser Alcione (risos).

 

3 COMENTÁRIOS

  1. oi alcione é porque eu fiz uma letra de música pra você. deve estar bom. risos. nome da letra. borel. você mora no borel mas quer ir pra o céu mas adoro ir no motel e não gosto de homem com anel quando eu sair do motel eu vou comer um pastel no morro do borel e quero te conhecer pra eu te ter também te dar prazer do anoitecer até o amanhecer e dizer que sem você não consigo viver e nunca vou te esquecer homem do morro do borel. eu estou aqui no morro do borel mas não quero ir pra o quartel e gosto de fazer rappel aqui no morro do borel e gosto de impinar pipa com o meu carretel mas quero e pra o céu e vou te convidar pra gente ir no motel e eu não tenho anel e quando nós sairmos do motel vamos comer pastel no morro do borel e é um prazer te conhecer e quero pra sempre te ter também te dar prazer do anoitecer até o amanhecer e te dizer que sem você não consigo viver e nunca vou te esquecer mulher que me conheceu no morro do borel.

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