Coloquemos os pingos nos is: Alcione é uma das maiores cantoras da história do Brasil.

Para a MPB, ela é uma cantora de samba – e infelizmente é frequente que os artistas de samba sejam subliminarmente colocados num patamar inferior aos da MPB ou da bossa nova, por exemplo.

Para o samba, Alcione é uma cantora “impura” de samba. Via de regra, o samba e seus cultores preferem apregoar Cartola, Cartola e Cartola a apregoar Alcione, Leandro Lehart, Leci Brandão e “profanos” que tais. Como cantora de samba, Alcione canta reggae, bumba-meu-boi (ela é maranhense de São Luís), soul e, acima de tudo, muita música romântica. Como ela mesma observa, o direito ao romantismo é um dos muitos que foram historicamente sonegados aos brasileiros negros.

Na América de “cima”, o romantismo e a tristeza são sinônimos de blues, de jazz, de soul, da nobreza musical propriamente dita. Aqui, na América de baixo, é mais fácil Alcione ser chamada de “brega” que daquilo que ela realmente é: uma cantora de alma à altura das divas negras do blues, do jazz e do soul norte-americano. (A propósito, o samba não é o nosso jazz?, o jazz não é o samba deles?).

Protagonista de uma entre incontáveis cisões de gosto (veja bem, de g-o-s-t-o) entre público e crítica (que crítica, cara-pálida?), Alcione tem uma carreira povoada de sucessos, interpretados naquele vozeirão grave, quente e úmido, característico dela e de mais ninguém. Quem é brasileiro e não sabe cantarolar “Não Deixe o Samba Morrer”, “Sufoco”, “Gostoso Veneno”, “Qualquer Dia Desses”, “Garoto Maroto”, “Valeu Demais” ou “Meu Ébano”, bom sujeito não é.

Hoje, Alcione acumula 39 anos de carreira discográfica, com 29 álbuns de estúdio lançados e dezenas de discos de ouro e platina conquistados, quando eles ainda significavam alguma coisa para as engrenagens da hoje quase impalpável indústria fonográfica. Do alto desse pódio, inaugurará neste 2011 sua própria gravadora, Marrom Music (sim, m-u-s-i-c), sob distribuição da Biscoito Fino. O selo deslancha em outubro próximo, com dois combos simultâneos CD-DVD, “Duas Faces – Ao Vivo na Mangueira” e “Duas Faces – Jam Session”.

Gravado na casa da cantora, no Rio, “Jam Session” arrombará de vez as cancelas do samba, com canções em português, inglês, francês e italiano e participações especiais de gente do samba (Martinho da Vila, Emílio Santiago) e de fora dele (Maria Bethânia, Djavan, Áurea Martins, Lenine). “Ao Vivo na Mangueira”, na linha “greatest hits”, soma convidados idem, como Leci Brandão, Jorge Aragão, MV BillDiogo Nogueira e Maíra Freitas (filha de Martinho). O lançamento duplo será marcado por show também duplo, Rio-São Paulo, no Vivo Rio (15 de outubro) e no HSBC Brasil (28 de outubro).

Foi neste mesmo 2011 que a revista CartaCapital me proporcionou minha primeira grande entrevista com Alcione em 18 anos de profissão (por que, cara-pálida?). O encontro, na sala da ampla casa em que ela mora na Barra da Tijuca, rendeu a reportagem “Sem medo do ‘créu'”, publicada com a data significativa de 13 de maio. Ali coube um décimo do que Alcione falou e um centésimo, um milésimo, um micronésimo do que ela tem para dizer e contar.

O que vai a seguir, em dois episódios, é a quase-íntegra do delicioso bate-papo com Alcione. Nesta primeira parte, vamos de Chico Xavier, João Paulo II e Ella Fitzgerald a Maria Bethânia, Roberto Carlos e Stevie Wonder, sem escalas – ou melhor, com uma escala: São Luís do Maranhão e de Alcione.

 

Pedro Alexandre Sanches: Qual é a origem do nome Alcione?

Alcione: Meu pai tirou de um romance psicografado por Chico Xavier em 1942, chamado Renúncia. Eu até já li esse livro, e depois que li falei: “Mas, chefe”, eu chamava meu pai de chefe, “por que o senhor foi escolher esse nome pra mim?, é uma personagem que sofre muito”. Ele disse: “É porque ela sofreu muito, minha filha, mas depois ela teve a redenção”.  Tá bom, a redenção vem.

PAS: Ele era espírita?

A: Não. Eu sou, mas meu pai era católico mesmo. Mas ele gostava muito de ler esses romances assim, psicografados.

PAS: Quer dizer, ele era católico, mas não tinha preconceito contra outras religiões?

A: Como eu. Não tenho preconceito nenhum, não tenho esse problema. Se tiver que ir na Messiânica levar um Johrei, como já fiz, não tem problema. Frequento umbanda, adoro a história da umbanda, do candomblé, é muito bonita. E de madrugada, se estou virando canal e é um pastor com uma boa palavra, eu vou escutar. Não tenho esse problema.

PAS: Você já cantou pro papa João Paulo II, não foi?

A: Cantei pro papa, lá no Maranhão. Sempre que vou a Portugal gosto de ir em Fátima. Minha irmã até fala: “A santa já não te aguenta mais.”

PAS: A Alcione de verdade sofreu igual a essa do livro?

A: Eu? Não, eu não tive esse sofrimento absurdo que a Alcione lá do livro teve. Até agradeço a Deus por não ter passado por um sofrimento daquele. Mas encontrei dificuldades na minha vida. Pra gente chegar aonde chegou sempre tem muitas pedras no caminho, mas elas foram feitas para ser retiradas, né? Porta fechada foi feita pra bater. Acho isso normal, nessa vida de encarnada que tenho. A gente tem que saber transpor os obstáculos.

PAS: Como era o lugar de onde você veio?

A: A minha terra… Nasci na ilha de São Luís, na rua do Coqueiro. Tive uma infância pobre, mas muito feliz. Tenho amigos de infância até hoje, a maioria no Maranhão. Meu pai sempre dizia a mim e a minhas irmãs, “cuidado com violência de homem”, que a gente nunca permitisse que um homem viesse com violência. “Quando um homem olhar pra vocês com cara feia, já tomem uma atitude, porque no segundo dia ele te empurra, no terceiro ele te bate.” Nós fomos criadas nessa defensiva, procurando nos respeitar.

PAS: E você gravou uma música sobre isso, “Maria da Penha” (em 2007, em letra que diz “comigo não, violão/ na cara que mamãe beijou zé ruela nenhum bota a mão” e “você não vai ter sossego na vida, seu moço, se me der um tapa/ da dona Maria da Penha você não escapa”).

A: “Maria da Penha”, foi, pedi a Paulinho Rezende e Nenéo. Precisava cantar aquilo, é uma lei que ainda precisa sofrer alguns ajustes, e uma lei que não serve só para as mulheres, serve para os homens também. Porque tem mulher que espanca o homem, sabia? São malvadas. Que pena que tem que existir uma lei pra que as pessoas não façam isso, né?

PAS: Quantos irmãos você tem?

A: Nós somos nove, tenho irmão mais velho que já faleceu. E tenho mais oito irmãos, o meu pai teve filhos com outras senhoras.

PAS: Somando tudo, dá quantos?

A: Acho que daria uns 18. Seu João Carlos não era mole, não, gostava de fazer criança.

PAS: Sua mãe, como chamava?…

A: Filipa. Ela teve nove filhos com meu pai, cinco homens e quatro mulheres. Tenho um irmão aqui em Belfort Roxo que é fuzileiro naval reformado da Marinha, e um que é do Exército, também reformado. O que era policial já faleceu.

PAS: Seu pai também tinha era militar, não?

A: Meu pai era mestre da banda de música da Polícia Militar do Maranhão, e era professor de música também na escola técnica. Ele tinha uma orquestra chamada Orquestra Jazz Guarani, eu cheguei a cantar um dia com a orquestra dele.

PAS: Assim começou a ligação com a música?

A: Muita ligação. Eu fazia cópia dos arranjos dele pra aprender a copiar, um pouco como ele, que tinha uma cópia muito bonita. Até que aprendi a copiar um pouco.

PAS: Sua ligação era com o samba, desde o início?

A: Não. No Maranhão o povo gosta muito de samba, nós temos o samba batucada. Mas a minha ligação primeiro foi com as toadas, com o bumba-meu-boi, com o tambor de crioula. As cantoras brasileiras que eu ouvia eram Angela Maria, Núbia Lafayette, Lana Bittencourt, Elizeth Cardoso. Aprendi a cantar ouvindo essas mulheres. A primeira cantora norte-americana que escutei foi Ella Fitzgerald, por causa de um amigo meu que hoje é diplomata, Antenor Bogéa. Ele me ouviu cantando e disse: “Você tem que escutar essa mulher.” Como é que pode uma pessoa cantar assim? Ele me fez ouvir Mahalia Jackson, Sarah Vaughan. Eu não tinha esses discos na minha casa, ia na casa dele só pra escutar. Ele me colocou por perto do jazz.

PAS: Eu sempre fico pensando que você é uma cantora de jazz brasileiro…

A: É engraçado, ele achava isso também. Ele dizia: “Você tem esse potencial aí”. Eu respondia: “Quem, eu? Como eu vou cantar como uma mulher dessas? Elas são divas”. Hoje já gosto de Anita Baker, sou fã dela.

PAS: Na verdade, você nem é uma cantora só de samba, mas essa ficou sendo sua marca.

A: É, é porque o Brasil tinha um preconceito muito grande com uma mulher negra ser romântica, ou mesmo um homem negro. Achavam que o cantor negro só podia cantar samba e fazer um batuque. Eu quebrei um pouco isso também, como Elizeth Cardoso. Foi quando estourei aquela música (cantarola), “nada como um dia atrás do outro…”, “Pode Esperar” (1978, de Roberto Corrêa e Sylvio Son), que veio na novela Pai Herói, e depois “Qualquer Dia Desses” (1983, de Reginaldo Bessa), que a gravadora percebeu que eu podia cantar romântico, e as pessoas gostavam. E nunca deixei de cantar samba por isso. Mas gravo muita música romântica. Comecei a gravar porque queria, e nunca me arrependi isso. Eu gosto. Como uma pessoa pode dizer que Emílio Santiago não pode ser romântico? Não tem como. Mas tinha esse estigma também de não quererem que Emílio cantasse música romântica, tanto que fizeram Aquarela Brasileira 1, 2, 3… Emílio pode cantar tudo, ele é essencialmente romântico.

PAS: E esse preconceito quanto ao romantismo é apenas um dos vários que o negro sofre.

A: Esse é um. Não tinha negro que beijava em novela, não podia beijar. A gente não era considerado romântico. Negros nunca eram protagonistas de novela. Hoje, não, as coisas mudaram muito, pra melhor. Você vê negros protagonizando novela, um negro sendo presidente dos Estados Unidos – onde eu imaginei isso? Temos uma mulher presidenta, onde a gente achava que o Brasil ia eleger uma mulher? Considero que as coisas estão mudando pra melhor.

PAS: No encontro com Barack Obama, a Dilma Rousseff podia ter cantado “você é um negão de tirar o chapéu/ não posso dar mole senão você créu” (risos)…

A: Não, a segunda frase ela não ia cantar. Mas que ele é um negão de tirar o chapéu, é.

PAS: Essa música, “Meu Ébano” (2005, também de Paulinho Rezende e Nenéo), quebra vários tabus, de a mulher chamar o negão de gostoso, não?

A: É verdade, quebra. Quando mostrei ao meu diretor artístico, fiquei passada. Ele disse: “Você não pode cantar uma música dessas, você não vai dizer ‘créu’, ‘senão você créu’”. “Por que não?” “Não faz parte do seu perfil.” “E você sabe qual é o meu perfil (risos)? Você sabe se eu gosto de um créu bem dado?” Ele riu muito, aí deixou eu gravar, e a música é sucesso até hoje aonde vou.

PAS: Há um preconceito escondido atrás do estranhamento dele?

A: Ah, é… Ele ficou preocupado de eu dizer “créu”, porque achou uma palavra muito forte pra mim. Mas ele não sabe do que eu sou capaz quando tô zangada (risos). “Fique quietinho, que eu vou gravar meu créu.” Depois ele começou a gostar também.

PAS: É maravilhosa a música.

A: É perfeita, irretocável, né?

PAS: Quando você gravou não existia o “Créu” do funk carioca ainda?

A: Não, ele veio depois de mim.

PAS: Será que se inspiraram em você?

A: Acho que sim, porque o “créu” ficou tão famoso com a minha música que depois eles lançaram (cantarola rapidamente) “créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu…” (ri).

PAS: Virou até o nome do cantor, MC Créu.

A: Não é? Eu achei legal. Não acho ruim, não. Acho que tudo que é feito pras pessoas se animarem, brincarem, tá certo. Por que eu posso dizer “créu” e eles, não? O “créu” tem a ver com o brasileiro, eu até tive uma camiseta, depois que o Obama ganhou, que dizia: “Yes, we créu!”.

PAS: Tinha a do Mussum também, “Obamis”.

A: Obamis (gargalha)? Muito legal.

PAS: Voltando ao Maranhão um pouquinho, eu queria que você falasse um pouco das suas origens familiares. Não tem só sangue negro aí, né?

A: Ah, não. Tem índio e tem português. É o próprio “Canto das Três Raças”, como dizia Clara Nunes, porque minha avó era índia, meu bisavô era escravo, meu avô por parte de mãe era português, branco, a minha outra avó por parte de mãe era negra. Aí deu esta mistura aqui. Nessa história toda tem lances muito legais, a minha bisavó, vovó Marcela, veio mesmo da África – não deve ter chegado da África com esse nome. Era uma negona tão alta que uma saia dela cobria esta mesa aqui (aponta para uma enorme mesa de jantar). Ela foi depois pra Alemanha ser babá de uma família e deu o peito para um bando de rapazes, foi mãe de leite deles. Meu pai contava que de vez em quando chegava aquele bando de rapazes chamando ela de mamãe.

PAS: Ela veio escravizada?

A: Ela veio escravizada. Não cheguei a conviver com ela.

PAS: Você já deve ter ido cantar na África muitas vezes. Como é pra você?

A: Já fui muito à África. Moçambique, Angola, Cabo Verde, Senegal. Em Angola fui ao museu de antropologia e vi umas coisas de uma determinada tribo que tem a ver muito com a minha cidade, São Luís. Essa tribo deve ter aportado em São Luís, porque vi artefatos de cozinha, como o pilão, desses que a gente soca farinha pra fazer cuxá, caldeirão, grelha, fogareiro, abano pra abanar fogo… Nossos artefatos antigos de cozinha são esses todos, que a gente usa até hoje lá. Não quero errar, pra dizer se eram os bantos, não sei. Nós éramos muito descendentes daquela nação mina-jeje-nagô.

PAS: E a avó índia, como era?

A: Era mãe do meu pai, o cabelo dela era até aqui. Era índia, índia. Pelo jeito ela vivia com o povo dela quando conheceu o meu avô.

PAS: As músicas do Maranhão, bumba-meu-boi, tambor de criola, têm essa mistura, não?

A: O ritmo do tambor de crioula, não. Era a música que os escravos dançavam quando os patrões iam dormir. É uma dança muito sexy, onde só os homens podem tocar e só as mulheres podem dançar. Dali, eles iam dormir e fazer neném, que pra eles era vantagem. É uma dança pagã, que não tem nada a ver com religião. Já o bumba-meu-boi tem todos esses personagens, o caboclo, o índio, Catirina, pai Francisco, o amo, o Cazumbá, que é o espírito da cura.

PAS: Na maioria dos seus discos você coloca pelo menos uma música que remete à sua terra. É de propósito?

A: Ah, isso é proposital. Eu não posso me esquecer de onde eu vim, de jeito nenhum.

PAS: Como e quando você virou cantora profissional?

A: Foi aqui no Rio. Em São Luís eu fiz o normal, pra ser professora primária. Ensinei dois anos, porque meu pai me disse que eu só iria pro sul depois que eu exercesse a profissão. Quando cheguei aqui, fui trabalhar numa loja de discos. Tinha que ter logo emprego, meu pai não admitia que eu viesse pra casa de minha tia sem ter uma coisa pra fazer. Aí fui trabalhar no Império dos Discos, na rua Marechal Floriano. Vendi muito Agnaldo Timóteo, Lafayette, Roberto Carlos. Ganhava comissão em cima deles, porque eram eles que mais vendiam discos. Aí o cara soube que eu era professora, então me tirou do balcão e me botou no caixa. Mas no balcão era melhor porque eu ganhava mais dinheiro por conseguir vender esse povo todo. Eu pensava assim: “Um dia meus discos ainda vão ser vendidos aqui”. Aí fui fazer um programa na TV Excelsior. Foi ali que arrumei meu primeiro contrato, num programa de calouros chamado Sendas de Sucesso, patrocinado pelas Casas Sendas. Eu tinha que ganhar seis domingos seguidos, pra arrumar um contrato com a TV Excelsior. Minha prima, que Deus a tenha, disse: “Você tá pensando que aqui é o Maranhão? Aqui é Rio de Janeiro. Tu vai sonhar, mas não vai ganhar esse programa”. Falei: “Eu vou ganhar, sim, esse contrato”. Levei meu trompete, um saxofone, um clarinete, toquei os três nesse dia. Aí eles falaram que eu não podia competir com os outros calouros, porque eu sabia tudo. A minha música foi “Eu e a Brisa” (de Johnny Alf), o júri era composto por Clara Nunes, Herivelto Martins e Aizita Nascimento, todo mundo me deu dez. No domingo seguinte eu já era jurada desse programa.

PAS: Você não chegou a se apresentar no Maranhão, antes de vir para o Rio?

A: Cantei em programas de auditório, na Rádio Difusora, na Rádio Timbiras. Quando iniciou a TV no Maranhão cheguei a cantar em alguns programas. Meu pai me levava e me trazia, eu só ia com ele. A lei ali era rígida.

PAS: Tem uma história de que você morou na Itália, logo no início da carreira?

A: Morei dois anos. Quando terminou o contrato com a TV Excelsior aqui no Rio, fui cantar na noite. Comecei cantando no Beco das Garrafas. Cantei no grupo Samba 4,  do percussionista Paulinho da Costa. Ele era o chefe, e gostava muito de mim. Fui  a São Paulo fazer uma temporada com Tânia Maria, que hoje está morando em Paris, ou nos Estados Unidos. Ela era minha conterrânea, e tocava piano lá, mas disse: “Não gosto de acompanhar nenhuma cantora, hein?, mas você… Nós vamos trabalhar juntas.”  Ela gostou de mim, e ficamos trabalhando. Um belo dia Paulinho chegou e disse: “Alcione, nós temos uma viagem pra ficar dois dois anos na Europa, e a não podemos abrir mão de ti, precisamos de uma cantora pra ir”. Eu disse: “É agora!” Jair Rodrigues tinha chegado naquela noite, queria me levar pra gravadora Philips. Eu disse: “Não posso ir agora, vou fazer uma viagem”. Ele me disse deste jeito: “Nega, seu lugar é aqui no Brasil, mas a curiosidade que tem você tem que matar. Então vá, quando voltar me procure”. Jair é meu padrinho. Foi o que eu fiz, e dois anos depois, quando voltei da Europa, fui atrás de Jair.  Ele me apresentou a Roberto Menescal (então produtor da Philips), na mesma semana eu estava fazendo meu primeiro compacto, com “Figa de Guiné” (1972), de Nei Lopes (e Reginaldo Bessa).

PAS: Como foi a temporada na Europa?

A: Não foi tão fácil assim. Fui com o grupo, e quando chegamos à Itália eu não queria mais seguir, porque a empresária era uma portuguesa muito arbitrária. Falei: “Não quero, daqui vou seguir para o Brasil. Vou trabalhar um pouco, arrumar um dinheiro e voltar pra casa”. Aí ela tomou meu passaporte. Eu não tinha experiência de nada, não sabia que uma pessoa não podia ficar com o passaporte de outra. Fui dar uma canja numa casa chamada San Carlino, em Roma, e o dono da casa disse: “Você pode ficar cantando aqui?”. Expliquei que não tinha passaporte porque a empresária tinha me tomado, ele falou: “Você vai na embaixada e dê queixa dela, que seu passaporte será devolvido na sua mão”. Não deu outra. Ela estava em Beirute com o grupo, foram atrás, o passaporte veio de lá. Aí pude trabalhar. Nunca trabalhei na clandestinidade, ficava com medo de numa hora dessas vir no voo da beleza, é ou não é (ri)? Aí, legalmente, pude trabalhar dois anos na Itália. Trabalhei até com Romano Mussolini (pianista de jazz, filho de Benito Mussolini e pianista de jazz), ele tocava nessa casa chamada San Carlino toda noite, adorava música brasileira e fazia samba-jazz. Na Itália cheguei a trabalhar em Trastevere, na casa de uma agente cinematográfica. Ali conheci Ugo Tognazzi, Alberto Sordi, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, eles iam sempre frequentar onde eu cantava. Alberto Sordi mandava botar uma champanhe. Eu não bebo, mas aceitava, porque achava tão chique oferecer uma champanhe pra eu cantar “Carinhoso” pra ele.

PAS: Você foi ficando na Itália porque foi aparecendo trabalho?

A: Foi, mas um belo dia recebi carta do meu pai dizendo: “Minha filha, você já está há muito tempo longe de casa. Eu vou pendurar minhas chuteiras e não vou te ver.” Ah, pra quê? Rolava água de tudo quanto era jeito (risos). Sabe o que eu fiz? Eu ganhava bem lá, comprei minha passagem e vim-me embora no dia seguinte, até hoje aquele povo daquela casa não sabe de mim. Fui bater no Maranhão no dia seguinte, chorei tanto com meu pai. E me lembrei do que Jair Rodrigues disse, e fui procurar a ele, que me apresentou a Menescal, e estou aqui até hoje.

PAS: Seu pai ficou sempre morando no Maranhão?

A: Ah, continuou, meus pais nunca gostaram de ficar no Rio de Janeiro. Eu mandava buscar, aguentavam ficar uma semana, meu pai dizia: “Já tô de ré, quero ir.” Eu morava em apartamento, minha mãe dizia: “Não sei como vocês podem morar igual pombinhos nessas coisas pequenininhas.” Não queriam andar de elevador, nem ela nem ele.

PAS: E você voltou para o Brasil, viu seus pais e veio de novo pro Rio?

A: Vim pro Rio, pra continuar a correr atrás. Aí, quando voltei lá de novo, foi pra receber chave da cidade, com escola de samba, banda de música, quando “Não Deixe o Samba Morrer” (1975) já era primeiro lugar na parada por 22 semanas.

PAS: Foi aí que Jair Rodrigues funcionou como seu padrinho?

A: Foi, fui atrás dele, que me apresentou a Menescal, Heleno de Oliveira e André Midani, que era o presidente da Philips. Mas foi com Menescal que comecei todo meu trabalho.

PAS: Ali você já era vista como uma cantora de samba?

A: Não, ele fez um teste comigo, disse que tinha uma brecha no mercado pra mim. Aí comecei cantando samba, depois é que fui passando pra música romântica. Ele não queria apostar no romântico, porque queria que eu ficasse cantando samba, e afinal eu arrebentei com “Não Deixe o Samba Morrer”. Mais tarde comecei a tomar pé das minhas coisas, fazendo outros ritmos, por exemplo, tambor-de-crioula, forró. Gravei até Overjoyed (em 1996). Antes eu não me atrevia a gravar música norte-americana.

PAS: Não conheço nenhum outro sambista que tenha gravado uma música do Stevie Wonder…

A: É verdade. Cantei reggae, já cantei de tudo nos meus discos.

PAS: Menescal explicou qual era essa brecha que ele dizia que existia?

A: Ele disse que no mundo do samba tinha essa brecha. Ele devia saber qual era a brecha, tanto existia que eu entrei nela. Eu disse: “Mas que brecha, se já tem Clara Nunes, Beth Carvalho, Elza Soares?”. Menescal sabia das coisas. Graças a Deus deu tudo certo.

PAS: É interessante que no primeiro compacto, do outro lado de “Figa da Guiné”, estava “O Sonho Acabou”, de Gilberto Gil, que não é um sambista.

A: Foi Roberto Santana, que é baiano e era meu produtor, que pediu a Gil: “Eu queria um samba pra uma cantora que está começando. Alcione”. Gil mandou não só essa como também (cantarola “Entre a Sola e o Salto”, lançada por ela em 1978) “vê por aquela janela/ entre a sola e o salto dela”, que no ano retrasado ele regravou comigo. Foi muito legal, porque Gil não se importou que fosse uma cantora que estava começando. Eu tenho essa gratidão por ele.

PAS: Isso era 1972, por que demorou ainda até 1975 pra sair o primeiro LP?

A: Mas os compactos começaram a sair ali. O primeiro LP, que foi A Voz do Samba, saiu em 1975.

PAS: Uma vez, entrevistando Jair Rodrigues, ele manifestou orgulho por ter apadrinhado Alcione, mas ao mesmo tempo senti uma ponta de ciúme porque ele podia ter gravado “Gostoso Veneno” (1979, de Wilson Moreira e Nei Lopes), mas quem gravou foi você.

A: Eu não sei, pode ser que a música tenha chegado na mão dele, como aconteceu com “Papel de Pão”, que chegou na minha mão e eu não gravei, e Jorge Aragão gravou e arrebentou. Isso acontece muito no meio. Sou muito fã de Jair, vou te contar, é um profissional intenso e um grande exemplo. Tenho essa gratidão dele, gosto demais dele e da família dele.

PAS: Como você, ele não é um sambista puro. Mistura samba com música caipira, sertaneja, e nem sempre é muito reconhecido no mundo do samba.

A: Mas teve uma homenagem a ele no Teatro Municipal, foi ovacionado de pé. Foi muito lindo.

PAS: No seu primeiro LP havia essa música que hoje é uma das caras do samba, “Não Deixe o Samba Morrer”.

A: Já foi gravada até em hebraico. Quando cheguei em Israel, tinha uma cantor que cantava em hebraico. No Japão tinha uma cantora cantando em português. Fred Bongusto já gravou em italiano. É uma música que já foi pro mundo. Me trouxe muita sorte e muita alegria.

PAS: O sucesso dela foi inesperado?

A: Não. Na época, a gravadora tinha mania de decidir qual música ia abrir, e decidiram por “O Surdo” (cantarola), “amigo, que ironia desta vida…”, que era uma música linda, mas não tinha a força que precisava. Quando “O Surdo” parou de tocar e tocaram pela primeira vez “Não Deixe o Samba Morrer”, fiquei 22 semanas no primeiro lugar na parada. Sabe o que é isso?, você não sair do primeiro lugar por causa de um samba? Daí por diante, tenho 27 discos de ouro, mais cinco de platina, sendo que um é duplo.

PAS: Vendia mais discos que todos os artistas da chamada MPB.

A: Quem quebrou esse tabu de mulher vender foi Clara Nunes. Mulher não vendia disco no Brasil, tinha esse preconceito. Clara Nunes, quando estourou, vendeu mais de 300 mil discos. Aí eu vim vendendo 500 mil, 600 mil. Maria Bethânia, com Álibi (1978), foi pra 1 milhão. Então começaram a respeitar as mulheres no meio do disco.

PAS: Quer dizer, foi o samba que abriu passagem para as cantoras no Brasil?

A: O samba foi muito importante por abrir essa passagem. O samba é responsável por muitas coisas boas na nossa vida, sabia?

PAS: Como era sua relação com Clara? Você conheceu ela naquele programa de calouros?

A: É, mas ali eu não tinha intimidade com ela. Fui conhecer Clara depois, nos bastidores, quando fui fazer Globo de Ouro. A gente ficava no mesmo camarim, e fui reparar que ela era uma pessoa muito engraçada, divertida. E além do mais ela gostou logo de mim, ficamos logo amigas. Um dia ela ligou e falou assim: “Marrom, a Dindinha tá aqui, tá fazendo uma galinha cabidela, vem pra cá comer.” Eu também gosto de chamar as pessoas pra comer aqui em casa, e ela tinha essa mania. Quando aconteceu aquilo com ela, acabou comigo. Comigo e com muita gente, ninguém esperava. Doeu muito.

PAS: Alcione, Beth, Clara, vocês eram o ABC do samba? Tinha Elza também.

A: Elza é hors concours, pra mim é a maior sambista que o Brasil já teve.

PAS: Ela veio bem antes de todas vocês.

A: Não tem pra ninguém, é uma mulher que conhece o improviso como ninguém, faz aquela voz dela, é fora de série. Gosto demais de tudo que ela já fez.

PAS: É outra que mistura, não gosta de se ater só ao samba.

A: É. Ela pode cantar qualquer coisa.

PAS: Beth tinha uma origem diferente das demais, era a menina da zona sul que abraçou o samba.

A: Não sei, Beth sempre esteve no mundo do samba, até mais enfronhada com os sambistas do que eu, que cheguei do Maranhão. Eu tinha outro tipo de comportamento. Por exemplo, me intimidava chegar no Cacique de Ramos. Claro que, depois que conheci os meninos, comecei a frequentar, mas Beth sempre conviveu com eles, sempre gostou de botequim, dessas coisas que unificam os sambistas. E eu, no Maranhão, pra meu pai deixar eu ir num lugar tinha que esperar duas semanas. Eu não tinha essa liberdade, só fui ter depois que cheguei ao Rio. E aí foi que conheci Beth, Clara, Elza, João Nogueira, Candeia. Aí fui pra Mangueira, conheci Dona Neuma, Dona Zica, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, toda essa galera. Aí, sim, graças a Deus, eles abriram passagem pra mim, e eu estou aí.

PAS: Qual foi a importância da Mangueira nesse processo?

A: Antes de chegar à Mangueira eu já gostava da Mangueira, desde o Maranhão. Quando abria a revista O Cruzeiro e via aquelas fotos das baianas, com aqueles cores, pedia pra minha mãe fazer vestido verde e rosa pra mim. Eu e minha irmã andávamos que nem par de jarro, as duas de verde e rosa. Eu dizia: “No dia que chegar no Rio de Janeiro, vou conhecer essa escola.” Aí estou cantando no programa do Aérton Perlingeiro, estava lá o Bira, que era relações públicas da Mangueira, o Aérton disse: “Você gosta tanto da Mangueira, o Bira está aqui, por que não pede pra ir?” Ele marcou comigo num sábado e eu fui, igual um peixe fora d’água. Não conhecia ninguém. Depois já fiquei de casa, o primeiro ano que desfilei foi 1975.

PAS: No mesmo ano de “Não Deixe o Samba Morrer”.

A: Foi. Eu vinha no chão, na época os carros alegóricos eram menores. Alguém me disse: “Você vai ter que subir, demonstre que é mangueirense.” Lá eu subi. “Mas nunca mais me ponha lá em cima, eu gosto de vir é no chão.”

PAS: Depois não subiu mais?

A: Depois, não. Só subi este ano, na Beija-Flor, porque o enredo era Roberto Carlos, e na Unidos da Ponte, porque o enredo era meu. Aí eu vim no carro, mas fora disso só gosto de vir no chão.

PAS: O sentimento inicial de intimidação era como se você fosse forasteira, a moça que veio do Maranhão e não é dessa turma?

A: A moça que não é dessa turma, “o negócio dela é bumba-meu-boi”. Às vezes eu ouvia isso. O bumba-meu-boi é uma grande raiz que tenho, gosto até hoje de cantar minhas toadas. Mas eu gosto é de música, de tudo. Mas comecei a conhecer esses meninos, Luiz Carlos da Vila, Bira, Ubirany, Jorge Aragão, e na Mangueira conheci outro núcleo do samba. Aí pronto.

 

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