Acabei de assistir ao último capítulo da minissérie Anos Rebeldes, que foi reprisada no horário da minha insônia diária no canal Viva. Acabou do mesmo jeito que em 1992, só que, desta vez, ainda não dá para imaginar quão longe podem ir as manifestações em série que os jovens estão produzindo pelo mundo. Aqui é metrô, maconha, liberdade, no Canadá as Slut Walks, no Egito derrubaram Mubarak, na Espanha tomaram a praça. Vivemos, sim, um maio de 1968 ainda meia-boca, mas que ainda não acabou. Por isso, peço atenção a todos os envolvidos.

Em 1992, me lembro de ter visto esse capítulo com meus amigos e colegas da USP Pedro Alexandre Sanches, hoje farofeiro-mor deste site, Vanessa Adachi, que infelizmente pouco encontro nos dias de hoje, e Malu Gaspar, idem. Eduardo Nunomura, companheiro de jornada que também fafarica por aqui, até onde minha memória alcança, não estava conosco nesse dia. Pena.

E como acaba Anos Rebeldes? Não sei se o Pedro lembra, mas a minissérie de Gilberto Braga acabou com um protesto. “É mentira”, gritou o Pedro, explicando para nós que, ao contrário do que dizia “Como Nossos Pais”, a música do Belchior (na época ainda um não-desaparecido), nós não éramos os mesmos nem vivíamos como nossos pais. Erámos piores, muito piores. Nós não lutávamos contra nada.

As meninas prestaram atenção, tentaram contemporizar, mas, na minha memória, pelo menos, evitaram entrar na polêmica. Elas tinham – e eu também – se emocionado com a história de amor irrealizado de Malu Mader (santo Deus, na época eu juro que eu não achava ela tão bonita quanto ela merecia) e Cássio Gabus Mendes, ou melhor, Maria Lúcia e João Alfredo.

Na minha sensação, que não chegava a ser uma opinião, o Pedro tava equivocado, porque naquela época a gente foi pra rua com tudo. Pra derrubar o Fernando Collor. Antes de cada passeata, a gente se reunia, discutia slogans, planejava como intervir. Éramos um grupo desorganizado – não tomávamos parte de partido nenhum, como grupo – que ia pra rua tentando vencer as palavras de ordem prontas que a UNE trazia, negociadas entre o PC do B (aliado na época do PSDB no movimento estudantil, mas, paradoxalmente, um dos primeiros partidos a pedir o “Fora, Collor”, junto com a Convergência Socialista, hoje PSTU) e o cuidadoso, mas depois PT. Vencemos muitas vezes, e nossa diversão era olhar o jornal e encontrar nossas “invenções” registradas por repórteres que, uns dois anos mais tarde, seriam nossos colegas nas redações.

Ora, direi, grande coisa. Collor, todo mundo sabe, caiu porque as elites se cansaram dele. Vocês foram massa de manobra, explicam, cheios de sabedoria, aqueles que não sabem ser nem massa de manobra.

Sim e não. Ser massa não é mal, pica-pau. Manobras sempre há e haverá por aí. Política é manobra, e pode-se dizer que as elites só aceitaram derrubar o Collor, e não negociar e tomar o poder de forma mais cuidadosa e organizada, porque queriam evitar o pior. Querendo evitar, fizeram um novo pacto, o novo pacto adiou a vitória eleitoral do PT por oito anos, levou Fernando Henrique Cardoso à presidência e tals. Mas o capitalismo e a democracia brasileira nunca mais foram os mesmos. E foi para o bem, não tenho dúvida. A merda é que sobrou muita gente do “ancien régime” para negociar.

Aonde quero chegar?

Juro que não sei. Tô farofando com as caraminholadas que há quase 20 anos não me saem da cabeça. Mas, voltando pra minissérie, o que é espantoso nela? Espanta-me que eu tenha esquecido de toda a narrativa, de todos os personagens, confundido a Cláudia Abreu de Anos Rebeldes com a do filme do sequestro do embaixador norte-americano. Da história do Gilberto Braga, eu tive de reassistir tudo. Mas teve uma coisa que eu não me esqueci. Das músicas.

Anos Rebeldes é, antes de minissérie, uma trilha sonora. Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Jobim, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Belchior, Elis Regina. As músicas contam as histórias que embalaram os meninos e meninas cara-pintadas, que os animaram a ir à rua, que os fizeram perceber que havia muito em jogo e que, daquela vez, a classe dirigente estava morrendo de medo.

A polícia, acredite, organizava as passeatas em 1992. Fazia cordão para ajudar a gente a tomar a Paulista. Subíamos (eu, não, mas um monte de gente fez isso) nos pontos de ônibus sem sermos molestados com bombas de gás lacrimogêneo ou cassetetes. Não tinha borrachada, não tinha bala de borracha, gás pimenta, não tinha nada que nos constrangesse.

Teve uma passeata em que eu fui, na véspera, à casa do Pedro, e disse: chega, precisamos radicalizar nossas palavras de ordem. Fomos nesse espírito, e esse já era o espírito de muitos outros. Dessa vez, centenas de milhares.

Se houvesse resistência da elite, ah, eles iam ver só. Os estudantes estavam decididos. Tinham ganhado os pais. Tinham ganhado todo mundo. Os estudantes pedindo o impeachment viraram orgulho nacional. E o Collor fez tudo errado, para a nossa felicidade.

Foto Marcos Rosa

A Veja, já do outro lado, espertamente, sacaneou bastante o Collor, mas nem precisava. Uma faixa nossa dizia: “A imprensa denuncia, a CPI apura, o povo derruba” (síntese um tanto ingênua nas duas primeiras partes e corajosa na última alcançada por Marcelo Starobinas, numa viagem de ônibus de Perdizes ao Cepeusp, antes de um jogo de basquete). A Veja, aliás, publicou a imagem da nossa turma – também estavam lá Mariane Morisawa, Ana Paula Alfano, Waldir Rodrigues Freire Jr., Chico Ruiloba, Renata Andrez Cabrera João, Lucila Villaça, Heloísa Bio, Patrícia Monken Gomes, Bia Brisola, entre tantos outros – com um enorme destaque, mas, claro, só depois que a obra, ou seja, o impeachment, estava feita.

Voltando a Anos Rebeldes. A gente assistiu ao capítulo final na casa da Malu, na alameda Barros, não na do Pedro, que ficava na rua General Jardim. Mas, para não dizer que não falei de flores, eu, revendo o capítulo final neste começo de madrugada, me dei conta de que parte da irritação do Pedro fazia sentido. Não explica bem, especialmente conhecendo melhor a família do cara – que é bem diferente da família, não digo para melhor, mas certamente Pedro não é o mesmo nem viveu como seus pais.

Pouco antes de Elis cantando Belchior com aquela força opressiva, numa letra que poderia ser paralisante (pra que lutar se somos o mesmo que nossos pais?, para repetir o fracasso?), Malu Mader e Gabus Mendes retomam uma discussão – quem merecia ter vencido o festival, Geraldo Vandré com seu “caminhando e cantando e seguindo a canção,/ somos todos iguais, braços dados ou não” ou Tom Jobim e Chico Buarque com “vou voltar,/ sei que ainda vou voltar/ para o meu lugar”, que iam “deitar à sombra de uma palmeira que já não há”?

E eles se separam. É muito triste, porque o casal que todo mundo esperava ver junto era a representação do sonho de união da elite ilustrada e progressista com a vanguarda política. Malu Mader abandona os que fazem a opção pela luta, pela resistência, pelos sem-terra, pela política. Ela admira, mas não tá a fim de pagar nenhum preço. É pão-dura politicamente. Shit.

Gabus Mendes é generoso. Vira e diz a Malu Mader que ela tinha razão em mil novecentos e bolinha, “Sabiá” era mais bonita que “Para não dizer que não falei das flores”.

Será? Será mesmo?

Mais música: a música de abertura de Anos Rebeldes – e um dia desses eu e o Pedro ficamos horas discutindo a questão – é “Caminhando contra o vento, sem Lenço e sem documento/ num sol de quase dezembro/ eu vou” . Por que não? Por que não? “Eu peço uma coca-cola, ela fala em casamento/ e uma canção me consola/ sem lenço e sem documento/ eu vou.” Caetano, “Alegria, Alegria”, e não “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores”.

Ora, ora, a música da virada dos anos 1960 pros 1970 é “caminhando e cantando…”. É o gerundismo revolucionário, que marcha na música e na letra. “Um novo hino nacional”, disse Gabus Mendes. A música é simples, a letra, não. Como costumam ser os hinos, exceto o oficial brasileiro, em que a confusão generalizada do país se expressa na música e na letra que, puta que o pariu, só coube ali porque o poeta Joaquim Osório Duque Estrada respeitava a métrica, a rima e a gramática, mas cagava para a possibilidade de compreensão.

Anos Rebeldes é uma novela da Globo, e, como novela e da Globo, não podia, no final das contas, cantar o coletivo, nem renegar as antigas lições de ”morrer pela pátria e viver sem razão”.

Vandré escreveu coisas impressionamente revolucionárias. Mas cantá-las era e ainda é um interdito. Apesar dos mais de 40 anos, a nova-velha lição de Vandré (que acabou esquecendo-a, não se sabe se à base de tortura física e/ou psicológica ou não), segue sendo proibida.

Por isso, moçada, nunca é demais lembrar. “Sabiá” é linda, e tudo bem ela ter ganhado o festival de 1968. Mas há também muita beleza em dizer as coisas diretamente, tipo assim: “Nas escolas, nas ruas, campos, construções,/ somos todos iguais, braços dados ou não.”

E, claro, “vem, vamos embora, que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

A palavra final não precisa ser a de Maria Lúcia. Pode ser a de João Alfredo.

(Haroldo Ceravolo Sereza é jornalista e crítico literário. Dirige os sites independentes Opera Mundi e Última Instância.)

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