A peça Tráfico, do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, explicita aquilo que a maioria da sociedade prefere ignorar, a exclusão social. Ou, mais precisamente, relegar à mais pura insignificância prestadores de serviço que deles dependemos todos os dias até o instante em que os podemos descartar.
Alex (Robson Torinni) é um garoto de programas nascido de família disfuncional, a mãe é “uma santa” e o pai, um desalmado. Teria um irmão, mas seu progenitor deu um jeito de economizar nas despesas da casa. É nessa chave, que será revelada aos poucos, que somos atropelados pela trama principal: o personagem vende seu corpo e conquista clientes, presentes e propostas indecorosas. A pior de todas é o convite para ele se tornar um matador de aluguel. O desfecho será trágico, como se pode imaginar.
A obscenidade entra em cena em Tráfico para escancarar algo mais simbólico do que apenas as relações carnais. Troque garotos e garotas de programa por motoristas de aplicativo, entregadores de comida, instaladores de internet, freelancers em geral, e tudo se encaixará. Todos eles são muito úteis só até o momento em que nos servem. Depois, abandonamos os que vivem “no corre” à própria sorte, talvez com “alguma culpa” expiada em uma gorjeta que não paga o refrigerante que pedimos. Empatia zero.
Torinni se destaca neste monólogo por desnudar essa relação que mistura um personagem que carrega traumas, mas tem de se desligar deles se quiser “prestar um bom serviço”. Ele troca olhares e toques com a plateia, mas sem que isso avance qualquer limite moral. A peça é de 18 anos pela temática adulta. A plateia vai conhecer, na intimidade, quem é Alex e será capaz de sair do espetáculo com uma opinião sobre ele. Um pobre rapaz que não deu certo na vida ou um ganancioso e pérfido jovem periférico que mata cruelmente pessoas como forma de ascender? O texto de Tráfico é sagaz o suficiente para mostrar que uma coisa pode estar levando a outra, com maior ou menor intensidade (nem todos motoboys vão virar assassinos, “é só uma metáfora”, como se ouvirá na peça). E que a maioria de nós vira as costas para algo que logo mais vai explodir socialmente. Não se pode incluir excluindo legiões de trabalhadores e ignorando quem são eles.
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QUERO APOIARTráfico faz referência ao nome de um livro de um dos clientes do prostituto Alex, o “francês” Sergio Blanco, que se insere na história sem que saibamos o quanto tem de biográfico ou não (esse estilo já foi testado em Tebas Land, outra peça do autor). Esse senhor intelectual, que convive mais de perto com o garoto de programa e o convence a virar matador, não hesitará em removê-lo de sua vida quando o serviço já não mais lhe interessar.
Com direção de Victor Garcia Peralta, Tráfico fica em cartaz no Teatro Estúdio até 3 de maio. O monólogo foi indicado aos prêmios APTR e Cesgranrio e cumpriu uma rara temporada de um ano em cartaz na capital fluminense. Um último destaque: preste atenção na música que encerra o espetáculo. Se você conhece os versos que falam em “você já esteve lá embaixo alguma vez?” e “porque é uma sinfonia agridoce, essa vida”, entenderá o efeito catártico que se encaixa sob medida com o final. Se não, veja a peça e volte para casa ouvindo essa bela canção.





