Bob Dylan passeia por Copacabana, no Rio de Janeiro, em 2012
Bob Dylan passeia por Copacabana, no Rio de Janeiro, em 2012 Foto: Nana Tucci

Bob Dylan lança Murder Most Foul, um épico de 17 minutos no qual revê a construção da América desde o assassinato de Kennedy

 E eis que Bob Dylan está de novo conduzindo a narrativa do nosso tempo a partir de sua quarentena eterna. Murder Most Foul é “apenas uma canção”, dirão os céticos de sempre, mas a rapsódia de 17 minutos, 163 linhas e 7.302 caracteres, monótona balada que inicia conduzida por um violoncelo de funeral (ao qual se juntam logo piano e inefável bateria), extrapola em muito o conceito de canção. É praticamente uma encíclica.

O título da nova obra de Dylan (ele diz que foi feita “há algum tempo”) é extraído de um diálogo do texto original de Hamlet, de Shakespeare, entre o Fantasma e o Príncipe da Dinamarca (“Murder most foul, as in the best it is/ but the most foul, strange and unnatural”). Na versão moderna, a tradução seria “Seu mais horrível assassinato. Assassinato sempre é horrível, mas esse foi especialmente horrível, estranho, desnaturado”. O crime em questão foi a execução, em Dallas, Texas, em novembro de 1963, do então presidente estadunidense John Fitzgerald Kennedy.

Poderia soar extemporâneo Dylan revisitar agora um caso-chave da origem das teorias das conspirações, não fosse o assassinato de Kennedy um elemento tão definidor da personalidade de uma nação. É esse o fulcro da canção. Como num efeito de time-lapse fotográfico, ele parte desse evento para mapear o DNA cultural, político e social dos Estados Unidos nos versos que vai empilhando, muitas vezes feitos apenas de citações de canções, filmes e acontecimentos.

Dylan mostra aqui que não ganhou o Nobel de Literatura por acidente. Murder Most Foul se emparelha com a tradição épica da poesia norte-americana, conectando-se umbilicalmente ao poema When Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d (“Da última vez em que lilases no pátio floriram”), de Walt Whitman, sobre o assassinato de outro presidente, Abraham Lincoln (ironicamente, a marca da limusine que levava o presidente Kennedy em Dallas), de 1865.

Dylan também faz pontes com as próprias canções que compôs sobre assassinatos que cimentaram a ética de um povo, como Only a Pawn in Their Game (de 1963, sobre o assassinato do ativista do movimento negro Medgar Evers), The Lonesome Death of Hattie Carroll (também de 1963, sobre o assassinato da garçonete negra Hattie Carroll pelo filho de um ricaço de Maryland) ou a obra-prima Desolation Row, de 1965. Em cima desses corpos mortos simbólicos, das Marielles do planeta, erguem-se as consciências coletivas sombrias.

Em seu último disco de inéditas, Tempest (2012), a derradeira faixa é Roll on John, sobre o assassinato de John Lennon (deram um tiro nas suas costas e caído ele ficou), que Dylan não vê apenas como um ato isolado. Houve quem interpretasse o “Wolfman” citado na canção nova do bardo de Minnesota como uma acusação direta a George W. Bush Pai, cujo nome-código na CIA era Timberwolf, lobo cinzento. Assim como Martin Scorsese (que dirigiu o documentário sobre si e é seu grande amigo), que revisitou o assassinato do sindicalista Jimmy Hoffa e estabeleceu seu papel na construção de fortunas corporativas e políticas em O Irlandês, Dylan quer passar a limpo o que viveu. Ele, como quase ninguém mais, sabe como fazer isso.

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