Pasolini
A Editora 34 lança uma coletânea de artigos polêmicos e ousados, Escritos Corsários, do escritor e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini

A Editora 34 lança uma coletânea de artigos polêmicos e ousados do escritor e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini

A radical aventura intelectual de tentar desarmar os mecanismos do autoritarismo encontrou em Pier Paolo Pasolini (1922-1975) uma fortaleza inexpugnável. O escritor, cineasta, poeta, ensaísta, dramaturgo e pensador italiano se bateu contra as violências do arbítrio, da censura e das unanimidades com brilho, controvérsia, contradições e antevisões. E em diversos suportes artísticos. Como autor, publicou uma série de artigos nos periódicos Corriere della Sera e Il Mondo, entre janeiro de 1973 e fevereiro de 1975 (ano de seu assassinato), que ele mesmo editou e publicou em forma de livro pela editora Garzanti, de Milão, sob o título Escritos Corsários.

Com prefácio do crítico literário italiano Alfonso Berardinelli e tradução de Maria Betânia Amoroso, Escritos Corsários ganha uma edição brasileira alentada e em boa hora. Aqui, Pasolini discute tudo, da oposição entre as culturas popular e erudita à falsa tolerância do poder e o que ele chamava de “conformismo dos progressistas”; do amor homossexual ao fascismo da sociedade de consumo, que ele abominava (“fenômenos de padronização e de abandono dos antigos valores camponeses, tradicionais, particularistas”). Há uma incursão reincidente pelo debate espinhoso do aborto, em forma de uma carta ao escritor Alberto Moravia (um embate que ficou famoso).

“Caro Moravia, já há alguns anos me proíbo de chamar alguém de fascista (embora muitas vezes a tentação seja grande) e, em segunda instância, me proíbo também de chamar alguém de católico. Em todos os italianos há traços fascistas e católicos. Mas nos chamarmos alternadamente de fascistas ou católicos – privilegiando aqueles traços, frequentemente irrelevantes – se tornaria um jogo desagradável e obsessivo”, escreveu.

Alguns textos do livro Escritos Corsários saíram no Brasil em 1990 pela Editora Brasiliense, mas sua reunião completa é uma novidade. Segundo analisa a tradutora Maria Betânia Amoroso, da Unicamp, o artista se insurgia contra aquilo que denominava Novo Poder, abrindo a necessidade de se falar sobre tudo: a sexualidade, os comportamentos privados e até os pensamentos secretos. Pasolini, que foi roteirista de cinema em obras de Fellini e Mauro Bolognini e ator em Il Gobbo, de Carlo Lizzani, dirigiu filmes convulsivamente a partir de 1964, quando realizou O Evangelho segundo São Mateus. São sete filmes em uma década. 

Em uma entrevista em março de 1973, um jornalista perguntou a Pasolini porque recorreu ao passado para contar a história do seu filme de 1971, Decamerão (adaptação de contos de Boccaccio). Pasolini respondeu algo que faz pleno sentido ainda hoje: “Sim, poderia fazer com uma história de hoje, mas prefiro usar o passado, porque me parece que a única força realmente contestadora seja o passado. Não há nada que possa fazer desmoronar o presente como o passado”.

Escritos Corsários. De Pier Paolo Pasolini. Editora 34, 296 páginas, 68 reais.

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