Gosto do texto que comunica, mais do que daquele que descreve. Um texto que retém em si a memória, que dá algum colorido à memória. Que reflete sobre sua presença no mundo. Nosso tesouro de esperança reside na memória das coisas, e de como essa memória ativa as percepções.

Mas é complicado, às vezes passo meses sem dizer nada por escrito. Daí porque o jornalismo é uma espécie de refúgio para mim, ele me obriga a obrigações técnicas e éticas e portanto não me aprisiona no meu próprio exame de consciência, na minha tarrafa existencial.

Não que o jornalismo seja algo menor em minha vida, pelo contrário. Levo tão a sério que sou chato. O jornalista que diz “é só uma matéria, temos muitas” me provoca desconfiança. É como um obstetra que diga “é só um parto, tenho muitos outros”. Não respeito.

Mas, fora das redações pela primeira vez após 30 anos, me curei de algumas dependências. Teve época de, lúmpen convicto, fazer até seis matérias por dia, e todas me faziam sofrer igualmente com seus dilemas de acabamento, sua necessidade de versões, seus arremates. Sempre foi comum dormir mal por conta de algo cuja execução não me tinha deixado confiante.

Lamento informar, mas quase toda a História do Jornalismo, assim como a da espécie humana, consiste em tentar fazer uma versão prevalecer sobre a verdade. Os jornalistas sempre enxergaram a si mesmos como heróis puxando a corda da versão mais nobre (um pacto invisível com os oprimidos, os sem voz, contra o poder) para alinhá-la o mais perto possível à linha central da verdade.

Obviamente, sabemos que o jornalismo carrega os vícios dos jornalistas (até o da insinceridade), mas quando é dominado pelos vícios dos seus patrões, piora sensivelmente. Descamba para a situação mais trágica, que é essa que vivemos hoje, quando não sobra quase nenhum fiapo de verdade para equilibrar aquela equação. Esse quadro insufla os ânimos e encoraja desvios, efeitos colaterais: do corporativismo ao apadrinhamento ideológico, do cinismo à injustiça, do plágio institucionalizado ao jabazismo descarado. Dá tristeza, porque houve um momento de anfetamínica grandeza em tudo aquilo.

Hoje posso me dar ao luxo de ficar de fora. Me incomoda sobremaneira ficar refém de um acontecimento, tipo uma Olimpíada. Ficam esperando do jornalista que ele se manifeste sobre certas ondas massivas noticiosas, mas ele acha que todos os outros já estão fazendo bem o seu trabalho, não precisa se meter. Tem gente que se incomoda com esse silêncio. Creio que deve ser assim que se sente um poeta quando se vê cercado por pessoas que esperam que ele diga coisas extraordinárias o tempo todo, que seja uma espécie de Pound-torneira, um jorro-Whitman, um vacinado contra a trivialidade.

Tem uma situação que frequentemente invoco: se você tem um filho pequeno, vai notar que ele acredita em tudo que você disser e te observa atentamente o tempo todo. Vai chegar o momento em que você vai ter que escolher entre dizer o que efetivamente pensa ou falsear, ou então deixar que ele tire sua própria conclusão da experiência do mundo. Pela atual situação do País, tenho a sensação que muitos pais enxergaram nesse momento uma chance de perpetuarem em seus filhos suas crenças mais rancorosas e atávicas. Assim, os estão condenando a serem como eles, o que considero uma das maiores crueldades.

Ontem um carro matou uma pomba na rua e ela ficou lá, sendo achatada. B a viu morta e foi a primeira coisa morta que viu na vida e estava pedindo para vê-la de novo de vez em quando. Hoje, quando eu chegava da padaria, ventava muito e notei que o vento descolava a asa dela do asfalto e a desfraldava como uma bandeira. Não esbocei nenhuma espécie de beatitude sobre a inevitabilidade da morte ou da completude da vida para enrolar o B, acho que ele tem a capacidade de lidar com aquela cena sozinho, sua alegria é a prova dos nove.

Voltamos juntos para fotografar a asa no asfalto. Foi um jeito de mostrar a ele que as coisas brotam das coisas, e isso é tudo. É preciso entender o tempo dos filhos, que segue uma dinâmica mágica e que é alheia a quase todo pai que conheço. Na maioria das vezes, somos autoindulgentes.

Nana esqueceu de me deixar a chave e acabo lendo hoje, na garagem, por acaso, um conto do Jorge Filholini, no livro que ele me enviou e abri automaticamente depois de ler as epígrafes: Somos mais limpos pela manhã (Selo Demônio Negro). O conto era justamente um exocet, como disse outro dia o Ailton Krenak: uma espécie de Henry Chinaski do Inferno recebe a visita no bar, entre uma cachaça e outra, de uma garota que diz ser sua filha. Ele não lembra do que pode ter acontecido, ela tem uma mochila e vai atrás dele e se instala em sua casa. Ela o incomoda. Muito. Sua memória afetiva está embotada pelo álcool e pela vida infamante. Esqueceu de sua própria humanidade.

Filholini escreve bem pra cacete. O conto me lembrou a história de Jack Kerouac e da filha que renegava. Muitas histórias vieram à tona, como a do filme Lua de Papel, de Peter Bogadnovich, com Ryan e Tatum O’Neal. Fiquei tão impactado que não vou mais abrir esse livro por uma semana, pelo menos.


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