fotos: Juvenal Pereira


O grupo tuaregue Tinariwen em São Paulo, na Fundação Padre Anchieta, em março


“Um homem-bomba!”, berra a mulher da lanchonete quando passa por Mahfouz no corredor em frente ao estúdio da TV Cultura. Mahfouz, vestindo um glorioso tagelmust (o turbante típico do Saara), a ignora.

Mahfouz Ag Adnane é professor de francês em São Paulo e defendeu mestrado sobre a música do Saara na PUC-SP. Ele veio da Universidade do Cairo há dois anos e é tuaregue, solitário combatente do Azawad aqui no Brasil – o Azawad é a Nação africana reivindicada pelos tuaregues, povo nômade que se espalha pelo território que as invasões coloniais lhes tomaram (entre o Mali, Níger, Argélia, Burkina Faso e Líbia).

Mahfouz está todo paramentado na sede da TV Cultura, desde a véspera acompanhando o grupo de música do Saara que tornou sua tese possível: os conterrâneos do Tinariwen. Está exultante, muito feliz – naquela mesma noite, ele iria subir no palco do Sesc Vila Mariana e dançar com os Tinariwen, agitando a bandeira de sua Nação.

Nos bastidores da gravação, Mahfouz é um autêntico embaixador de sua revolução em torno dos amigos. “Não creio que tenham encontrado muitos tuaregues na América do Sul”, diz Mahfouz. Falam francês e tamachek pelos jardins, com uma reverência uniformizada ao guitarrista e vocalista Ibrahim, de dreadlocks, voz arenosa e passos ultralentos, uma espécie de líder silencioso.  

Esses homens já empunharam rifles AK-47 em sua terra. Têm séculos de escaramuças territoriais e culturais nas costas. Em 2014, prenderam o guitarrista Abdallah Ag Lamida por “tocar a música do demônio”. Já tem 37 anos que o Tinariwen inventou o estilo conhecido como assouf (guitarra), que ganhou o mundo e lhes valeu alcunhas como “Led Zeppelin do deserto”. No Sesc Vila Mariana, quem conhece de música estava na plateia, como os colegas Daniel Benevides e Alexandre Matias. No Rio, o Calbuque foi e escreveu decisivo texto.

O jornal inglês The Guardian anotou que os “filhos do Tinariwen” já se espalham pelo mundo. Como o grupo-matriz, seus nomes geralmente começam com T: Terakaft, Tamikrist, Toumast. Mas há alguns novos que já subvertem a norma: Kel Assouf, Imarhan, Bombino, Mdou Moctar, Ezza.

Eu e o Juvenal Pereira, 30 anos de reportagens juntos, passamos uma tarde com os Tinariwen pela cidade. A ideia era conhecê-los, mais do que reportar algo. Mas acabou que fizemos uma entrevista regular com Eyadou Ag Leche, baixista do Tinariwen. Conversamos no jardim da Fundação Padre Anchieta, enquanto eles esperavam para gravar participação no programa de TV Metrópolis.

Vocês se lembram da última vez que tocaram no Mali?

Eyadou – A última vez que tocamos foi em 2011, durante três dias, no Festival au Désert, em Timbuktu. Hoje é um pouco difícil pra gente tocar lá, por causa dos problemas políticos, não vivemos em paz. Mas não temos muita escolha, é a nossa terra, então temos que continuar a fazer a música, passar a mensagem. A comunicação é importante, porque hoje é tudo mais claro, há um movimento organizado, e mantemos muita concentração em tudo que acontece lá (eles vivem em Tessalit, na região de Kidal, norte do Mali, me conta Ibrahim).

A situação do Tinariwen, como um grupo de tuaregues globalizado, é um pouco mais confortável, porque há muita gente famosa que é admiradora de vocês, como Robert Plant, Josh Klinghoffer, etc. Gente que conhece a sua música. Mas, para os outros grupos, como é a situação hoje?

Eyadou – Eu penso que hoje está mais fácil para todos. Porque já faz 6 anos que partimos pelo mundo, tocando em todos os países possíveis, e abrimos um caminho para os outros grupos, e há muito mais gente que conhece o estilo. Eu acho que está menos difícil.

Há uma mulher que cantou em seu disco mais recente, Live in Paris, Lala Badi, uma voz impressionante. Pode me falar um pouco dela?

Eyadou – Ela é muito conhecida em nossa terra. Ela é tuaregue, é do deserto, muito talentosa, muito tempo de resistência, protege nossa cultura, História, a comunidade, a imigração. Ela vive na Argélia. É uma artista que tem servido muito à nossa causa.

Há muitos festivais ocidentais em que vocês têm tocado, como o Lollapalooza Chicago. Há uma cultura do rock nesses festivais. Como é sua relação com esse mundo indie?

Eyadou – Eu penso que a música de verdade não conhece fronteiras. Também cada artista faz seu caminho de forma particular, com sua marca pessoal. Eu vejo que há muita familiaridade entre o blues rock e a nossa música, muita proximidade. A história do blues começa no Mali, e mesmo hoje nós podemos ver que o blues e a nossa música carregam a mesma dor, o mesmo sentimento. A ligação permanece. A assimilação musical vem da repetição, é o coração dela.

As origens do blues são realmente do Mali, ou não? Ali Farka era muito próximo do blues, fez um disco sobre esse parentesco, Talking Timbuktu, com Ry Cooder.

Eyadou – Mesmo as pessoas que cantam o blues têm sua origem na África. Acho que já há 100% de certeza, os grandes bluesmen são de famílias de escravos, cuja origem era a África, a nossa casa.

O blues é tradicionalmente melancólico. Ele carrega a agonia da escravidão, de certa forma. A sua música também é melancólica. Ela carrega o quê?

Eyadou – O deserto, a excelência do deserto. Há de tudo na nossa música, porque há muita gente que não quer ouvir falar só de política, nem só de amor, nem só de melancolia. E as palavras nem sempre são necessárias. A música serve para que você possa ver melhor a si mesmo.

Os tuaregues são um povo nômade. E agora vocês são nômades duas vezes, vivem na estrada. Essa situação mudou sua música?

Eyadou – Sim. Há uma mudança. Primeiro, por causa de todos os meios de produção novos a que temos acesso hoje. Nós vivemos isolados muitos séculos, infelizmente, então agora nós aceitamos a mudança, é um mundo comunitário, mas nós também afirmamos nossa cultura, nossos princípios, ao mesmo tempo em que alargamos nossa visão.

Como você viu os recentes ataques terroristas em Bruxelas e Paris?

Eyadou – Eu penso que é difícil explicar como isso me toca, como me dói uma notícia como essa, gente que é morta durante um espetáculo, uma parada festiva. São criminosos, não é o islã. Criminosos que criam um problema para os verdadeiros islâmicos, é terrível.

 Mahfouz dança com a bandeira do Azawad no Sesc Vila Mariana



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2 COMENTÁRIOS

  1. Música Touareg é demais de boa, blues do deserto, ouçam Bali Otmani, ou Mebarek Othmane, é a mesma coisa, música original, genuína, não é cópia de nada, é diferente de tudo e é lindo. Detalhe, tudo puro e limpo, sem politicagem barata.

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