O pedreiro João, que fazia o alambrado nos fundos de casa, foi quem me contou. “Por causa da água que falta para vocês lá em São Paulo, tão acabando com a Mata Atlântica ali perto do Bairro Verava. É muito mato indo para o chão”. Fiquei encafifado.
Hoje resolvi ver com meus próprios olhos. Entrei na estradinha do Bairro Verava, que virou pura lama depois de uns 15 km rodando. O João exagerava: não tinha tanto mato assim cortado, porque a vala acompanha a estrada, é como se fosse uma duplicação. Mas a visão é impressionante: é uma serpente de tubos gigantescos ao longo de pelo menos uns 6 quilômetros de estradinha na mata. Em cada tubo, cabe um Magic Johnson em pé (2m10).
No Diário Oficial, achei as informações sobre o treco. O nome do negócio é Sistema São Lourenço, uma tubulação gigante que vai drenar a água da Cachoeira do França, em Ibiúna, que é formada pelo Rio Juquiá, e levar para São Paulo. O governo arrota peru: diz que o sistema vai levar água para 1,5 milhão de pessoas em Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Tiraria assim 1,1 milhão de consumidores diretos da água do Sistema Cantareira.

Serão 83 km de adutoras (grandes tubulações), incluindo um túnel de 1.100 metros pela serra e uma passagem por baixo da Rodovia Raposo Tavares.
Segundo o governo, o custo é estimado em R$ 2,2 bilhões (no sistema de Parceria Público Privada, ou seja: pressupõe-se que seja assumido inteiramente pela iniciativa privada, que terá direito a uma receita de até R$ 6 bilhões em 25 anos de concessão).
Quem ganhou a corrida foi um consórcio formado pelas empreiteiras Andrade Gutierrez e Camargo 
Correa. O principal executivo da Camargo Correa, Dalton Avancini (que inclusive assinou o contrato com o governo de São Paulo, em concorrida cerimônia, em 2013), foi preso pela Operação Lava-Jato e saiu outro dia com habeas corpus. A Andrade Gutierrez, segundo um delator da Lava-Jato, Pedro Barusco, pagou propina para conseguir 6 contratos com a Petrobrás.
R$ 6 bilhões é um quinto de uma Belo Monte, a controversa usina que tem gerado tanto debate. Não vi referência a estudos de impacto ambiental para o Sistema São Lourenço. Também não me lembro de nenhum grupo ambientalista chiando por causa dessa intervenção, considerada a maior obra hidrográfica do País. Tirando o pedreiro João, ninguém mais parece dar bola.
Na prática, trata-se de um processo de privatização da água. O gestor do sistema vai ficar 25 anos operando o São Lourenço e o preço da água será determinado por ele. A água vem da cachoeira, que vem do rio, que equilibra um delicado ecossistema ali na região de Ibiúna e adjacências. Tem bugios, serelepes, veados, quatis, tucanos, gaviões mateiros, todo tipo de pica-pau e beija-flor. Vão extrair dali 4,7 mil litros por segundo, uma demanda metropolitana que pode arrasar aquele rincão.

A água vem da natureza, mas o governo de São Paulo a entregou para a exploração privada. Água, bem que já está se tornando rarefeito no Sudeste brasileiro, virou uma das commodities mais valiosas da atualidade. O Ministério Público paulista, que se incomoda tanto com a proliferação de ciclovias, não parece ter muito interesse nesse caso.




DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome