A exemplo do autor norte-americano Philip Roth, que anunciou há um ano que estava abandonando a literatura, o premiado autor paulista Marçal Aquino anunciou ontem, em entrevista ao programa de webradio Cascudos & Loas (no Mixcloud), de Assis Ângelo, que está largando a escrita.

“Abandonei a literatura”, afirmou Aquino. “Pode parecer chocante. Você diz: o cara sempre fez isso. Mas quando você acha que já disse o que tinha que dizer, quando aquilo que você fazia com prazer…. É como um casamento, ir para a cama com uma mulher que você não deseja mais.” Ele também revelou que não fará mais roteiros para cinema. “É chato”.

Paulista de Amparo, Marçal Aquino é autor de livros como Cabeça a Prêmio, O Amor e Outros Objetos Pontiagudos (Prêmio Jabuti) e As Fomes de Setembro e roteirista de filmes como O Invasor e Nina. Seu romance Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (Cia. das Letras) virou peça de teatro, ganhadora de um Prêmio Shell, e dois filmes.

Marçal, entretanto, disse que não há mágoa na sua decisão, que há coisas que o interessam mais hoje que a literatura, e afirmou estar feliz. “Já escrevi o que queria. Quem me lê sabe quem eu sou. Quem não sabe quem eu sou não me interessa”.

Num exercício de comparação entre as decisões de Philip Roth e Marçal Aquino, é possível ver semelhanças. Roth parou porque sentiu que já tinha dito o que tinha de dizer. “Fiquei arrodeando por um mês ou dois tentando pensar em algo mais e pensei: talvez tenha acabado, talvez tenha acabado”, afirmou.

Já Marçal Aquino explicou: “Abandonar a literatura significa apenas abandonar a escrita, não a leitura. Eu sempre fui melhor leitor que escritor. Li mais livros do que escrevi. E sempre fui mais feliz lendo do que escrevendo”

Roth, entretanto, tinha 80 anos e tinha 31 livros publicados desde 1959. Marçal Aquino tem apenas 55 anos e 10 livros publicados.


No computador de Roth, havia um post-it dizendo “The struggle with writing is over” (A batalha com a escrita acabou). “Dei a mim mesmo uma dose de suco ficcional relendo escritores que não li nos últimos 50 anos e que significam muito quando os leio. Leio Dostoievski, leio Conrad, dois ou três livros de cada. Leio Turguêniev, dois dois melhores contos que jamais li, ‘First Love’ e ‘The Torrents of Spring.’”

Marçal disse que quer se dedicar a reler cerca de 700 livros de seu acervo de quase 3 mil volumes. “Vou reler Machado, Graciliano”, disse. E que iria agora apenas cuidar de sua mulher, de 29 anos, e da cachorra Tereza. Veterinário de formação (“What?”), negou que pretenda se dedicar à profissão original. “Não há razão. Abrir um pet shop? A essa altura. Mexer com o animal dos outros?”.


O jornalista Assis Ângelo, que o entrevistou, disse: “O Brasil pensante tem hoje razão de sobra para lamentar a noticia que dá conta do abandono de Marçal Aquino da literatura e dos roteiros de cinema e televisão. Seus amigos e admiradores, como eu, torcem para que ele repense sua decisão. Marçal é por formação um ser humanista e bem humorado, talentosíssimo”.




Escrevi o copião de matéria acima e esperava confirmação para publicar. Por precaução, antes de publicar qualquer coisa, voltei a conversar com o Assis. Ele estava convicto. “Não pode ser uma brincadeira dele, Assis?”. “Não, ele não é disso, J.”




Aí então finalmente chegou um email do Marçal respondendo à pergunta que eu lhe enviara, que era a seguinte: “Marçal, é tudo verdade aquilo que ouvi no programa do Assis Ângelo?”


Resposta:




“Nada, Jotabê. Brincadeira apenas. Continuo com fé de peregrino na literatura. Assis é amigo de velhíssimos tempos. Especulando sobre os quase 10 anos que não publico nada – TV, duas separações e um baque de saúde – brinquei com a coisa e ele embarcou. Mas não: ano que vem tem romance novo na praça.”


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E o Marçal ainda me sugeriu uma pauta: “Nos últimos dois anos, pelo menos três grandes escritores (dois ganharam o Nobel) anunciaram oficialmente a retirada – além do Roth, o Imre Kertész e a Alice Munro. Acho eu que, nesses casos, é uma questão de perda de fé misturada a fadiga.”

MARÇAL, SEU PILANTRA!!!!!!

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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