foto: nana tucci

O árabe berrava lá no fundo, e cada vez que berrava policiais se movimentavam pelo saguão como mariposas eufóricas, e lá no fundão eu ouvia gritos sendo devolvidos ao árabe. Eventualmente, aos policiais se juntavam também alguns bombeiros. Eu não podia ver o árabe nem sabia o que ele berrava, exceto quando gritava em francês coisas como “arrête” e “attendez”. Lá pelas 11 da noite a porta se abriu e eu vi que havia um homem algemado a uma maca de rodas, mas não sabia se era o árabe que gritava. Havia viaturas da polícia se movimentando lá fora sob a neve fina que derretia no chão antes de se acumular, uma neve meio molhada.
Chegou um cara sujo com uma das mãos enfaixadas com duas camisetas encharcadas de sangue. Dizia que tinha se cortado com vidro. Seus pés estavam para fora dos tênis estourados, e ele parecia desesperado. O recepcionista negro que também atuava às vezes como enfermeiro exigiu que dissesse seu nome e ele se embananou, parecia não lembrar o próprio nome. Quando finalmente o recepcionista conseguiu um documento, preencheu e disse para que ele se sentasse, logo seria atendido. Ele deixou cair um pedaço de pano ensanguentado, que ficaria no chão até a hora em que saímos. O homem foi atendido ali mesmo na triagem, logo exibia bandagens limpas na mão.
A enfermeira magricela de rabinho de cavalo ficou quatro horas passando pela sala de espera empurrando macas, fechando e abrindo portas, chamando os pacientes pelo nome. Uma hora o segurança mais mal encarado a chamou e disse que ela era valente, uma heroína, e a beijou no rosto. Foi a cena mais emocional que testemunhei naquela noite.
Um homem fingia que esperava alguém. Segurava uma valise em que se lia: CBS – Chief Engineer.  Ele dormia agarrado à valise encostado na chauffage, não deixava ninguém chegar perto do aquecimento. Era sua cidadela particular, encravada naquela sala estranhamente movimentada, naquele edifício sem charme e neutro do Hospital Lariboisiere, na quadra dos fundos do Gare Du Nord (para a qual a atriz Cécile de France vem de trem, e onde a espera um mototáxi, segundo contou).
Duas mulheres de roupas africanas esperavam. Uma foi chamada e entrou para o atendimento, apertando as costelas com um expressão de dor. A outra continuou esperando e uma hora dormiu esticando o casaco num dos bancos. Depois de duas horas, ela acordou e foi até o recepcionista e murmurou algo. Em seguida, foi embora. Quando sua mãe voltou, perguntou a todo mundo na sala se tinha crédito telefônico porque ela queria chamar sua filha que tinha ido embora. Ninguém tinha.
Um homeless maluco que parecia o Russo do programa do Ratinho entrava continuamente e era expulso. Passavam-se alguns minutos e ele voltava de novo, e os seguranças o botavam para fora de novo. Uma hora a chefe do plantão veio e lhe passou um sabão. Disse secamente que aquilo ali era um hospital, não um restaurante. Depois, tornou-se maternal e disse que ia ajudá-lo, mas era a última noite, e o colocou para esperar numa cadeira.
Daí a enfermeira magricela de rabinho de cavalo entrou empurrando uma maca na qual estava um cara jovem, de cabelo semi-raspado como um vestibulando da USP e superbêbado. Passou sorrindo e dizendo pilhérias para o pessoal no saguão. Ele tinha o punho inchado e as calças caindo, já estavam quase nos joelhos. Ela o carregou para o atendimento e a porta automática se fechou. Não demorou muito e ele voltou pela porta andando, cambaleante. “Alumette?”, perguntava, segurando um cigarro feito a mão. O cigarro caiu, a calça caiu, ele segurou ambos e encontrou um cara que tinha isqueiro. 
Acendeu o cigarro na sala, e irritou os seguranças. Foi fumar na neve. Ao voltar, a porta do atendimento estava fechada e ele esmurrou o vidro do recepcionista.
Já tinham se passado quase quatro horas no saguão de espera. Uma hora eu tirei uma soneca. Acordei com uma mulher que me perguntava se o lugar ao meu lado estava vago. Eu olhei em volta, estava meio sonado, e disse que ali não havia ninguém em lugar nenhum. Ela achou engraçado e riu e quis puxar papo comigo. Começou a dizer que aquela situação era igual em todos os hospitais públicos de Paris, que ela mesmo trabalhara em um deles e que nunca havia médicos nem atendentes suficientes. Eu quase brinquei: “É, o Brasil é mesmo uma bagunça…”. Mas só pensei.
Súbito, a porta da saleta de onde vinham os gritos do árabe se abriu e ele veio correndo, e se jogou contra a porta do atendimento. Berrava que sentia dor, que ia morrer e queria ser atendido imediatamente. Dois policiais homens e uma policial mulher o seguiram. Eram muito fortes, mas não conseguiam segurar o árabe. Ele chutava a porta e os rechaçava.  Parecia que iam lutar. Mas aí veio um árabe que estava na espera, um árabe muito alto e com cara de libanês. Ele gritou com o outro também em árabe e ficaram um tempo berrando. Os policiais se impacientaram e tentaram agarrar o homem. O libanês gritou com eles em francês. “Desse jeito não vai adiantar, vocês podem ficar fora disso por um minuto?”. Ele conseguiu acalmar o árabe, que foi levantado por uma enfermeira e voltou para a saleta de onde tinha saído sem resistência.
Chegou um casal que falava algo que parecia português, mas era esquisito, ficava incompreensível logo a seguir. Ou eram romenos ou eram da Galícia.Tanto sono que não dava mais para prestar atenção neles.Finalmente, surgiu Cécile, a doutora. Foi suave e eficiente. “Desolée”, disse, com sincero pesar. “O hospital está muito cheio hoje”. Deu a receita pela qual tanto ansiamos naquele domingo gelado. O prontuário médico dizia apenas: “Cystite non compliqué de femme jeune”. Sabíamos que era uma infecção urinária ordinária, mas os franceses sempre fazem tudo parecer mais glamouroso, não é mesmo?
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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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