‘SM, XLS’, terceiro disco da cantora paulista, traz a maioria das faixas acompanhada de apenas um instrumento, que mescla autores consagrados a novos craques do samba.

A compositora e cantora paulista Juliana Amaral chegou a pensar em desistir da carreira em 2011. Almas gentis a convenceram de que estava errada. Ela ainda tinha (e tem) uma estrada para percorrer na música brasileira. Não é uma estrada qualquer, daquelas por onde todos passam e ninguém permanece. É um caminho escondido, para os poucos que se aventuram a ir além do óbvio mas que desejam profundamente ficar, criar raízes, construir histórias. Egressa do mundo do teatro e das letras, Juliana gosta de se definir como uma “moça de dobrar papel pequeno”. Por isso, não se espante quando ouvir seu terceiro disco, “SM, XLS” (“Samba Mínimo, extra-luxo-super”) ou ver seu show e presenciar uma tessitura minuciosamente elaborada como há tempos não se ouvia. Nada está ali em excesso, nada está faltando. É uma narrativa precisa, concisa, reveladora e que consegue extrair de sambas (nada batidos) a sua beleza mais recôndita. É um disco bonito, emocionado e emocionante, tomando de empréstimos algumas de suas palavras. FAROFAFÁ conversou com Juliana:

Juliana Amaral, em apresentação no SESC Pompeia - Foto Marcelo Dacosta
Eduardo Nunomura: Em janeiro, quando gravava o disco, você dizia que esse processo era único, porque representava uma reviravolta em sua vida. Em vez de desistir da carreira, você tinha ganho uma oportunidade única. Como foi essa reviravolta?
Juliana Amaral: É uma reviravolta porque nesse disco eu assino o projeto, a produção artística. O que quer dizer que minha responsabilidade do ponto de vista musical e artístico é infinitamente maior do que nos anteriores, em que houve a figura do produtor (no primeiro disco, o Luis Felipe Gama, e no segundo, o Moacyr Luz). Ou seja, dessa vez eu tive de fazer todas as escolhas – sonoridade, repertório, instrumentos, músicos, modo de gravação, roteiro, arte, tudo. Nos anteriores, eu colaborei e interferi em tudo, mas, até por inexperiência, não assumi o rosto do disco. Neste, ainda que com a colaboração artística fundamental do Humberto Pio, que divide comigo a direção do projeto, desenhei cada milímetro do que está gravado. E se ele é bom ou ruim, é por minha culpa, exclusivamente.

EN: Por que decidiu gravar desse jeito?
JA: Eu assino a direção musical, meu maior medo, ainda que antes não me sentisse competente para isso – e mais uma vez, tive de fazer as escolhas musicais todas (essas sim, completamente sozinha). A decisão de parar de cantar (que não foi histérica ou desesperada, mas serena e sóbria) e depois resolver fazer o disco com meus amigos trouxe pra mim uma força e uma maturidade ainda desconhecidas, e me vi cercada de pessoas que de fato estavam dispostas generosamente, e que reconheciam no meu cantar uma forma de dizer que faz alguma diferença em suas vidas. Foram muitas demonstrações de apreço, de entendimento, de companheirismo, de afeto, que não terei nunca como agradecer. Acho que a disposição e generosidade das pessoas todas que estão comigo nele – meu produtor-empresário-irmão Guto Ruocco, o Humberto, todos músicos, os compositores (aqueles que estão no disco e os que não estão), meus sócios, os amigos, os amigos dos amigos, são as maiores descobertas de todo esse processo.

EN: Gravar pelo Selo SESC ajudou nesse processo?
JA: O Selo SESC foi extremamente respeitoso com tudo e não interferiu em nada. Não pediu nenhuma concessão e ainda possibilitou não só que todo mundo fosse honestamente remunerado, mas que as condições técnicas do disco fossem as melhores possíveis. Sem contar que cuidou dos direitos autorais daquilo que já era editado, questão que possivelmente traria muitos problemas no caso de lançarmos o disco de modo independente.

EN: Me fale um pouco do CD e do show. Por que “samba mínimo”? Em geral, muita gente pensa em samba como algo máximo, com um quê de apoteótico ou ainda de lamento profundo. O que há por trás do “mínimo”?
JA: Primeiro há meu jeito de cantar: há tempos procuro despir meu canto de excessos, de vaidades, de facilidades, em busca do pequeno, do mínimo preciso, cirúrgico, que aponta para um lugar tenso e de desconforto significante (aqui o Bertold Brecht), e por isso mesmo revelador pra mim e pra quem ouve. Há bastante tempo entendi que meu instrumento vocal é relativamente limitado, não tenho agudos infinitos ou uma voz construída de modo acadêmico, e não consigo fazer “malabarismos” vocais. Tenho sim um ouvido excelente (graças aos deuses) e uma facilidade rítmica pouco ordinária, sou obsessivamente afinada, tenho muita memória, e mais importante, fui forjada no teatro e nas letras, o que me fornece um estofo sensível, artístico e poético para além da música. Canto por necessidade de dizer, e estou a serviço da canção, porque é o modo que escolhi para ser no mundo. E não há como dizer direito me escondendo, me esquivando.

EN: O mínimo, ironicamente, está também no repertório, que traz muitos sambas de compositores não sambistas, ou melhor dizendo, não ligados à tradição do samba, como Itamar Assumpção, Tom Zé, Mundo Livre, Novos Baianos, e as inéditas do Maurício Pereira, do Nenê e Pedro Marques, ou da Mariana Zanetti.
JA: O mínimo é, ainda, a busca de mais uma força opositiva dentro do samba, que é um gênero cuja força é paradoxal – “sambar é chorar de alegria/ é sorrir de nostalgia/ dentro da melodia” ou “o samba é pai do prazer/ o samba é filho da dor/ o grande poder transformador”, ou seja, é a minha maneira de reforçar, pelos avessos, a tal “exuberância” do samba. E esses avessos e paradoxos estão no encarte do disco (a embalagem crua, áspera, feita de um papel nobre usado do lado “errado”, junto com o dourado luxuoso) e no cenário e figurino do show – o piso feito de placas de linóleo de gráfica descartados; as placas metálicas no fundo do cenário feitas de refugos de latas de milho-verde, do lado de dentro, que é dourado; a cortina de algodão com as costuras aparentes; meu vestido verde que mostra uma parte de seu avesso). Minha mãe sempre me ensinou que a qualidade do bordado se vê pelo avesso, que tem de ser tão bonito como o direito. É isso que eu quero na vida e na música.
Ah, o nome “Samba Mínimo” está guardado comigo desde 2005, e teria sido o nome do meu segundo CD, mas ele foi peremptoriamente rechaçado pelo então produtor Moacyr Luz.


EN: Sobre a escolha do repertório, você mesclou composições novas com outras mais antigas, de autores consagrados, e nada óbvias. Poderia incluir nesse último grupo “Leonor”, de Itamar Assumpção, “Samba Erudito”, de Paulo Vanzolini, e “Brigitte Bardot”, de Tom Zé. Você sempre quis trabalhar com um repertório nada trivial?
JA: O repertório não óbvio não foi uma procura em si. Há, é claro, uma vontade de não repetir, de não regravar coisas que já foram feitas à exaustão. Talvez o não óbvio “programático” esteja em gravar sambas de compositores que não são sambistas. Mas o mais importante na escolha do repertório, que tem participação decisiva do Humberto Pio, foi traçar um fio condutor narrativo e poético (e não necessariamente linear) que costurasse tudo trazendo uma unidade ao disco. Por isso o desamor amorosíssimo de “Leonor” e “Brigitte”. Por isso falar do samba encadeando “São Mateus”, “O mistério do samba” e um super-tradicional clássico portelense (“Ilumina”). Por isso cantar, chorar e passarinhar (“Canta” e “Acabou chorare”). Por isso os poemas, por isso as vinhetas do Kiko junto das inéditas. Por isso nenhuma música de amor fácil ou feliz. Por isso repetir duas músicas do disco anterior (“Canta” de Wilson Baptista e “São Mateus” do Rodrigo Campos e Marcos Paiva). Dizendo de outro modo, entendo o repertório como uma dobradura japonesa: um plano bidimensional que graças a uma sequência perfeita de movimentos exatos (e necessariamente sem rasgar o papel), formam um objeto único, com forma, profundidade, corpo, entranhas, movimento, e que nos faz entender que a vocação maior do papel seja esta, mágica, poética, sagrada.

EN: Fale-me um pouco dos novos, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Mariana Zanetti. São influências, amigos? Por que gravá-los?
JA: Antes de tudo são amigos, ou amigos de amigos. Depois, não tinha sentido somente regravar canções – o show “Samba Mínimo” original não tinha nenhuma inédita, mas para o disco senti necessidade de ser a voz de gente da minha geração, ou que pudessem trazer aquelas inquietações de um modo original. Tem muita gente fazendo coisa muito maravilhosa, e me sentiria irresponsável com o meu tempo se não os colocasse pra dentro. Quando decidimos gravar, no início de 2011, escrevi pros meus amigos (Kiko, Rodrigo, Lincoln, Rubens, Pedro Marques, Heron Coelho) e pra pessoas que não conhecia direito também (Douglas Germano, Rômulo Fróes, e o próprio Maurício, que depois se tornou um grande amigo), e pedi gentilmente que me mandassem sambas (ou nem tanto) que fossem inéditos (ou nem tanto) pra serem gravadas daquele jeito, voz e um instrumento. Recebi canções incríveis, algumas feitas especialmente pra mim, outras que estavam guardadas nas gavetas e foram terminadas pra mim, outros me mandaram sugestões de músicas já gravadas que serviriam pro disco. Enfim, fui escolhendo o que cabia na minha voz, e no disco, o que se prestasse à dobradura. Ficou um monte de canções de fora, uma dor. Fechamos o repertório e fizemos alguns shows na Casa de Francisca em maio e julho de 2011. Quando finalizamos o projeto pro SESC, uma delas caiu, eu não estava satisfeita com o arranjo, estava esquisita. Então no finzinho do ano chegou a “Mistura”, da Mariana Zanetti, que é uma grande amiga, ilustradora, artista plástica, e que me mandou aquele samba em modo menor que ela gravou sozinha no celular, sem acompanhamento, morrendo de vergonha, porque não ela é música, nunca tinha composto nada, e um dia acordou com um samba pronto na cabeça, um alumbramento, um presente: era a peça que faltava pra fechar o repertório.

EN: Como foi a concepção do show? O disco nasceu do show. Me corrija se estiver errado. A ordem diferente de apresentação das músicas no espetáculo parece querer construir uma história com uma narrativa própria. Era essa a intenção?
JA: O espetáculo no formato final, que foi apresentado no lançamento, nasceu junto com o disco. Explico. O show “Samba Mínimo” original surgiu de um convite, em março de 2008, para fazer uma temporada num teatro minúsculo, na Roosevelt. Eu tinha acabado de lançar o “Juliana Samba” em setembro de 2007, mas seria impossível colocar 6 músicos naquele palco ínfimo. Então montamos o Samba Mínimo, que tinha algumas canções daquele disco, e outras, mais esquisitas, urbanas com aquele viés de não sambistas. Tinha a cara do teatro e a minha cara. O repertório era todo, de propósito, não inédito, e encontramos uma unidade poética que me interessou muito – canções costuradas por poemas, em formação musical reduzida (voz, violão, percussão). Deu certo, eu fui gostando demais dele e ele de mim, e fizemos mais um tanto de shows, até o final de 2009. Em 2010 nada, nenhum. Em 2011 decidi parar de cantar, e fui sumariamente impedida pelo Guto e Humberto, que inventaram a história de gravar com colaborações, porque tinham certeza de que muita gente ia querer fazer isso dar certo. Nisso estava claro que eu deveria produzir o disco junto do Humberto, e tomei coragem de fazer a direção musical. Então, para o disco, selecionamos daquele repertório o que nos parecia mais consistente, e constituímos o bloco “SM”.

EN: E o bloco “XLS”, extra-luxo-super?
JA: Então fui atrás dos compositores para o bloco das inéditas (que virou o luxo do disco, os presentes, o XLS), para as quais recuperei uma ideia antiga de cantar acompanhada de um instrumento só. O Kiko me ofereceu suas vinhetas, e resolvemos colocá-las como costura desse outro bloco, fazendo o papel dos poemas da outra parte. Desde o início, nos pareceu mais interessante que, no disco, o SM fosse como um grande “bônus”, que viria depois das inéditas, oferecendo um descanso e um reflexo (ou uma reflexão) ao tanto de novidade que vem no início. Mas para o show, nos pareceu mais importante que ele viesse à frente, como uma reverência ao repertório, aos compositores, e aos meus cúmplices, os músicos. Nasceu assim, porque eu e o Humberto nunca pensamos o disco sem o show, nem o show sem o disco. O cenário, a capa, o roteiro, tudo foi construído ao mesmo tempo, misturado. Ou seja, não sei se a inversão é uma outra narrativa, mas me parece mais um reforço de sentido.

EN: Você disse que ia demorar um pouco para entender tudo o que aconteceu nos dois shows de lançamento do CD de estreia, que ocorreu no Sesc Pompeia, em agosto. Mas confidenciou que sentia como se seu coração estivesse em chamas, tal como um “sol vermelho e quente” no meio do peito. O que você já está entendendo?
JA: Antes do show, assim como antes do disco, meu estado (como bem me descreveu o Maurício Pereira) era entre a possessa e monja, ou talvez de concentração de piloto antes da decolagem. O show, sobretudo o segundo dia, foi muito intenso, fiquei quase transtornada, tomada de uma alegria sem precedentes. Recebi retornos incríveis, depoimentos de pessoas que amo e admiro muito e que ficaram muito emocionadas com o show. Foi mesmo uma sensação solar, imensa, quente. E depois, veio a tal ressaca, natural, que aconteceu também depois da gravação. Mas agora entendo. Que fiz um disco muito, muito bonito, emocionado e emocionante, que tem minha cara e minhas mãos. E que agora esse disco está tornado espetáculo, que é bonito, muito bonito, que me emociona de fazer, e emociona os outros em ver e ouvir, cumprindo assim seu papel transformador. E que tem minha cara e minhas mãos, meu cantar triste e inteiro.
Que o que eu faço tem um cuidado com as pessoas e com a música não ordinário, motivo pelo qual meus amigos querem ficar por perto de mim, e sou orgulhosa disso, quero isso pra minha vida, fazer junto, fazer com, fazer bem feito. Nessa história toda me descobri cercada de tanta gente querida, generosa e gentil, só sei agradecer. Que depois de 20 anos cantando, finalmente consegui fazer um espetáculo com o nível de acabamento que desejo e admiro, sem excessos, sem truques, sem precariedades e sem mentira. Nele, sou eu inteira e leve, a serviço da canção, da palavra musicada, que é a tarefa mais formosa que possa haver. Que quero fazer esse show muitas milhares de vezes mais, à exaustão. Que ter quase 40 anos faz toda diferença. Pra melhor.

EN: Você começa, no show, com um poema de Bertold Brecht e explica que ele não pode ser gravado por questões de direitos autorais. O que foi isso?
JA: A questão dos direitos autorais é uma palhaçada que eu não sou capaz de compreender. O problema teve origem num desentendimento jurídico entre o escritório que cuida dos direitos autorais para o SESC e a editora que detém os direitos da tradução do poema. Segundo três consultas informais que fizemos, e segundo a própria Editora 34, a autorização da tradução já seria suficiente, e essa conseguimos. Mas o advogado do SESC insistiu na necessidade da autorização do original alemão. Só que isso levou 2 meses, depois de muito vai e vem, muita pressão nossa de todos os lados, muito desgaste, e então descobrimos que os trâmites eram lentos e complicadíssimos. Ou seja, faltavam quarenta dias para os shows de lançamento já marcado, e não tínhamos a certeza de que a herdeira do Brecht perdida num cafundó na Alemanha iria ou não liberar a gravação. Esperar essa definição, que poderia inclusive ser negativa, significaria adiar o show de lançamento, pois corríamos o risco de não ter o CD pronto a tempo. E se fosse assim, eu teria de desmarcar com pelo menos 20 pessoas que tinham suas agendas comprometidas com as datas do show, gente que tinha deixado de viajar pra estar aqui, ou deixado outros compromissos por minha causa, e esse preço era alto demais, eu não quis pagar, seria muito desrespeito com eles e comigo. Optamos então por tirar o poema e fazer o vale-brecht (o link para ser acessado pela internet foi encartado no livro). Uma ironia dolorida, pois o poema é praticamente uma ode ao uso e reuso das obras, à apropriação do conhecimento e da arte e a frutífera transformação que daí advém, e poderia tranquilamente figurar num manifesto contra os direitos autorais.

EN: Antes da reviravolta em sua carreira, você chegou a começar um processo de financiamento coletivo (crowdfunding) próprio para buscar recursos para gravar o disco. O selo SESC apareceu no meio do caminho. O que ficou de positivo daquela experiência?
JA: Pra mim, de modo muito pessoal, o processo de mecenato me fez sentir a disponibilidade afetiva e financeira de muitas pessoas em investir no meu trabalho, o que foi incrível e inédito pra mim. E essa foi a principal reviravolta (e não a chegada do SESC), porque foi isso que me fez mudar de decisão (aquela, de parar de cantar), e trouxe, acredito, a força vital do projeto. Do ponto de vista mais geral, acho que estamos num momento importante de transformação dos modos de produção de música, incluindo aí a sobrevivência de todos os seus atores, e eu sinceramente não sei o que vai ser disso. Não sei se sou capaz (e nem se quero) me adaptar, por exemplo, a um mundo que não entende o silêncio, em que tudo é tão mais barulhento e tão absurdamente ligeiro, em que os tempos de fazer e ouvir são tão efêmeros. Sou moça de bordados, literalmente, moça de dobrar papel pequeno. Por outro lado, é bom ver que tem muita gente em todo canto me ouvindo, gente que vai ao show que se dispõe ao novo, que se emociona e quer mais. Muita gente, o que é bom demais também. Enfim. Estamos no meio do furacão, acho. Mas isso é uma outra conversa, comprida….


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