Da primeira vez que as vi, senti ternura pelas pinturas ruins de Tony Bennett.


E tive piedade do grande Dario Fo ao descobrir suas pinturas por acaso na semana passada, numa viagem a Milão.

E Bob Dylan podia ter nos poupado de seus óleos.

Pintar é coisa de astúcia.

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Da mesma forma que senti desabrido orgulho de ter sido apresentado às gravuras de Samico pelo próprio Samico. Samico que enche suas gravuras de estrela, serpente e todo o “bestiário” do imaginário popular. “Tela é que nem menino”, ele brinca. “O nome a gente põe depois”.




Tenho sentido falta de grandes fotos.
A vertigem tecnológica não tem produzido coisa excepcional em fotografia, ao menos até agora.
Em 1994, eu tive o prazer de conhecer o fotógrafo-lavrador Haruo Ohara (1909-1999).
Ele ficava noites à espera de uma flor se abrir para fotografá-la.
“Qual sua melhor foto?”. Ele me respondeu: “Se eu tivesse feito a minha melhor foto já tinha parado”.

A fotografia é como um tapete mágico. Leva-nos a toda hora a toda parte, aos pés do amigo ausente, ao ambiente das paisagens saudosas. Este milagre dos homens foi conseguido à custa de muitos sacrifícios, de muitos desesperos, de muitas noites mal dormidas, de muitas horas de ansiosa expectativa. É sempre por esse preço que o homem arranca os segredos da natureza”.
Foi o que disse o fotógrafo letão Alexandre Berzin (1903-1979), que viveu no Recife.




Eu mesmo, amador pomposo, gosto demais de fotografar, mas fotografo sem paciência.
Quero o insight, a revelação, espero por um milagre.
Foi com certa irritação que eu descobri hoje que gostava mais das fotos que fazia com o celular velho, condenado ao lixão tecnológico pela manutenção, à minha revelia. Tinha fascínio pela granulação que suas limitações produziam, um efeito pré-Instagram feito de poeira e ineficiência.

 Por fim, uma historinha para clarear o dia:


Três meses antes de morrer, o poeta Allen Ginsberg ligou para um jovem amigo, o ilustrador Eric Drooker, e o convidou para jantar. Depois, foram ao apartamento do escritor em Nova York e Ginsberg lhe falou com entusiasmo de uma obra de arte que acabara de descobrir, a tela O Triunfo da Morte, de um mestre do século 16, Pieter Bruegel the Elder.
Ginsberg tateava no escuro das visões.
É preciso amar as visões.

“Tudo que sonhei atravessa o cristal”, um dos versos que salvei no novo disco do Zé Ramalho.
Velho semeador de visões.

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