A liga não era de Lennon & McCartney, porque estes de cá nunca foram músicos extremamente populares – talvez nem sequer populares, sem o advérbio exagerador. Mas a liga de compositores entre Jorge Mautner, hoje com 71 anos, e Nelson Jacobina, morto na manhã desta quinta-feira (31), aos 58 anos, era um pequeno tesouro brasileiro, de harmonia completa entre letra e melodia, entre delicadeza sonora e discurso bravio, entre coragem e timidez, entre poesia e política.

Mautner produziu seu melhor em música (é também escritor e poeta) em parceria com Jacobina, e a dupla Mautner & Jacobina produziu seus melhores momentos no intervalo 1972-1988, sempre em discos assinados pelo primeiro. Nelson viveu um de seus auges artísticos (mais recentemente, participava do combo carioca Orquestra Imperial, com resultados também vigorosos) em Árvore da Vida, álbum em que Jorge lhe concedeu co-assinatura na capa e possivelmente também seu próprio momento musical mais afiado.

Mautner e Jacobina nos anos 1970 (foto do site oficial de Jorge Mautner)
Jorge & Nelson compuseram música em tempos nos quais não se podia falar de tudo, de qualquer coisa, do que desse na telha. Não se podia falar de liberdade com liberdade – e eles os faziam, ainda que à boca miúda. Talvez mesmo pela liberdade minúscula usufruída por quem não pertença ao “star system”, conquistaram o afeto musical dos tropicalistas — mais especificamente Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

Na voz de Gil, tornou-se popular, (quantitativamente) maior que Jorge e que Nelson, o deslumbrante fábula “Maracatu Atômico” (1974): “O bico do beija-flor beija a flor, beija a flor/ e toda a fauna, a flora grita de amor/ quem segura o porta-estandarte tem arte, tem arte/ e aqui passa com raça, eletrônico, maracatu atômico”.

Os versos cariocas compartimentados, de beleza e sagacidade ímpares, voltariam à tona em 1996, em versão manguebit (imposta pela gravadora multinacional Sony, segundo reza lenda com ares de fato) dos pernambucanos Chico Science & Nação Zumbi: “Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu/ depois tem outro céu sem estrelas/ em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva/ que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”.

Gal Costa lançou, também em 1974, “Lágrimas Negras”, uma das mais tristes e pungentes canções que a MPB já conheceu (e que não chegou a ser hit-parade, nem na voz de Gal). Melodia e poesia caminhavam casadas, sincopadaa, sincromizadas, até o ápice em duas lindas e doloridas frases finais: “Por entre flores e estrelas/ você usa uma delas como brinco pendurada na orelha / astronauta da saudade, com a boca toda vermelha/ lágrimas negras caem, saem, doem/ são como pedras de moinho que moem, doem, roem/ e você, baby, vai, vem, vai/ e você, baby, vem, vai, vem/ belezas são coisas acesas por dentro/ tristezas são belezas apagada/ pelo sofrimento”.

 

 

Caetano “se incumbiu de espraiar outra grande (e para sempre impopular) parceria Mautner-Jacobina, a bissexual “O Vampiro”, de 1979. De cara, surgia o motivo recorrente da dupla: as lágrimas, magoadas e/ou depuradoras: “Eu uso óculos escuros pra minhas lágrimas esconder/ e quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr”.

A sexualidade, em tempos interditados e moralistas (hoje não são?), era equiparada à figura entre terrorosa e cômica do vampiro: “Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto/ e vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro”.

Lançado originalmente pelo selo independente Geleia Geral, de Gilberto Gil, e nunca reeditado depois,Árvore da Vida é momento culminante tanto de Jorge como de Nelson, primeiro porque reúne versões autorais rasgadas, inspiradas, de “Maracatu Atômico”,  “O Vampiro”, “Lágrimas Negras” e “Samba-Jambo” (que o próprio Mautner gravara em 1976, sob os macios, meigos e bandeirosos versos “eu me encosto neste poste/ à sombra da bananeira/ e por mais que eu te goste/ você não vê minha bandeira”.

E segue em alto nível, em conposições só demajorge (como a terns e crua “Menino acarnavalesco”) e em parcerias então inéditas, como “Zum-Zum” e “Árvore da Vida” (“”cinza é toda teoria/ mas verde, meu amigo,/ é a cor da árvore da vida”).

Agora acabou. Neste dia em que a parceria e a liga se tornam definitivamente impossíveis de se repetir, restam, grossas e negras e verdes e vermelhas e amargas, as lágrimas-versos que, hoje, Jorge poderia portar em estandarte, flor do beija-flor, mão na luva no porta-luva, para exprimir os sentimentos de quem ama música brasileira por seu parceiro fundamental: “Na frente do cortejo, o meu beijo/ forte como aço, meu abraço/ são poços de petróleo a luz negra dos seus olhos/ lágrimas negras caem, saem, doem”.

(Abaixo, “Lágrimas Negras” em sua versão mais recente, por Nina Becker, colega de Jacobina na Orquestra Imperial.)

 

 

     
    (Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)