foto: nana tucci







Na Virada, temos de encarar o bafo dos nossos bêbados chatos, nossa falta de educação, de modéstia, nosso egoísmo, a falta de cavalheirismo, o oportunismo.

A Virada escancara nossa feiura paulistana, a carência crônica, a fragilidade existencial. O ser humano cronicamente inviável mostra sua cara na Virada, mijando no poste, quebrando garrafas de vodca e espalhando cacos de vidro, jogando caixas de CDs velhos na calçada, empurrando grosseiramente os fãs que tentaram guardar lugar na primeira fila para ganhar no grito o lugar.

Na Virada, somos obrigados a concordar que o casal de idosos dançando juntinho é bacana, é emocionante, mesmo que a música seja Entre Tapas e Beijos, que a gente não gosta.

Na Virada, a gente se emociona com artistas que não têm mais plateia ganhando uma de “presente”, ao menos durante uma hora.

Na Virada, eu vi um mendigo furtando o algodão doce de um velho vendedor que não teve energia para persegui-lo.

Na Virada, os exibicionistas afetivos fazem carícias íntimas e se beijam com um olho aberto, olhando para ver se alguém está vendo, pois não é possível ser lascivo sem testemunhas.

A Virada revela nosso pior lado burguês, quando a gente dá graças a Deus por ter dinheiro suficiente para descansar no restaurante, enquanto o povaréu se espreme na Avenida São João; quando a gente dá graças a Deus pelo crachá que dá acesso à área reservada, sem precisar ser espremido nas grades.

Este ano eu vi um lado interessante na Virada.

Não, não mudei de ideia em relação à relevância artística, continuo achando que a Virada não é o melhor lugar para quem procura pelo novo, pela invenção. Claro, foi bacana rever o Arrigo no Largo do Arouche, os escudeiros de Frank Zappa na Avenida São João. Mas tem muita farofa e pouco peru nesse banquete.

Mas, nesse espelho fosco que é a Virada, consegui finalmente ver pelo menos um lado interessante: é nela que somos obrigados a uma forçosa convivência com o “vizinho” de São Paulo que evitamos cumprimentar o ano todo no elevador ou na saída da garagem. O vizinho motorista pelo qual desenvolvemos ódio mortal no trânsito por conta de uma fechada, ele está ali do lado na Virada, com o filho vestindo a camiseta do Corinthians.

Toda São Paulo está maciçamente representada nessa monstra, do bêbado ao crackeiro, do batedor de carteiras ao policial relapso, da adolescente sonhadora ao travesti bonito. É a noite em que não adianta usar álcool gel para não se contaminar. A cidade renegada está te pedindo uma ponta de cigarro.






(publicado originalmente após a virada cultural de 2010)

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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