o bar sem nome, em paraty

era um sujeito que andava como se não dobrasse os joelhos, o que conferia ao seu andar uma ginga ornitológica, de passarinho.
suas calças de cós alto, com vinco, o cinto com a inicial do seu nome da fivela…
eu o desenganei imediatamente.

é herança do meu pai, essa mania de fazer um julgamento sumário a partir do jeito de andar, de cortar a barba, do formato do rosto: as orelhas mais baixas do que a linha das sobrancelhas mostraria tendência à empulhação e também à crueldade.

gente com quadris grandes demais tem jeito de ser boa pessoa.
gente que come olhando para o próximo pedaço de comida não é confiável.
falar sem olhar nos olhos pode ser um mau presságio.

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deixava de ouvir um interlocutor num debate ou numa mesa-redonda assim que ele começava a empilhar advérbios e adjetivos em dose maciça com mão suarenta – certamente, uma qualidade que denunciava um pavão a quilömetros de distância.

sempre olhei meio desconfiado para quem gasta 40 minutos no banheiro passando fio dental – reparem que quase sempre usa calça cáqui e camisa polo.
para me dar razão na minha insânia, notei que muitos dos caras que eu mais desprezo eram limpa-trilhos de dentes profissionais depois do almoço.
minha sentença é que um babaca de dentes imaculadamente limpos será apenas um cadáver sem atrativos para os vermes.

o aposentado que vive no lobby do meu prédio, e que alimenta os pássaros e recolhe vasos com flores secas para ressuscitá-las, bom, da primeira vez que o vi, eu o temi imediatamente: tem pinta de que teria se dado muito bem no papel principal se o anthony perkins não tivesse podido fazer “psicose”.
ao encontrá-lo na garagem, de noite, eu já podia ouvir a musiquinha tétrica: tuimtuimtuimtuim…

porém, ao confiar em suas qualidades de síndico sem eleição, e recebê-lo afável e confiante, a garota o desarmou e mostrou que ele era na verdade doce e prestativo.
o pior: agora ele me adora.

o lombrosianismo de uso pessoal já não se mostra adequado há muito tempo como ferramenta de sobrevivência diária. foi desmascarado por gente brilhante de bochechas rosadas e pernas finas.

só tem um tipo que eu continuo a não lhe dar crédito: o entrevado.
o entrevado de preguiça física, quero dizer.

o entrevado que, em vez de tirar o carrinho de supermercado da frente da gôndola para passar, o contorna e deixa ali para que o próximo cliente se vire.
não lhe dou a mão, tenho medo que ele não tenha se lavado após o ato.

sim, estou em na minha lua da encrenca.
em 15 dias, já arrumei mais treta do que em um ano.
às vezes penso se não tenho um cérebro análogo ao do doberman, que, comprimido por algum tipo de inadequação da caixa craniana, me cutuca e me desperta alguma ferocidade.
sei que não estou certo em 80% das tretas, mas uma só boa e justa briga já me consola.
canalhices em bloco, arquitetadas por canalhas ungidos com autoridade e hierarquia, sempre me trazem de volta à trincheira.
quem sabe um bom drinque no bar sem nome me faça recobrar a consciência.

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