O Paraíso está infestado de Orgasmatics. Estão em toda estação, hoje em dia. Só na Praça da República é possível contar umas 7 dessas. Máquinas de orgasmo artificial.

Três moedas grandes, a portinhola da cabine se abre e tem um troninho que se adequa com perfeição ao “molde” do cliente, seja ele balofo ou esquelético.
O sistema consiste numa pequena descarga de estímulos elétricos na espinha dorsal. E pimba! O serviço está feito. A satisfação depende naturalmente de fatores biológicos particulares, mas é garantida, dizem os banners no metrô. Nunca experimentei.

Houve uma polêmica no início, a Hustler e a Penthouse entraram com uma ação na Justiça americana dizendo que ia quebrar o negócio das revistas pornográficas, mas ambos estão por aí, convivendo harmoniosamente. Na Argentina, os motéis fizeram uma campanha contra na TV.

Se é possível escolher um tipo alternativo de orgasmo? Perfeitamente. Basta uma moeda a mais. Muita gente acha isso aqui uma maravilha, e tem um estilista tipo exportação, famosão, que tem uma máquina particular numa espécie de lounge de sacanagem, na sua mansão em Vargem Grande Paulista. É preciso ser rico, porque são caras, mas a administração municipal – o sexólogo eleito em outubro – resolveu adquirir várias e distribuir por aí, como um serviço publico. Isso resultou num processo este ano, quando um promotor público foi encontrado morto dentro de uma caixa dessas – a perícia concluiu que teve uma parada cardíaca em plena função.
O lance esquentou o debate na imprensa, mas agora só se fala no cara que morreu devido a algum tipo de complicação do implante de um chip de telefone celular no lóbulo da orelha…

Algumas máquinas Orgasmatics já estão em péssimo estado, as portas forçadas por pés-de-cabra. Pela fresta, reparo no tênis do sujeito que está enfiado nesta aqui, perto das bilheterias – lembra uma edição antiga do All Star que não acho mais nas lojas de calçados. É até engraçado: as garotas de programa infestaram as paredes das Orgasmatics da Barra Funda. As mensagens parecem relatório de pesquisa de opinião: “Cintya, idade: 18 anos, quadril: 100 cm, Vaginal: sim, Swing: sim, Altura: 1,66 m, Busto: 89, Oral: sim, Anal: sim, casal: sim, peso: 52 kg, olhos: …”

Os kleenex usados estão pelo chão, com manchas amarelas de gozos que lembram a máscara do Rorschach. O cara sai reclamando alto que é caro e a manutenção não troca os lenços de papel.

Trecho do inédito A MORTE ENGARRAFADA, uma pulp fiction científica de baixo orçamento e fraca imaginação.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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