Ando falando muito pouco por aqui, acho que porque ando falando muito em outros lugares, não sei. E, em outros lugares, ando falando muito sobre compositoras – além de Dona Ivone Lara, há a Nara Leão, e agora a Dolores Duran. Como foi maravilhosa, no brevíssimo prazo que teve, a Dolores Duran…

Texto do caderno “Outlook”, do jornal “Brasil Econômico”, de 24 de abril de 2010. (E, por falar em compositoras, no mesmo caderno há, por sinal, uma belíssima entrevista da Phydia de Athayde com a Teresa Cristina, Dona Ivone Lara versãos anos 2000. Um trecho? “Lembro de chegar em casa, chorar muito e questionar: por que tem preto no mundo? Por que não é todo mundo de uma cor só? Era uma revolta tão envergonhada…”.)

O que aprontou esta penetra no clube do Bolinha

Caixa reúne a quase-íntegra do legado de Dolores Duran, que influenciou desde Bethânia até Marina Lima

TEXTO PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Dolores Duran era um ET na época em que se afirmou definitivamente como artista da música brasileira, na segunda metade da década de 1950. A última (e provavelmente primeira) vez que uma mulher conseguira se impor como compositora no Brasil havia sido 80 anos antes, em 1877, no advento de Chiquinha Gonzaga. Foi em 1957 que Dolores gravou em voz própria pela primeira vez uma composição sua, Por Causa de Você. Somava 17 anos de carreira (fora cantora-mirim revelada no programa de calouros de Ary Barroso) e 27 de idade. Dois anos mais tarde, sairia da vida para entrar na história, antes de completar 30 anos. Revelada pouco depois de Dolores, Maysa seguiria rota errática de autora-cantora, e ainda não seria ela quem arranharia a brutal reserva masculina de mercado no campo da composição.

Foram-se mais 51 anos desde a morte de Dolores, até que viesse à tona, agora, em versão reunida, a quase-íntegra do legado deixado por ela, na caixa histórica Os Anos Dourados de Dolores Duran (EMI, cerca de R$ 120). O pesquisador Rodrigo Faour agrupou ali, em oito volumes, os quatro álbuns que a moça gravou em vida, mais dois volumes agrupando gravações avulsas no antigo formato 78 RPM e um CD duplo com outras vozes interpretando composições de Dolores, a maioria delas reveladas pós-morte.

O trabalho minucioso de compilação permite mirar de perto o ET que ousou afrontar com delicadeza o clube do Bolinha e morreu precocemente (por problemas cardíacos e/ou abuso de barbitúricos) deixando meras 35 composições prontas, apenas sete delas registradas em sua própria voz. Contavam-se aí canções de dor-de-cotovelo hoje plenamente integradas ao imaginário nacional, como Solidão, Castigo, Fim de Caso.

Não nasceu de parto normal a Dolores autora. Incorporada ao mercado de trabalho como mão-de-obra infantil em radioteatro, tornou-se crooner adolescente de boates cantando sucessos da época, aprendidos e repetidos por instinto em inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Essa verve algo exótica foi aproveitada pela gravadora Continental num primeiro LP no formato precursor de 10 polegadas, batizado Dolores Viaja (1955) e constituído de sete faixas em línguas estrangeiras (uma delas em esperanto) e uma Canção da Volta no encerramento em português.

Nos álbuns seguintes, Dolores Duran Canta para Você Dançar, volumes 1 (1957) e 2 (1958), manteve-se o coquetel de idiomas e a variedade de gêneros musicais (até um rock, Love Me Forever, fazia parte do cardápio), entremeadas com canções brasileiras matreiras como Coisas de Mulher (de Chico Baiano), Estatuto de Boite e Se Papai Fosse Eleito (de Billy Blanco). No volume 1 estava sua estreia como intérprete da própria obra, Por Causa de Você, com melodia de um Tom Jobim ainda desconhecido.

A Dolores autora brotou, portanto, no contexto desenvolvimentista da era Juscelino Kubitschek e de Brasília, de João Gilberto e da bossa nova. Ela desde sempre ostentou voz macia como veludo, mas isso não impediu que sua música ficasse represada no pelotão atropelado pela novidade da bossa. O movimento, de resto, jamais foi propriamente acolhedor a mulheres autônomas, fossem mortas ou vivas (como Nara Leão).

Sobretudo o derradeiro LP da artista, Este Norte É Minha Sorte (1959), renasce das cinzas (e do mundo maravilhoso dos downloads) com sabor de surpresa. É um suculento álbum de baiões e temas nordestinos, vários deles compostos por um rapaz cearense mais tarde conhecido como Chico Anysio. Talvez ali Dolores selasse seu divórcio com a porclamada modernidade, pois Este Norte É Minha Sorte tendia bem mais a Luiz Gonzaga que a João Gilberto, algo que o senso comum pós-bossa não perdoaria.

O que a caixa traz de mais sensacional são as canções só lançadas em compacto, entre as quais se amontoam raridades como A Fia de Chico Brito (1956), de Anysio, Manias (1956), do futuro apresentador de TV Flávio Cavalcanti, Na Asa do Vento (1956), de Luiz Vieira e João do Vale, as pândegas Pano Legal (1956) e A Banca do Distinto (1959), de Billy Blanco, e A Noite do Meu Bem, êxito autoral que ela não testemunharia, pois morreu três meses após o lançamento.

Dessas faixas avulsas emerge uma evidência que há, mas costuma ficar abafada, como se ainda vivêssemos nos idos de Chiquinha Gonzaga: mesmo com tão curta trajetória, Dolores foi tremendamente influente sobre a próxima geração de artistas brasileiros, que despontaria nos anos 1960. Maria Bethânia indicaria sua filiação gravando uma versão semitropicalista de Pano Legal, em 1968. Caetano Veloso resgataria Na Asa do Vento do esquecimento em 1975. Elza Soares sacudiria A Banca do Distinto, em 1963.

Em 1974, o ex-roqueiro Roberto Carlos, já então convertido ao romantismo, registraria uma versão de Ternura Antiga, composição póstuma de Dolores – podia até parecer estranho, mas Roberto passara a adolescência amando as canções de fossa de Tito Madi e de Dolores. Além dele, Nara Leão, Elis Regina, Gal Costa e Clara Nunes também resgatariam, nos anos 1970, a pena compositora de Dolores, regravando Estrada do Sol. Já em 1979, uma nova autora-cantora surgia apresentando como faixa 1 de seu primeiro LP uma versão agressiva de Solidão – era Marina Lima.

A influência de Dolores Duran se mantinha como um rio submerso, algo assim como um amor que não se pode pronunciar. Mas nunca mais deixaria de existir, e essa artista desbravadora abriria enorme sorriso se visse, hoje, a caixa em sua homenagem e a quantidade impressionante de autoras-cantoras que não param de aparecer no Brasil de 2010.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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