foto: valeria gonçalvez/AE

O cemitério Getsêmani agitado como em poucas ocasiões. Conforme registrava com um olhar falsamente desinteressado as cenas, os detalhes do enterro, Giudice lembrava de uma pichação sarcástica no muro do cemitério de sua cidade, 20 anos antes: “Acorda, pessoal!”. Mortos não reclamam a lei do silêncio, pensou.

Uma repórter da Globo News estava ensaiando pela quarta vez sua entrada no ar, o caixão prestes a descer à cova enquadrado ao fundo. A moça arrumando o cabelo, endireitando a roupa, tudo com a sem-cerimônia típica de seu ofício.

Alguns convidados especulavam à boca-pequena quem seria o garoto com camiseta da seleção brasileira e chinelas havaianas que apareceu por ali, feliz, e que caminhava desenvolto por entre as personalidades, e que agora se postava com as bochechas rosadinhas e felizes ao lado do caixão. Neto do morto? Não, descobriu-se pouco depois. Um penetra dos faróis. O político encantara-se com ele na rua e o trouxera para dentro a tiracolo, um solitário representante do povo brasileiro ali naquele solo que tinha por hábito receber prioritariamente imortais.

De repente, uma cena de duro constrangimento: um outro morto se viu obrigado a cruzar o velório do morto ilustre. O esquife passou lentamente, as duas famílias não se conheciam absolutamente, e os convidados eram mais numerosos do lado de cá, mas não havia outra alternativa: era preciso cruzar os mortos. Ninguém disse nada, o ar parecia carregado, como se a presença da morte, subitamente duplicada, suscitasse ainda mais respeito.

Giudice tinha lido os textos que se escreveram nos jornais e revistas sobre o personagem morto. O delegado lembrava poucas coisas sobre o homem, que nunca vira pessoalmente. Nenhuma delas seria capaz de lhe garantir um perfil rechonchudo do personagem. Ouviu, quando foi ao banheiro do cemitério, dois executivos conversando e um contava ao outro como, certa vez, vira o homem morto um dia repreendendo um servente, no banheiro, porque esse não estaria colocando suficiente água nos tubos de sabão líquido de lavar as mãos. Lembrou o colega também dos rolos de papel higiênico róseos e impeditivos que havia naqueles banheiros das empresas do defunto.

Giudice ouvira falar dos outros negócios do homem morto, e de suas célebres festas de final de ano. Diziam por todo canto que era um homem bom. Mas Giudice desconfiava que “FOI UM HOMEM BOM” seria insuficiente como inscrição numa lápide. Sempre imaginava coisas mais épicas, como uma coisa que leu num livro sobre um poeta surrealista, que mandou inscrever em sua lapide a frase “Eu procuro o ouro do tempo”. Mas homem bom também não lhe soava vulgar ou trivial. Seu pai costumava lhe dizer que “todo homem inteligente é bondoso.”

Seria dado a afetividades, além de bom, o homem morto? Fora publicada uma bela imagem dos seus filhos de mãos dadas no jornal, e eles tinham faces desamparadas, embora resignadas. O delegado também não os conhecera, nunca seria capaz de nem sequer adivinhar seus sentimentos, mas pareciam cristalinos. Para eles, só restaria do pai aquilo que fosse qualidade, como os modos de homem austero e simples.

Agora, nos últimos instantes do velório, ainda percrustrando o cenário, o delega notou que o velho coronel era o mais triste e cansado. Sua notória arrogância parecia ter-se quebrado junto com algum osso das costas, o que lhe mandava ficar provisoriamente sentado, imóvel nesse momento. A ocasião pedia capricho na roupa e no make-up: a ex conseguira, estava muito bonita, pensou o policial, assim como a banqueira que gostava de artes e museus.

Entre as muitas flores de plástico, algumas flores reais aqui e ali, pelo cemitério. Ninguém falava nada, ou se falava era apenas murmurando. Os olhares buscavam transmitir compreensão e conforto, é tudo que se podia fazer afinal, o tal clichê de cemitério. Seria um exercício de coragem falar abertamente dos detalhes desses rituais que preparam o homem morto para a eternidade? Ou seria uma grosseria? Compreendia o policial que essa seria sempre um tipo de coisa complicada.

Lembrou-se de um filme que viu na TV Educativa, uma tarde: um antigo cineasta experimental que resolvera filmar o enterro do pintor Di Cavalcanti. A família conseguira a interdição da obra durante anos. No filme, a cena que mais desagrada a família é aquela em que o diretor levantava o véu que cobria o rosto do morto e ordenava que o operador de câmera filmasse ali.

Havia um clima político no funeral, mas o delegado não gostava de política, por isso nem foi mais longe em sua análise da situação. Concentrou-se de novo nas figuras dos coveiros, que agora se aproximavam, timidamente. Era hora de fazer o seu serviço. Todos eram homens de aparência comum, exceto um deles. Este parecia mais estereotipado que os outros, os olhos tortos, a face transfigurada, um corpo arqueado. Sua feiúra não era, contudo, assustadora. Lembrava mordomo de castelo de filme do Mel Brooks, o que fez rir internamente o delegado e talvez um ou dois dos convidados que pranteavam o homem morto.

Os coveiros agora manuseavam a terra, os tijolos e o cimento. A colher de pedreiro remexia o cimento e o alisava cuidadosamente ao lado e sobre os tijolos, tirando os excessos. O cimento que causava horror ao delegado, o atrito da areia na colher de aço do pedreiro. Finalmente, acabava o ritual. A forte autoridade do morto, pelas expressões, mostrava que iria permanecer ainda alguns dias, como reflexo num lago, para então sumir na neblina do dia-a-dia. Quando voltou a delegacia, depois de passar pelo Boteco do França para uma média com pão e manteiga, ele encontrou a viúva o aguardando na ante-sala.

mais um trecho do eterno inédito A MORTE ENGARRAFADA.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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