Um dia rico, um dia pobre, um dia no poder
Um dia chanceler, um dia sem comer

Ouço a velha canção O Rock do Segurança, que Gil incluiu em seu show Banda Larga Cordel, que apresentou no final de semana no Citibank Hall (o antigo Palace), e não consigo deixar de pensar na ironia dos versos.
Um dia no poder, outro dia sem comer.
Gil voltou a lutar pelo pão de cada dia com um show corajoso, no qual predominam as canções novas, desconhecidas, que geram um certo atrito nos ouvidos da platéia. É óbvio que, longe de estar “sem comer”, ele ganha muito bem pelos shows.
Gil sempre me pareceu um artista de coragem, e a prova está ali – é óbvio que se ele cantasse logo de cara Palco e Não Chore Mais, que o público ficaria mais grato e animadinho, mas ele saca umas canções assimétricas, de poesia dura, como O Oco do Mundo, e não se intimida, segue em frente.
Gosto particularmente de Não Tenho Medo da Morte, que cantei sem saber os versos direito nos últimos dias, que foram dias de choro e tristeza.

Outro dia uma colega de jornalismo vaticinou com sorriso maroto que Gil voltou a fazer aquilo que fez durante sua gestão: nada.
É de um preconceito e uma ignorância brutais a afirmação. A Itália e outros países copiaram programas implantados na gestão Gil, como o Pontos de Cultura.
O projeto Redescobrindo os Brasis, que permite a disseminação da experiência do cinema para gente comum, é um milagre brasileiro.
A Cultura estabeleceu canais de diálogos com o Legislativo, acompanhei essas tratativas. É mais respeitada pela área financeira do governo, sempre refratária a essas “coisas da cultura”.
Ensimesmados em suas certezas de redação, longe da experiência real do jornalismo, engabinetados, vejo muitos colegas vivendo um duro divórcio com a realidade.
O orçamento direto para a cultura quintuplicou, a estrutura do ministério se profissionalizou. Não digo isso para fazer a defesa de nada, tampouco tenho militância política. É apenas uma constatação. Eu me lembro da precariedade do ministério na época do Weffort, eram de dar dó as instalações físicas e o quadro de servidores da pasta.
Há problemas? Claro. Não são poucos, eu me ocupo de apontá-los rotineiramente.
Mas não consigo deixar de pensar que Gil deixou uma obra incompleta. Já é, de longe, o melhor Ministro da Cultura que passou por Brasília. Mas saiu antes da hora. É preciso pensar o Brasil para além da disputa mesquinha da bipolarização política, é necessário conseguir avanços reais.
Bom, mas tudo isso são considerações que podem soar demasiado pedantes, sou apenas um repórter.
Volto então ao tema da morte na obra de Gil.
Ele fez duas músicas diretamente ligadas à questão.
Aqui estão as duas letras.

A MORTE

A morte é rainha que reina sozinha
Não precisa do nosso chamado
Recado
Pra chegar

Ociosas, oh sim
As rainhas são quase sempre prontas
Ao chamado dos súditos
Súbito colapso
Pode ser a forma da morte chegar

Não precisa de muito cuidado
Ela mesma se cuida
É rainha que reina sozinha
Não precisa do nosso chamado
Medo
Pra chegar

NÃO TENHO MEDO DA MORTE

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença?
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem fígado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida
.

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