“carta capital” 494, de 7 de maio de 2008.

O elogio da mestiçagem

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

É difícil atravessar em paz as 440 páginas de A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 54 reais), do sociólogo, ensaísta e poeta baiano Antonio Risério. Ele elabora uma crítica minuciosa às mazelas da realidade racial no País, sem nunca tergiversar sobre mitos de “democracia racial” e que tais. Por outro lado, rejeita qualquer postura paternalista e estende a ira crítica a movimentos negros, inclusive setores acadêmicos que classifica como “racialistas”.

Esses últimos o autor parece definir como inimigos preferenciais, que acusa de pretenderem importar para o Brasil estratégias racistas como a one drop rule, a regra da descendência, pela qual qualquer indivíduo com um mínimo de “sangue negro” é automaticamente classificado como negro. Argumenta que o sistema birracial, em preto-e-branco, não serve ao Brasil, onde a mestiçagem é prova dos nove, em graus os mais variados.

Risério critica a formulação que “vê a mestiçagem como embranquecimento dos pretos, mas nunca como escurecimento dos brancos”. O alvo, que mira e acerta repetidas vezes, é “a polarização, o dualismo tão característico do pensamento puritano, com seu horror a misturas”. Assim, ironiza, por exemplo, a resistência branca à incorporação do espiritismo à macumba, rumo à criação da umbanda. Não se tratava de mera dominação de um grupo sobre o outro, mas de “mestiçagem” em mão dupla, afirma.

Esta é a fórmula que aplica à análise de cada aspecto da vertiginosa mistura, da hibridez de gêneros musicais como o samba ao sincretismo religioso. Sucumbe, no entanto, ao enfocar a peleja entre o candomblé e as religiões evangélicas, que prefere compreender nos moldes binários do ataque dizimador do diabo (evangélico) às tradições trazidas da África.

Mais específico e menos abrangente nesse campo é Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi (Ateliê Editorial, 242 págs., 33 reais), do professor de comunicação e semiótica Herom Vargas, que se revela como a exemplificação, num caso prático, do elogio à mestiçagem construída por estudos como o de Risério.

O autor disseca o movimento pop pernambucano mangue bit, liderado nos anos 90 por Chico Science (1966-1997), com a Nação Zumbi, banda de rock, maracatu, rap, coco, eletrônica e (alguma) militância política e social. Ele parte da metáfora do ecossistema mangue, “rio de água salobtra” (nos dizeres do manifesto mangue bit), utilizada por Science e parceiros para tematizar um ambiente de trocas intensas de “matéria orgânica”, contrário a qualquer idéia de “pureza” da cultura.

Vargas esmiúça a fertilidade, a riqueza e a diversidade inerentes ao mangue, ao mangue bit ou ao Brasil essencialmente mestiço. Como em Risério, o objetivo último é rechaçar e desmontar cacoetes bipolares como aqueles que nos dividem em “modernos” e “tradicionais”, “nacionais” e “estrangeiros”, “brancos” e “pretos”, e assim por diante.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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