taí uma cena que eu jamais imaginei testemunhar: os mutantes cantando ao vivo e em cores “ando meio desligado”, “top top”, “balada do louco”, “a minha menina”, “bat macumba”, “panis et circensis”!, e a multidão cantando junto em coro, de cor e salteado, em uníssono!, e eu lá no meio, sendo uma das minivozes dessa multidão! pois aconteceu!, era aniversário de são paulo e aconteceu!, e eu fiquei feliz à beça de estar lá no meio!

porque, lá no meio, eu estava bem no meio de uma molecada interminável que vestia camisetas de blur, the offspring, ac/dc, sex pistols etc. e portava vestuários góticos & punks & anarcopunks & heavy metal , mas estava lá para ouvir & dançar & pular… mutantes!, & tom zé!, & nação zumbi! (ah, sim, e entre os moleques presentes muitos portavam jaquetões de couro envenenado & barbas brancas de molho & passavam dos 30, dos 40, dos 50 e dos 60 anos de idade – mas, ah, a fusão das idades era igual à fusão das nacionalidades, e, desculpe, babe, isso era sinal a mais de que algo especial está no ar, como se fôssemos de repente um elo perdido&achado no tempo&espaço.)

engraçado é pensar que, se os mutantes eram banda underground na época de sua existência original, talvez fôssemos nós da quinta-feira 25 os primeiros a gritar em uníssono, em multidão ao vivo e em cores, aquelas antigas canções (não-)pop (facilitadores para que isso pudesse acontecer foram sendo, nas últimas décadas, “balada do louco” com ney matogrosso, “panis et circensis” com boca livre, “ando meio desligado” com marisa monte e kid abelha e lulu santos etc., “top top” com cássia eller, e o prestígio retroativo dos temas tropicalistas internacionália afora, e assim por diante). não vimos mutantes quando eles eram mutantes, quando eles tinham rita lee, quando sergio mendes era “apenas” “cantor de mambo” (pois agora, que coisa!, os mutantes voltaram e mr. sergio mendes, reinventado como talvez “cantor de tropicália” a bordo de black eyed peas, arrasta multidões quetais às arrastadas pelos mutantes!), e tal, e coisa, mas, bem, o que vimos agora talvez esteja sendo visto, finalmente, profecia que se autocumpre, pela primeira vez… e eu continuo feliz à beça de ter estado lá no meio, mesmo com toda minha (para sempre?) crescente multidãofobia e com toda minha (por ora?) decrescente preguiça de revivals.

disso tudo, o que me fica é mais uma das frases geniais disparadas por mr. arnaldo baptista, que nem sei lá se a multidão captou, capturou e assimilou. lá pelas tantas, a alegria incontida de arnaldo extravasou na seguinte frase (se não me engana a memória): “agora não são paulo. agora é paulo”. se estou entendendo bem (e algo me diz que estou, hehehe, porque aprendi que “nós, os malucos, somos a mola deste mundo”, ou coisa que o valha), ele queria dizer que, naquela quinta 25 ao sopé das estátuas da independência (ou da república?, a memória do que não vivi me escapa entre os dedos?), éramos todos (são) paulo, éramos todos uma só voz sussurrada e suspensa no tempo por uns poucos instantes (ou pela eternidade inteira), estávamos “todos juntos reunidos numa pessoa só”. por essa razão eu também fiquei feliz (embora cansado), à beça, e é como estou até agora.

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