sabe o mazzola? num sabe? então ói.

[copyright from carta capital 364, de 19 de outubro de 2005.]

O MAESTRO INVISÍVEL
O produtor semi-anônimo que vendeu cerca de 50 milhões de discos

Por Pedro Alexandre Sanches

Haveria algum traço comum a unir Elis Regina em Como Nossos Pais (1976), Raul Seixas em Ouro de Tolo (1973), Jorge Ben em África Brasil (1976), Gilberto Gil em Realce (1979), o especial musical infantil Arca de Noé (1980), Milton Nascimento em Coração de Estudante (1980), Chico Buarque e Didi Mocó em Os Saltimbancos Trapalhões (1981), RPM em London, London (1986), Chico César em Mama África (1996), Ivete Sangalo em Canibal (1999)?

A priori, parece uma coleção de alhos & bugalhos, mas há, sim, um traço de união entre todas essas manifestações disparatadas de música: o cimento que dá liga chama-se Marco Mazzola, o produtor por trás de sucessos artísticos-comerciais que, juntos, venderam estimados 50 milhões de discos.

O perfil de discrição quase absoluta faz com que os brasileiros assoviem as canções que produziu sem nem suspeitar que ele existe. “Nunca quis botar meu nome na mídia por causa disso, nunca procurei esse lado para me valorizar”, justifica o próprio semi-anonimato. Mas o ângulo de visão é de quem acumula histórias de bastidor aos borbotões – e, sim, está colocando-as num livro em fase de escrita.

Várias dessas histórias pertencem ao imaginário de Raul Seixas (1945-1989), o primeiro artista tornado astro nacional sob a direção de Mazzola e a tutela do mítico executivo André Midani, na antiga Philips.

Suas atribuições, ele conta, excediam em muito o campo musical. “Raul estava ganhando muito dinheiro, nem sabia quanto, desviava toda a grana para o consumo. Fui avaliar quanto tinha por receber e acabei comprando um apartamento para ele. Raul tomou um susto, ficou todo me abraçando. Fui vendo, cada vez com o pé mais atrás, ele acreditar muito naquilo de ser um guru, se levar a sério demais, ficar à disposição da droga.”

Mas diz que Raul foi um caso de exceção: “Nunca deixei que os artistas entrassem na minha privacidade, nem entrei na deles. Nunca achei que fosse preciso ser amiguinho para conquistar respeito”.

Foi numa construção que resgatou Belchior para a MPB, em 1976, sob mediação de Elis Regina (1945-1982), que incluíra Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida no show Falso Brilhante. “Soube que Belchior estava morando numa obra em São Paulo, deixavam-no dormir no barracão dos operários. Fui buscá-lo, produzi um disco dele em que ninguém na Philips levava fé.” Elis estourou as duas canções e Alucinação, de Belchior, foi aos topos de vendas.

Aos 56 anos, o carioca de São Cristóvão que cresceu numa casa de cômodos “barra-pesada”, convivendo com um pai forte “que tinha de impor ordem na porrada” (e que construiu as portas do Teatro Municipal do Rio), suplanta a aversão a dar entrevistas por conta da compilação MPBZ – 30 Anos, 30 Sucessos, que acaba de lançar por seu selo independente, MZA, fundado em 1995. O CD duplo é, por si só, uma mudança de parâmetro: dedica-se a celebrar, pelas vozes da MPB, a obra discreta de… Marco Mazzola.

“Cheguei a este ponto de fazer um disco para mostrar ao Brasil que atrás do artista existe alguém trabalhando. O produtor no Brasil não é uma pessoa respeitada, basta ver a remuneração. Qual produtor de nome pode deixar de trabalhar 24 horas por dia aqui?”

Rompe a discrição também ao lembrar de quando introduziu sons discothèque e músicos estrangeiros em Realce, de Gilberto Gil, e da avalanche de críticas que isso provocou. “O crítico escreve sem saber tudo o que a gente passa, quatro meses sem dormir, tentando ajudar o cara a se reerguer. O disco sai e você é mutilado pelos caras da mídia”, queixa-se, 26 anos mais tarde.

Outro momento que trata como de ousadia é o de Rádio Pirata ao Vivo (1986), do RPM. “Quando vi o público gritando nos shows do grupo, achei que devia repassar aquela emoção para o disco. Todo mundo foi contra na gravadora”, evoca, citando a venda de 2,7 milhões de cópias e a invasão de Acústicos MTV e correlatos que infestaria o Brasil dali por diante.

Se não demonstra anotar os efeitos deletérios da escalada pelo lucro e da banalização dos “ao vivo”, nem por isso se considera dócil aos ditames de mercado: “Quando produzi o encontro entre Paul Simon e o Olodum, todos me procuraram para fazer música baiana. Fui na contramão, fui de Chico César, Zeca Baleiro, os malditos”.

Mesmo tratando Baleiro como “o Caetano dessa geração”, usa de certa acidez ao descrever seus rebentos dos anos 90: “Eu queria ter feito os Tribalistas antes, com Zeca, Chico e Rita Ribeiro. Tentei, não deu. Eles são da mesma falange, daí acham que um está roubando o pedaço do outro. Teria de ser os Pugilistas”.

O profissionalismo de hoje é o reflexo invertido do amadorismo dos primeiros e altamente criativos anos. Técnico de som desde a adolescência, foi atirado à produção com Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974), de uma Rita Lee recém-afastada dos Mutantes. “Midani sabia que Rita precisava de um cara com pé no chão para organizar a casa. Eu e ela não nos conhecíamos, tivemos de negociar várias coisas”, suaviza. Entre os resultados, sobraram muitas brigas, a célebre melô pop Menino Bonito.

A voz de Mazzola embarga-se quando lembra do primeiro encontro com Tom Jobim, em Los Angeles, quando ainda era técnico de som. “Me apresentei, ele disse ‘já ouvi falar de você, menino’ e disse que eu podia ficar no apartamento dele, se precisasse. Fui, mas não dormi. Não entrei na intimidade dele. Poderia, mas não fiz. Três anos depois, Urubu foi um dos primeiros discos que gravamos na Warner.”

No início dos anos 80, participou da chegada da multinacional Ariola ao Brasil, para a qual levou Chico Buarque e um comboio de artistas de pleno sucesso à época. Data dali o advento do projeto Arca de Noé, com músicas de Vinicius de Moraes, que revigorou a geração MPB perante ouvintes de várias gerações. “Foi muito importante, conquistamos as crianças com um disco cantado por artistas de que os pais gostavam. Vendeu 1,5 milhão de cópias”, assinala, de olho nos números.

Mas em que consistiria a atividade de produtor, segundo Mazzola? “Acredito na coisa do decorador. Quando vai decorar uma casa da música, o artista pensa em muitas cordas, sopros, mas, às vezes, não é nada disso”, diz, exemplificando com o futuro arrasa-quarteirões melado De Volta pro Aconchego (1985). “Dominguinhos tocou a música para Elba Ramalho em ritmo de forró. Opinei que não era um forró, sugeri o formato de canção. Às vezes, a decoração pode ser mais clean, não precisa colocar tantos jarros. Ney Matogrosso não queria gravar Homem com H (1981), porque era um forró. Eu o convenci.”

Como braço direito de André Midani na Philips e na Warner, deve ter conhecido de perto os mecanismos de “convencimento” de emissoras de rádio e tevê sobre o potencial comercial de suas produções, que Midani nomeia abertamente de “jabá”. Mazzola tergiversa, prefere descrever modelos alternativos de divulgação que diz adotar nesta fase independente. “Não existe espaço dentro do rádio, de que adianta ficar pagando jabá? Temos saído com Zeca Baleiro pelas principais cidades do Brasil fazendo noites de autógrafo e pocket shows. Na Fnac de Brasília, vendemos 1.100 CDs numa noite.”

Na MZA, que hoje concentra esforços também no sambista Martinho da Vila, ele começou recentemente a prestar consultoria para jovens artistas: “Faço uma consulta com a pessoa, ouço o que ela trouxe, vejo onde está errado, dou conselho. É mais para ajudar, o preço é de consulta de médico”, brinca.

Ao proclamar persistente apego pelo novo, faz lembrar Elis Regina, de quem produziu álbuns históricos entre 1973 e 1979: “A maior preocupação dela era com o novo”.

Define-a contando uma cena dos dois, no carro, o sucesso da temporada tocando insistentemente no rádio. Era Nosso Estranho Amor (1980), que ele produzira como um dueto entre Caetano Veloso e a jovem Marina Lima. “Falei ‘ouve essa menina’, orgulhoso. E ela: ‘Pô, você está comendo essa mulher?’ Elis era engraçada, tinha esse lado de criança. Produtor tem de ter cuidado com esse tipo de coisa, não dá para produzir Gal Costa e ficar falando dela com Simone a todo momento.”

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