vou recorrer novamente a nelson rodrigues, eu preciso.

acabava o carnaval de 1968, e de primeira mão ele lançou uma crítica assim bem moralista ao excesso de nudez na televisão, durante o carnaval – nudez, à época, era mais uma profusão de umbigos pelados (e suas vizinhas cicatrizes de apendicite) que qualquer outra coisa.

pois bem, o nelson chiou, mas depois corcoveou e fez uma curva por sobre si mesmo, alguns dias mais tarde, quando se irritou com um editorial de cunho ainda mais moralista, publicado pelo concorrente “jornal do brasil” (nelson escrevia n'”o globo”). “nazistas”, desferiu o ululante, que encrencava em especial com passagem em que o “jb” exprimia indignação contra o assalto dos umbigos televisivos aos “lares da cidade”. e o nelson, para nosso gozo e júbilo: “mas de onde pensa o ‘jornal do brasil’ que saíram os umbigos, as cicatrizes, os quadris, os nus?”. hahahahaha.

isso aí veste justinho em nosso tempo, né? sei que o assunto severino já está ficando velho (quando fica velho a gente joga fora, não é o que ensina a “sabedoria”?), mas olha como veste. volta e meia se repete esse rebuliço de indignação contra as peraltices de nossa excelentíssima câmara de deputados – agora é porque saíram do armário e elegeram o severino, o severino, o severino. aí diria o nelson: mas de onde pensam vocês que saíram os deputados, os senadores, os severinos, os políticos? eureca, saíram todos todos todinhos de dentro dos lares do brasilzão, valha-me deus, nossa senhora.

e aí me pergunto: a fúria moralista que nos acomete de tempos em tempos e nos arremessa contra nosso próprio parlamento é o quê? em que medida ela é a indignação moral sincera que volta e meia recrudesce e nos traz a gritar ao léu, do alto de nossa reputação ilibada, contra os supostos “300 picaretas” (alô, sr. lula)? e em que medida ela expõe (porque pensa ocultar) uma nossa dor de cotovelo, que volta sempre que se esfrega no nosso nariz que nossos deputados, senadores, severinos e políticos são todos iguaizinhos a nós, exceto pelo fato de que eles são deputados (e têm pleno acesso à mamata), e nós não?

ah, mas espera aí. isso aqui não é uma defesa do parlamento, não, viu? não é para elogiar aquela patota do barulho, é para dizer “melhoremos nós, que melhoram eles”. a propósito, eu tenho fé e sei que não tarda nem um pouco a nascer no cocoruto de severino cavalcanti uma portentosa galhada de lantejoulas douradas, com muitas bolas natalinas coloridas dependuradas. vai ficar um luxo, simplesmente.

eta, seu nelson. estaca zero.

ih. tá faltando música neste treco?

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