O engenheiro de som Geoff Emerick, em junho, conversando com admiradores em Porto Alegre durante simpósio de que participou; Emerick morreu essa semana

Quando tinha 19 anos, Geoff Emerick esteve ao lado dos Beatles, como engenheiro de som, em três discos fundamentais da História da música pop: Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e Abbey Road (1969). Mais do que isso: as soluções heterodoxas que propôs para algumas canções, especialmente Tomorrow Never Knowse A day in the life, criaram bases referenciais para muito do que se fez posteriormente.

A função de Emerick era justamente burlar as regras. “Geoff Emerick fazia truques para os Beatles e ficava com medo que alguém descobrisse”, disse George Martin. “Naquela época os engenheiros não podiam ficar brincando com os microfones e loucuras do gênero. Mas ele fazia coisas bem estranhas e que eram ligeiramente contra as regras, com o nosso apoio e aprovação”. Emerick veio ao Brasil em junho, para participar de master classes em Porto Alegre a convite da Audio Porto, empresa de inovação e tecnologia. Ele conversou comigo para a CartaCapital no dia 12 de junho. Emerick morreu no último dia 2, de um ataque cardíaco.
É verdade a história de que o disco Abbey Road quase se chamou Everest por causa dos seus cigarros?
Então, era a marca do cigarro que eu fumava. Foi quando eles decidiram chamar o disco de Everest… Ringo tinha essa visão de que estava no alto do Monte Everest, onde ele nunca estivera. Quando viajava, Ringo levava comida embalada em uma marmita, para não ficar à mercê dos produtos locais. Mas fazer a foto da capa do disco no alto do Everest significava uma longa viagem, nem ele nem ninguém queria ir tão longe. Aí, acabaram escolhendo um lugar mais próximo, Abbey Road, porque a foto seria muito mais fácil de ser realizada. No final, foi uma boa escolha.
Tomorrow never knows estava muito à frente de seu tempo. Muita gente diz que influenciou gêneros como jungle, drum’n’bass, Você concorda?
Concordo. Porque eles queriam mudar o jeito que gravar a voz. Como sabemos, os alto-falantes Leslie eram usados para os vocais;  a guitarra de Harrison, o tamborim de Ringo e o baixo de Paul McCartney eram muito marcantes, e para colocar a voz de um jeito igualmente distinto precisava de uma solução. O alto-falante Leslie permitia mudar a rotação da voz, criar um som de vibrato intermitente. Foi uma revolução na maneira como a música passou a ser gravada.
Você trabalhou com os Beatles, os maiores. Como viu artistas que vieram depois, gente como Amy Winehouse ou Justin Timberlake.
Amy Winehouse foi extremamente talentosa, assim como Justin. Eu amo artistas do mundo real. O que não concordo é com artistas criados pela tecnologia e controlados por ela. Amy é uma grande artista, assim como Justin. São genuínos, claro que são.

Os sons psicodélicos dos Beatles foram criados, grande parte deles, sob o efeito de drogas, como o LSD. O sr. era muito jovem, como se situava nesse mundo?
Nós nunca tivemos que lidar com esse problema. Nós sabíamos que, se fôssemos usar substâncias, teríamos que fazer isso antes ou depois das sessões. Porque, quando entrávamos nas sessões, tínhamos que trabalhar tão duro quanto qualquer outro artista, íamos até 3 horas da manhã trabalhando. Não havia uma restrição, mas todos eram sérios. Certamente, usavam muitas substâncias no processo criativo. Mas nunca no estúdio. George Martin não usava, era de outra geração.
Contam que, para entrar nos estúdios Abbey Road, só na estica, com sapatos muito engraxados e ternos. É verdade?
Sim. Os engenheiros assistentes éramos obrigados. Havia muitas gravações de música clássica nos estúdios, muitos artistas desse universo. Tínhamos que mostrar que nos preocupávamos com a aparência, demonstrar respeito. Os técnicos usavam guarda-pós brancos como os de farmacêuticos. Nada de tecido xadrez.

Quais são as suas quatro canções favoritas dos Beatles?
Tomorrow never knows (do disco Revolver,  de1966), And your bird can sing (Revolver, 1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, 1967) e, claro, A day in the life (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band).

AnteriorUMA TARDE NO MUSEU
PróximoÁGUAS TURBULENTAS
Jotabê Medeiros é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor neófito, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), atualmente seguindo as pegadas do baiano Raulzito

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome