Sentei-me para assistir ao Saia Justa com especial interesse, acreditando que ouviria algo novo sobre esse assunto que já faz parte da minha vida há anos, mas que de repente virou moda e ainda promete muitos capítulos. A “batalha das biografias” envolve aquele choque de preceitos constitucionais – liberdade de expressão e direito à privacidade – e, principalmente, uma ação para declarar inconstitucional um dispositivo legal do Código Civil de 2002 que vem sendo usado para brecar judicialmente biografias não-autorizadas.

No meio do vuco-vuco que foi aquele bate-boca de cinco mulheres faladeiras, percebi sensatez na posição de Paula Lavigne. Sendo formado por homens tão inteligentes, o Procure Saber não poderia ser incoerente. Eles se dizem a favor das biografias, mas que não é o caso de a lei “liberar geral”. E não acho que seja mesmo. Acho que biografias precisam ser feitas por pessoas aptas a tal, do contrário – estando no Brasil – perigamos cair no caos total e de livros vagabundos banalizarem as vidas dos biografados e o mercado editorial por si só.

Nessa liberdade almejada, meu grande temor é que esses medalhões se exponham a biografias feitas por imbecis completos e/ou editoras inescrupulosas, num futuro não muito distante. E, daqui a 50 ou 100 anos, por mais que tenhamos vivido uma era de informação documentada, a história será feita da mesma matéria-prima de sempre: lendas e mais lendas, propagadas em versões diferentes de cada biografia publicada.

Em razão disso, é necessário um certo controle – que efetivamente não deve se confundir com censura. Alguém precisa zelar para que uma biografia seja pesquisada, redigida e publicada por profissionais capazes. E ninguém melhor que o biografado ou, na sua ausência, seu(s) herdeiro(s). Ou deveria o Estado criar um Ecab (Escritório Central de Autorização de Biografias)?

Mas aí rola aquele problema: o preço pela autorização. Onde se prevê que alguém terá que autorizar, sabe-se que poderá haver um preço. Mas não necessariamente. E, mesmo que haja, não é algo condenável. Celebridades não recebem vultuosas quantias para expor suas intimidades em ensaios fotográficos ou entrevistas para revistas? Por que um biógrafo se ofende de o biografado cobrar algo, mesmo que seja um percentual simbólico, se um fotógrafo sabe que a celebridade recebe muito mais para mostrar sua residência do que ele para fotografá-la?

Acho que estamos confundindo as biografias com as matérias de cunho jornalístico, feitas em caráter de notícia para periódicos e amplamente abençoadas pela chamada “liberdade de expressão”. Os livros são, sim, produtos comerciais. Para o jornalista, a diferença entre um perfil e uma biografia deve ser a mesma que, para o músico, existe entre fazer um show e gravar um disco. Se bem que, com a internet, ficou tudo igual: os textos jornalísticos ficam tão eternizados nos sites dos jornais quanto os registros de shows no YouTube. Tudo é pra sempre. Então quem está preocupado em calar biografias bem-intencionadas pode descobrir zilhões de artigos venenosos sobre seus atos excessivamente defensivos.

Qualquer um dos membros do Procure Saber é tão importante para a história do Brasil do século passado quanto Getúlio Vargas, Santos Dumont e Padre Cícero, cujas biografias não são segredo nem tabu. Dom Pedro I tem suas biografias recheadas de historinhas de alcova, e nem por isso tem sua importância desmerecida. Uma vez conversava com Carlinhos Brown e ele me disse que – quando criança – achava que o Duque de Caxias fosse personagem do Sítio do Picapau Amarelo, tamanha era a mitificação de nossos personagens. Tenho medo que no futuro meu neto confunda Chico Buarque com Chico Bento.

Gostaria que essa associação tivesse membros fora da música – alguém como Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira, José Wilker, Gracindo Jr. ou Tony Ramos, artistas de outra cena e que certamente também têm opinião construtiva, e certamente diferenciada. Artistas de TV sempre tiveram a vida devassada e envolta em fofocas, e geralmente curtem biografias como chance de ver a verdade publicada. Artistas da música, por outro lado, sempre escancararam suas verdades na obra e nas entrevistas, e agora temem que biografias façam devassas mentirosas (ou verdadeiras demais).

E aqui sou obrigado a lembrar. Meu primeiro livro, Os Anos da Beatlemania, em parceria com Ricardo Pugialli, foi uma biografia não-autorizada dos Beatles. Chegamos a entrevistar o produtor George Martin para o prefácio, e o livro foi (mal) lançado pelo Jornal do Brasil em outubro de 1992, por ocasião dos 30 anos da banda. O livro era o primeiro volume numa trilogia que contaria a história da banda ao longo das décadas, ultrapassando a separação que sempre foi ponto final para os outros livros e invadindo as décadas seguintes de carreira solo.

SprefeitonovelaIN2Enquanto a editora jogava a toalha em sua incompetência para distribuir o livro e editar os volumes seguintes, numa época em que não existiam essas belas cadeias de livrarias que hoje temos, verdadeiras delicatessens culturais, já seguíamos adiante. Procuramos Paulo Gracindo propondo uma biografia, e o velho ator topou de imediato. Ator de rádio, cinema, teatro e televisão, locutor de rádio, apresentador de TV, poeta, compositor, político…, Paulo Gracindo havia feito de tudo, era uma opção maravilhosa para fazer uma bela biografia. Um senhor cartão de visitas para qualquer biógrafo.

No dia marcado para a primeira entrevista com Paulo Gracindo, a atriz Daniela Perez havia sido assassinada e ficamos todos assistindo à TV. Na segunda, percebemos que infelizmente Gracindo já não lembrava tão bem dos fatos para colaborar com depoimentos. Fizemos mais alguns encontros, a imprensa noticiou, mas infelizmente não conseguimos prosseguir.

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O lendário Ênio Silveira, da editora Civilização Brasileira, viu a notícia na capa de O Globo e ligou-me para dizer que se interessava pela biografia de Gracindo. Expliquei a situação e oferecemos a biografia dos Beatles, que estava meio órfã na editora original, mas o velho editor foi cruel: “Não acredito que existam tantos leitores interessados em saber sobre a primeira vez que John Lennon e Paul McCartney comeram hambúrguer juntos pela primeira vez”. Acho que ele estava enganado, dúzias de livros sobre os Beatles saíram e venderam no Brasil ao longo destes 20 anos. Mas, de qualquer forma, essas frustrações condenaram nossa parceria, e por quase duas décadas Ricardo e eu nem falamos sobre aquele(s) livro(s). Nem nos falamos, na verdade, mas talvez esteja na hora de Os Anos da Beatlemania ser relançado.

Já disse uma vez, e torno a repetir, que depois dos meus pais, os Beatles foram minha maior influência. Mais que os professores, com certeza. E acredito que para muitos dos brasileiros que merecem biografias, também. Então, vale a lição abaixo:

Em 1981, ano seguinte ao da morte de John Lennon, o jornalista inglês Philip Norman publicou o livro Shout – na época bastante polêmico por causa de algumas lendas. Recentemente assassinado, Lennon era retratado como um deus, enquanto McCartney era tratado como mortal e, por isso, sabe-se que McCartney odiou a obra.

Em 1982, o ex-funcionário da banda Peter Brown lançou The Love You Make, calcado em detalhes de alcova sobre os fab four. Detestaram também, mas fizeram do limão uma limonada: levaram a sério a necessidade de contar sua versão da história, o que foi feito na série de TV Anthology (1995).

Como os ingleses são sensatos, quando o mesmo Philip Norman fez uma bio de John Lennon, McCartney topou dar entrevista e colaborar com detalhes precisos (ou seja,com sua verdade). E agora, mais de 30 anos depois, o mesmo Philip Norman fará uma biografia autorizada de Paul McCartney.  Isso não é ironia do destino, é pura sensatez.

Que bom seria se Paulo Cesar de Araújo fosse chamado para fazer a biografia oficial de alguém. Porque, aconteça o que acontecer após o julgamento da ação de inconstitucionalidade, biografia sempre será terreno pantanoso. Sempre haverá gente oportunista para considerar-se ofendido por alguma frase numa biografia, e com certeza sempre haverá advogado para assistir essas pessoas.

Fazer biografia não-autorizada será sempre um risco muito grande, porque os crimes contra a honra sempre poderão ser invocados por quem se sentir ofendido. Mas acho considerar ilegal uma biografia não-autorizada um enorme risco para a memória nacional, pois os biógrafos brasileiros em geral são fãs abnegados, apaixonados pela causa e que prestam enorme serviço para a nossa história e para o bom nome de seus biografados.

Ano que vem faz 20 anos da morte de Tom Jobim. Parece que foi ontem, né? Infelizmente a ordem natural das coisas nos diz que daqui a 20 anos alguns de nossos ídolos do Procure Saber poderão não estar mais entre nós. Pelo que vivi com Paulo Gracindo, desmemoriado aos 81 anos, acho que deveriam Procurar Fazer. Eu procuro, como editor e sócio na Sonora Editora, voltada exclusivamente para livros musicais e que recentemente reeditou biografias de Noel Rosa e Moreira da Silva (ambas autorizadas pelos herdeiros, mas nem por isso “chapa-branca”).

 

(Marcelo Fróes é produtor cultural e pesquisador musical, responsável pela reedição de centenas de álbuns de música brasileira em CD. Editor do tablóide musical International Magazine (1994-2009), fundou a gravadora Discobertas em 2008 e a Sonora Editora em 2013. É autor dos livros Os Anos da Beatlemania (1992) e Jovem Guarda em Ritmo de Aventura (2000).

4 COMMENTS

  1. Penso que assim como você pensam os governos autoritários do mundo. Partem do princípio que os demais, no caso os cidadãos, são incapazes e com isso justificam o autoritarismo.
    As democracias devem, nos relacionamentos, se pautar pelo judiciário e não por suposições minoritárias.
    Todo tipo de controle prévio é censura e deve ser abolido.

  2. Pedro Alexandre Sanches, a borboleta deslumbrada chapa branca e Marcelo Froes, o charlatão, estúpido, analfabeto, grosseirão pseudo pesquisador. Uma parelha criada no inferno

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