No final de semana, dei uma aula de jornalismo cultural no Espaço Cult, mantido pela revista Cult ali na Vila Madalena.

Eram uns 12 alunos.

Um laboratório de crítica musical.

Foi um bom desafio. A primeira aula, no sábado, teve duas horas de duração. A outra, no domingo, durou 5 horas.

Na primeira aula, levei uns 20 discos para ouvirmos e conversarmos a respeito, estabelecendo relações e analisando contribuições, legados e sacadas.

Levei Para Iluminar a Cidade, de Jorge Mautner.

Secos & Molhados.

Wilson Pickett e Sharon Jones.

Gal Costa, de 1969.

Roberto Carlos, de 1970.

Falamos do novo do Emicida e de Melody Echo Chamber.

De Ibrahim Maalouf e Miles Davis.

Também “receitei” 10 discos que considero fundamentais, de ontem e de hoje, para que resenhassem em casa.

Procurei mostrar algumas “barrigadas” do passado, críticos que apostaram errado em artistas, que desenganaram gente que hoje é referencial na música.

Poucos dos alunos eram jornalistas. 90% eram mulheres.

Uma garota quis saber também porque Caetano Veloso tornou-se tão detestado.

Eu expliquei de acordo com meu ponto de vista, mas também não sei ao certo.

Ainda assim, concordamos que a música Um Comunista que ele compôs no novo disco é fabulosa.

Sempre achei impossível sistematizar o conhecimento de crítica musical, se é que há um conhecimento envolvido.

Há livros muito bons sobre o assunto, como O Resto é Ruído, de Alex Ross.

Hoje almocei com o Miguel de Almeida, que era um dos meus ídolos no passado escrevendo na Folha de São Paulo.

Também fui muito fã do Pepe Escobar. O Fernando Naporano também chegou a me entusiasmar.

Achava que todos eles transcendiam o objeto artístico que analisavam, e forçavam o leitor a reagir a algumas ideias, a um texto.

Não sou saudosista, mas acho que isso hoje é artigo raro. O texto é que reage a uma demanda.

Ainda assim, a informação está mais acessível, o que é irônico.

Entre as coisas que eu não disse, a mais relevante (pensei nisso hoje enquanto dirigia o fusca para cá) é que minhas matérias não são feitas no ritmo “senta ali e escreve”. Nunca funcionou assim. O problema é mais grave: elas são feitas o tempo todo dentro da minha cabeça. Tem dias que eu durmo fazendo uma matéria e ainda sonho com ela.

Muitas vezes dei pouca atenção para os meus filhos e brinquei menos do que poderia por estar com algo fermentando dentro da cabeça.

Para mim, não é assim: “Agora vai lá entrevista e escreve e depois você pode ir ao banco pagar as contas”. Dependendo do que sai, tem dias que não consigo mais ir ao banco nem à lavanderia. Chego em casa e parece que fui drenado, retiraram minha energia vital.

É como tentar entrevistar outro cara depois de falar com o Charles Bradley. A voz dele é uma revelação. É um homem que viveu nas ruas, dormia no metrô, foi abandonado pela mãe e pelo pai. E não se tornou rancoroso, e fez de seu infortúnio uma bênção.

Minha compreensão do que seja crítica vai além de um ponto de vista. Então, abri alguns critérios que adoto (não é uma tábua de leis, mas têm me servido).

1. Um disco bom é um disco que é bom para você. Não deixe que lhe digam que um disco é bom porque tem de ser bom. Não é porque é uma centrífuga de referências que é obrigatoriamente bom. Não é porque é primitivista e naif que é necessariamente bom. Ou ruim. E bom e ruim não é a medida de todas as coisas. Uma coisa que machuca também pode ser reveladora e artisticamente relevante.

2. A circunstância histórica costuma ser uma armadilha movediça; muitas vezes, o que você achou ruim no ato pode voltar a te provocar no futuro. Mas isso não pode ser um elemento inibidor. Se você não gosta da coisa, e pode argumentar a respeito, é isso que importa. A crítica é a qualidade do argumento.

3. Li textos no passado que foram um choque para mim, me acordaram. Recomendo vivamente que se escreva com essa perspectiva. Que se provoque, que se confronte convicções estabelecidas. Mas não façam isso simplesmente como estratégia de autopromoção, é ridículo.

4. É bom saber que, mesmo que você saiba tudo sobre o artista, sobre o disco, sobre a História, sobre as circunstâncias de gravação e tudo o mais, nada disso garante um bom texto. E um texto medíocre, mesmo que bem embasado, continua sendo um texto medíocre.

Ao final da aula, propus que ouvíssemos inteiro o mais recente disco do Lucas Santtana, O Deus que Devasta mas Também Cura, e pedi para cada um fazer uma resenha curta do disco. Depois, nós todos lemos as resenhas e eles ouviram a minha.

Nenhum texto era igual, mas quase todos apontavam algo em comum.

Concluí que dá para sistematizar isso tudo. O homem que desconfia da academia subitamente sentindo-se atraído pela academia…

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019)

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