Elba Ramalho e Fagner

Sempre tidos como uma geração que não soube se agrupar em torno de um movimento coeso, os músicos nordestinos não-baianos revelados nos anos 1970 têm sido pródigos na criação coletiva e gregária, desde quando os pernambucanos Alceu Valença Geraldo Azevedo debutaram em dupla, em 1972, os cearenses EdnardoRodger Rogério Teti estrearam em trio, no ano seguinte, e o paraibano Zé Ramalho deu partida a sua obra agreste ao lado do pernambucano Lula Côrtes, num duo psicodélico em 1975. Na sequência, Ednardo e o também cearense Raimundo Fagner lideraram altivos álbuns coletivos com dezenas de participantes nordestinos, respectivamente Massafeira (1980) e Soro (1979). Em 1984, Geraldo Azevedo iniciou a histórica série Cantoria, ao lado do paraibano Vital Farias e dos baianos não-tropicaliastas Elomar e Xangai.

Os encontros musicais nordestinos têm sido vários principalmente a partir de 1996, quando Alceu e Geraldo se uniram aos paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho para lançar o disco ao vivo O Grande Encontro, que teve sequências em 1997, 2000 e 2016, nos dois primeiros casos desfalcados de Zé Ramalho e, no último, sem Alceu. O chamado Pessoal do Ceará conheceu outra encarnação em 2002, agora com Amelinha Belchior se somando a Ednardo. Em 2005, Elba dividiu um disco com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos. Zé Ramalho inaugurou em 2014 uma parceria com Fagner, que já gravara um belo álbum de parcerias inéditas ao lado do discípulo maranhense Zeca Baleiro (músico surgido na leva dos anos 1990 e autor de um Zeca Baleiro Canta Zé Ramalho, em 2015). Após uma versão ao vivo do encontro com Fagner, lançada no ano passado, Zeca prepara um primeiro trabalho em dupla com o contemporâneo paraibano Chico César.

Um novo capítulo da tradição acontece agora com gravação inédita de um encontro entre  Fagner e Elba, em Festa, não por acaso um álbum devotado à obra do patriarca pernambucano Luiz Gonzaga, com quem Fagner havia gravado dois discos inteiros, em 1984 e 1988. Inevitavelmente forrozeira, a Festa para Gonzagão tem pegada reverente e tradicionalista, mas deixa de lado os clássicos indeléveis que o inventor produziu a partir de “Asa Branca” (1947), em prol de popularíssimos forrós lançados pelo “rei do baião” nos anos anteriores a sua morte, em 1989.

Entram nesse espectro três parcerias tardias de Gonzaga com o compositor pernambucano João Silva: o arrasta-pé “Danado de Bom” (1984), a praiana “Deixa a Tanga Voar” (1985) – com citação introdutória a “Requebre Que Eu Dou um Doce” (1941), do baiano não-sertanejo Dorival Caymmi – e “Vou Te Matar de Cheiro” (1989). Dessa fase são ainda “Pense n’Eu” (1984), composta pelo filho nascido carioca Gonzaguinha, e “Forró Número Um” (1985), da discípula paraibana Cecéu. Também de Gonzaguinha é o épico forró de seca “Festa”, lançado pelo pai em 1968: “Belo é o Recife pegando fogo/ na pisada do maracatu”. O aprendiz Dominguinhos assina “Sanfona Sentida” (1973) ao lado da pernambucana Anastácia, gravada por Luiz Gonzaga em 1976.

Apresentado pelo pai da sanfona em 1973 e escrito pelo paraibano Luiz Ramalho (primo de Elba e Zé Ramalho), o forró pândego, mas hoje anacrônico “Facilita” pertence a tempos idos de resistência contra a minissaia e a livre expressão feminina: “Tua saia, Bastiana, termina muito cedo/ tua blusa, Bastiana, começa muito tarde”. Vem acoplada à maliciosa “O Cheiro da Carolina” (1956), atribuída a Zé Gonzaga (irmão de Gonzagão) e Amorim Roxo (mas que seria na verdade uma criação do maranhense João do Vale), numa associação que Elba já havia usado em seu tributo anterior ao “rei do baião”, lançado em 2002.

Minoritárias, as composições da era pré-LP se resumem a “Vem Morena” (1950), da histórica parceria pernambucana com Zé Dantas, “Estrada do Canindé” (1951), único exemplar de co-autoria do mais importante parceiro de Luiz Gonzaga (o cearense Humberto Teixeira, de “Asa Branca”), e a prece sacudida “Baião da Penha” (1951), do maestro pernambucano Guio de Moraes com letra do jornalista paulista David Nasser.

A única exceção ao pique de forró do álbum de Fagner e Elba é o aboio triste e dolente “A Morte do Vaqueiro”, parceria sertaneja do pernambucano Nelson Barbalho com Luiz Gonzaga, que a lançou em 1963. “Bom vaqueiro nordestino/ morre sem deixar tostão/ o seu nome é esquecido nas quebradas do sertão/ nunca mais ouvirão seu cantar, meu irmão”, canta Elba, como a desmentir toda a alegria que é o fio condutor de Festa.

Renato Teixeira e Fagner nas gravações de “Naturezas” – foto Leonardo Rodrigues

Expandindo-se para além dos círculos nordestinos, Fagner acaba de gravar também um disco em dupla com o artista híbrido de caipira, emepebista e roqueiro rural paulista Renato Teixeira, do qual sairá no próximo dia 17 o primeiro single, uma regravação da toada “Tocando em Frente”, lançada em 1990 pela baiana Maria Bethânia. Parceiro de Renato na composição, o sul-mato-grossense Almir Sater se junta aos dois para a regravação que religa Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. O álbum, Naturezas, deve ser lançado no início de 2022 pelo brasileiríssimo selo Kuarup (da já citada série Cantoria) e conterá oito parcerias inéditas Fagner-Teixeira, além de uma regravação do clássico cearense “Mucuripe” (1972), de Fagner com Belchior.

Completando um ciclo expandido para ares extra-nordestinos, Renato Teixeira acaba de lançar uma nova versão do clássico viajante sul-matogrossense “Trem do Pantanal” (lançado em 1981 na voz da baiana Diana Pequeno), de autoria dos cariocas radicados no Mato Grosso do Sul Geraldo Roca Paulo Simões (também parceiro preferencial de Sater). A novidade aqui é que Renato a interpreta lado a lado com Geraldo Roca, na última gravação deixada por esse herói da música sul-matogrossense, que morreu em 2015, aos 61 anos.

Um círculo se fecha, evidenciando que movimento e união são pouco visíveis e nunca propagandeados, mas existem e se referem não apenas à MPB sertaneja nordestina, mas a um Brasil interiorano que se constrói desde sempre por fora do eixo, pela obra de artistas bem distantes das capitais e dos litorais.

FestaDe Fagner e Elba Ramalho. Bonus Track/Universal.

Trem do PantanalSingle de Geraldo Roca e Renato Teixeira. Alvorada Brasileira.

Tocando em Frente. Single de Renato Teixeira, Fagner e Almir Sater. Kuarup.

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