Marighella. Frame. Reprodução
Marighella. Frame. Reprodução

Após dois anos enfrentando a censura do governo neofascista do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, o ator Wagner Moura, estreando como diretor, finalmente conseguiu lançar, semana passada, seu aguardado “Marighella”, baseado na biografia “Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 2012), do jornalista Mário Magalhães. Após ser visto no mundo inteiro e algumas pré-estreias no Brasil o filme entrou em circuito comercial na quinta-feira, 4, data exata em que a brutal e covarde execução de Marighella por agentes da ditadura militar brasileira completava 52 anos.

Em entrevista ao Roda Viva da TV Cultura no último dia 1º., Wagner Moura disse algo sobre o filme ser sobre os que resistiram à ditadura militar instaurada com o golpe de 1964 e ser também sobre os que resistem a este arremedo de democracia no qual, afinal de contas, o outro golpe, em 2016, também nos jogou.

É um filme aberta e declaradamente político. E não poderia ser diferente em se tratando do personagem protagonista e do diretor, que faz uma estreia grandiosa, agigantada pela covardia dos que até aqui tentaram de tudo para o filme não ganhar as telas. Conterrâneo e admirador de Marighella, o baiano Wagner Moura peitou o bolsonarismo ao não aceitar a mordaça que tentaram lhe impor: afirmou ter feito um filme para cinema, para ser visto nas salas e telonas, e não ia aceitar o veto lançando sua obra diretamente numa plataforma de streaming, por exemplo.

Arte é resistência e a postura de Wagner Moura é uma afronta aos que querem caçar as liberdades, coletivas e individuais. Outros guerrilheiros têm tombado, mesmo sem pegar em armas: Moa do Katendê, Marielle Franco, Leuvis Manuel Olivero, para citar uns poucos. A história se repete, como tragédia e como farsa: do período abordado no filme aos dias em que ele finalmente é exibido, vemos a repetição de mentiras como a “ameaça comunista”, a alteração de cenas de crime para proteger bandidos fardados e a mordaça imposta a veículos e profissionais de imprensa.

Marighella vive, não é exagero dizer: na resistência ao fascismo, como inspiração, mas também na atuação exuberante de Seu Jorge, elogio que se estende a todo o elenco, preparado por Fátima Toledo. Atuações firmes, ambiente claustrofóbico, o predomínio da penumbra e câmera na mão garantem um clima de tensão permanente, fundamental para o espectador se sentir parte da história, refletindo sobre ela durante seu desenrolar.

Qualquer pessoa com um pingo de sensatez sabe responder a pergunta que intitula esta resenha: qualquer um que, por ser menor que ele, insiste em negar seu legado e vilipendiar sua memória.

A música, no filme, na medida, é também um espetáculo à parte, com Chico Science & Nação Zumbi, Gonzaguinha e Racionais MCs. Em 1969, em “Alfômega” (Gilberto Gil), que encerrava o “álbum branco” de Caetano Veloso, o compositor, que participou da faixa cantando e tocando violão, enganou a ditadura militar gritando o nome de Marighella na gravação. Wagner Moura parece ter vingado o voto do então deputado federal Jair Bolsonaro pelo impeachment de Dilma Rousseff, ao realizar a cinebiografia de um dos terrores do capitão, que alçado ao cargo máximo da república, tão somente se apequenou desde então.

Marighella. Cartaz. Reprodução
Serviço: “Marighella”. De Wagner Moura. Brasil, 2019, drama/biografia. Em cartaz nos cinemas.

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Veja o trailer:

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