Tentar o canto exato e novo
Que a vida que nos deram nos ensina
Pra ser cantado pelo povo
Na América Latina

(Voz da América, Belchior)

O poeta carioca (de constituição francamente matogrossense) Douglas Diegues lançou há alguns anos um manifesto chamado Portunhol Selvagem, preconizando um tipo de interlíngua mestiça, de suave mobilidade antropológica e desinibição fronteiriça, unindo o Brasil a seus vizinhos latino-americanos. Ato contínuo, autores que já nasceram talhados para o diálogo “selvaje”, como o poeta Glauco Mattoso e os escritores Xico Sá, Marcelino Freire e Joca Reiners Terron, engajaram-se no movimento, cuidando de espraiar sua suavidade ativista.

É certo que o cantor cearense Antonio Carlos Belchior (1947-2017) não teve tempo de pedir sua filiação ao clube de Diegues, dado que ficou 10 anos desaparecido (entre 2007 e 2017), mas sua obra está plena da antevisão aglutinadora dessa corrente. Como na quase nunca mencionada Ploft, canção do disco Cenas do Próximo Capítulo, de 1984:

O Nordeste, sentado na esquina do mapa
Olvidado de los Reyes del mundo en un siglo de luces
Se mira no Atlântico: Américas, Áfricas
Índios, pobres e jovens, tudo um negro blues

Ou como o cantor e compositor cearense demonstra desbragadamente nos versos de Bucaneira, canção do álbum Melodrama, de 1987.

Bucaneiras e guantanameras de José Marti!
Mi corazón guarani,
Peri beija Ceci
Indios, blancos, criollos – los colores de la amistad
la liberdad com tesón e voluntad!

Belchior tinha, além da alma literária, uma compreensão revolucionária da cidadania. Ninguém cita impunemente José Martí (1853-1895), um pensador e político cubano que dedicou sua vida à escrita e à ação política na luta pela independência de seu país. Para Belchior, a condição artística latino-americana era também nordestina e miscigenada, e nunca poderia estar totalmente desvinculada de nosso destino comum. Lá em seu primeiro disco, em 1974, a canção A Palo Seco já carregava a marca dessa opção:

Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
O tango argentino
Me vai bem melhor que o blue

Claro, é evidente que Belchior é o cantor brasileiro por excelência da afirmação cultural latino-americana, porque é dele simplesmente o maior hino dessa condição, Apenas um rapaz latino-americano (do álbum Alucinação, de 1976). Além do tom de apropriação ladina e elogio do pastiche dessacralizador, o material com o qual ele alimenta sua obra de propulsão latino-americana é feito de flertes musicais com o reggae caribenho, a rumba cubana, a guarânia paraguaia. A chaga da cultura sob ditaduras sanguinárias o fustigava, deixava agoniado, e ele investia contra a injustiça e o arbítrio de formas até temerárias, como é o caso de Voz da América (do disco Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo, de 1979). Ele compôs essa canção em 1975, em um momento tenso da ditadura militar. Nessa música, Belchior fala da Operação Condor, investida repressiva em conjunto dos vários regimes militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai em colaboração com a CIA norte-americana) que funcionou ativamente entre 1970 e 1980.

El Condor pasa sobre os Andes e abre as asas sobre nós
Na fúria das cidades grandes eu quero abrir a minha voz

“El Condor Pasa” disfarçava-se em citação a Simon & Garfunkel ou Daniel Robles, autores do sucesso original. A letra de Belchior era prenhe de indignação mas, principalmente, era uma afirmação na crença de que a humanidade venceria a barbárie, que o carinho seria maior do que a brutalidade: “Quem teve que partir para um país distante: não desespere da aurora, recupere o bom humor”.

É possível afirmar até que Raimundo Fagner, o antagonista/duelista de Belchior (na vida e no espectro político), tenha sido mais efetivo na convocação popular do canto misto entre português e castelhano. A parceria de Fagner com a argentina Mercedes Sosa, em Años, é um dos mais pungentes casos de desobstrução cultural de toda a saga da MPB. Mas o mergulho de Belchior é mais profundo, carrega consigo um desejo de dissipar fronteiras, não de exaltá-las. Em 1993, ele lançou, por exemplo, um álbum que é muito pouco conhecido, mas de amplidão estética formidável: Belchior & Larbanois-Carrero, com participação especial da cantora Laura Canoura (que canta a versão Como Nuestros Padres). Foi lançado em CD pelo selo Eldorado e firmou a “Conexão Uruguaia” de Belchior. São 14 canções do cearense, sete em espanhol e sete em português. O duo uruguaio Larbanois-Carrero já tinha, àquela altura, quase 20 anos de atuação e dividido o palco com Pablo Milanés, Juan Manuel Serrat, Paco Ibáñez, entre outros. Mario Carrero era de Florida, Eduardo Larbanois era de Tacuarembó, o mesmo departamento uruguaio que abrigaria Belchior e sua mulher Edna Prometeu no auto-exílio uruguaio até muito recentemente.

Os compositores uruguaios e seu companheiro cearense forjaram duas canções para o disco, em parceria: La Vida es Sueño (Belchior e Larbanois) e 1992 (Quinhentos años de que?), assinada pelos três. “Eram só três caravelas/ valeram mais que um mar/ Quanto aos índios que mataram /Ah! Ninguém pôde contar”, cantam os parceiros de Belchior, para arrematarem, no refrão: “Há motivos para festa? /Quinhentos anos de quê?”.

Nesse disco, Belchior cuidou diligentemente de cada versão de suas canções, que viraram Gallos, Noches y Quintales, Donde Está Mi Corazón, A La Hora del Almuerzo e No Lleve Flores. A intenção das versões, evidente, era prestar um tributo aos colegas continentais, irmãos em ativismo e sonho, como Vitor Jara, Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui e Violeta Parra. Curiosamente, as sete outras músicas que Belchior grava para o disco não têm conexão evidente com a temática musical latinista. Ele escolheu o caminho da contaminação mútua: Ouro de Tolo e Beijo Molhado são da tradição roqueira; e Tudo Outra Vez e Comentário a Respeito de John são baladas universais. Belchior perseguia a integração, mas não um ilusório ideal de pureza cultural. Pelo contrário: era no mélange, no cruzamento das influências e no delírio da assimilação que ele via a autenticidade, a legitimidade. Como cantou em Beijo Molhado, de 1982:

Moças, bonecas de louça, fofinhas, dolores de mi pasión
Oh! Diana suburbana, sul-americana, suja de batom

Ou na absurdamente sincrética Tambor Tantã (do disco Elogio da Loucura, de 1988), que ele inicia citando o grande clássico La Adelita, música recolhida do folclore mexicano e gravada, ao longo da história, por Trini López, Nat King Cole, Gipsy Kings, Cuco Sanchez, Amparo Ochoa, Jorge Negrete, entre dezenas de outros:

Oh! Adelita, amor civil,
Quando a guerra acabar
Explodirei, com mais de mil,
Em um trem militar
E quem vier a fim de mim
Se ligue em meu canal!
Em reggae, em rumba, em Cuba, enfim
Na América Central

Belchior defendeu que seu destino estava intimamente ligado ao de seus irmãos latino-americanos – uma obviedade para muita gente, mas infelizmente uma revelação para muitos brasileiros. Belchior iria citar Victor Jara, expoente da Nova Canção Chilena e defensor do folk latino-americano, em uma outra canção conhecida, Caso Comum de Trânsito, de 1977. Victor Jara foi preso pela ditadura de Pinochet após o golpe de 1973, levado ao Estádio do Chile, torturado barbaramente e depois teve o corpo largado num cemitério de Santiago e enterrado sem inquérito. As pessoas gritavam nas ruas: “Victor Jara, presente!”. O bardo de Sobral guardou um verso sob as dobras do blusão para o índio herói de Santiago:

– E aquele poeta, moreno e latino, que, em versos de sangue, a vida e o amor escreveu… Onde é que ele anda?
– Ninguém sabe dele…
– Fez uma viagem ?
– Não, desapareceu.

Ao finalmente refugiar-se no Uruguai, em 2008, fugindo de um Brasil que já anunciava sua rendição à barbárie fundamentalista miliciana, Belchior (que farejava longe) foi viver em San Gregorio de Polanco, entreposto de uma residência cultural que nunca será devidamente explicada ou compreendida. Mas ali mesmo em San Gregorio ele cuidou de aprofundar seu coté latino-americano. “Ele tinha uma cultura geral muito ampla e se interessou pela literatura uruguaia, especialmente por Eduardo Galeano. Passou dias inteiros lendo-o, depois continuou com Juan Carlos Onetti. Durante sua estadia, nossa vida foi trocar livros e música”, contou o senhorio de Belchior, que o abrigou por alguns anos.

Trocava livros e música e tocava música como se ouve nos livros, e assim o fez toda a vida. Seu afeto continental explicava docemente também sua condição de cidadão e poeta. Não por acaso, haverá muitos livros por aí autografados por ele que o proprietário vai notar, tardiamente, a forma como ele autografou, com sua frase preferida, seguindo um ritmo andino:

“Abrazos y canciones
Belchior!”

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