inspiradora essa história de que, com abril já caminhando para o final, na semana que passou o orçamento da nação para 2006 foi finalmente aprovado no congresso nacional (você sabia que até agora o brasil nem tinha orçamento para 2006?, ou estava ocupado-a demais botando “culpando” o bode lula por toda e qualquer pereba e brotoeja e escama que lhe pipocasse a pele?).

já que até o orçamento de 2006 “já” foi aprovado, talvez nunca seja tarde para lembrarmos o que foi gravado de bacana e de bacaníssimo no ano musical brasileiro do antigo e já quase esquecido 2005, pois não? se sim, vai aí a listinha pessoal e impressionista (e alfabética) do pas, e que se estourem fogos amigos sem artifício para 2005! o rojão?, segura daí, que eu seguro de cá!

ademir assunção, “rebelião na zona fantasma” (zona branca) – poesia maldita transtornada em música pop, música maldita transbordada em poesia pop. centrado, sincero, e uns versos assim de “e então?/ você já ouviu itamar assumpção?/ já teve coragem de dizer não?”. e a coragem de dizer sim, você já teve?

adriana capparelli, “bem + perto” (dabliú discos) – cantriz do grupo oficina, adriana semeia tons tristonhos numa mpb de canções próprias, & de outras moças (letícia coura, natalia mallo, vanessa bumagny), & de outros moços (zeca baleiro, torquato, caetano) etc. & tal & coisa.

alceu valença, “na embolada do tempo” (indie records) – embalado no vento, o bardo nordestino deixou para lá as convenções e o comercialismo “ao vivo” de série recente, para voltar a beliscar a densidade, a mansidão, o mistério, a consistência.

alcione, “uma nova paixão” (indie records) – uma de nossas mais prestativas sambistas históricas, alcione em muitos momentos faz o gênero desleixado, meio perdido de direções e parâmetros. “uma nova paixão” segue a regra, mas o faz, como alceu valença, com o mérito de se fiar de novo em novas canções gravadas em estúdio. dentre 16 sambões românticos e/ou baladas sambadas, “meu ébano” (de nenéo e paulinho rezende) é o mais sedutor e divertido libelo de ginga, liberdade e orgulho racial.

aldir blanc, “vida noturna” (lua music) – já falamos um bocado sobre blanc & bosco no tópico bobos sabidos, doidos varridos, nobres de vintém, isso foi em maio, bem antes de o aldir lançar seu disco solo. “vida noturna” prefere os humores melancólicos à fúria construtiva com que blanc & bosco redesenharam os tipos populares brasileiros ao longo do anos 70. mas a matriz ainda é de aço & polpa, a ironia fina já é finíssima, os tipos estão (quase) todos lá, à espera de uma maior revalorização, que recentemente tem passado de sopro pelas bocas de adriana capparelli, seu jorge, chico césar, céu, daniela mercury, bojo & maria alcina, & poucos mais. a bênção, senhor definidor do brasil passado, presente & futuro.

alzira espíndola e alice ruiz, “paralelas” (duncan discos) – zélia duncan patrocinou, e a expressão feminina alistada nas vanguardas poéticas & paulistas & paranaenses & poético-paulista-paranaenses desliza branda & linda & tímida & exuberante ao longo de um disco enviado para cá de lá do mais plangente universo paralelo habitado por mulheres & poetas & pretos & malucos & itamares sempre-nunca navegados. o poeta está vivo (a bênção, itamar assumpção), as poetas estão vivas.

ana carolina e seu jorge, “ana e jorge ao vivo” (sony & bmg) – o comercialismo pode ser o combustível principal da gravadora multinacional (provavelmente também dos próprios artistas), mas o que os move artisticamente, tanto uma como o outro, é o caos, a convulsão. há arestas por todas as frestas a serem aparadas, mas o pique político que embebe o encontro entre a bissexual branca & o negro pós-hollywoodiano da perifa & do ar livre é fonte de energia e vitalidade para ambos. a confluência se consuma no binóculo apontado por seu jorge a “zé do caroço”, uma chocante crônica sócio-musical forjada em samba & amor & violência & revolta pela grande, grande, grande leci brandão: “e na hora que a televisão brasileira/ destrói a gente com a sua novela/ é que o [líder comunitário & traficante do morro do pau da bandeira] zé põe a boca no mundo/ é que faz um discurso profundo/ ele quer ver o bem da favela”. que efeitos palavras assim hão de causar na multidão mais chapada pela interpretação agressiva, áspera e acomodada de ana carolina, ah, isso é coisa que pagaremos para ver & ouvir.

antonio adolfo, “carnaval piano blues” (kuarup discos) – pai (ou tio, no mínimo) da bossa comercial, da toada moderna, da pilantrália, da brazuca pop, do soul br-3, do teletema, da música independente brasileira e da mpb mansa anos 70-80 de naras (leão) & angelas (ro ro), adolfo brinca de carnaval ao piano, magro & encolhido (mas rotundo de história & histórias), entristecendo e simplificando o que já era simples e triste em “pierrot abandonado”, “pastorinhas”, “saca-rolha”, “recordar é viver”…

antonio nóbrega, “nove de frevereiro” (brincante/distribuidora independente) – o sempre afetivo e armorial discípulo de ariano suassuna & dos saberes populares pernambucanos mergulha com presteza & destreza no frevo do chão natal. é a tradição, manos & minas, quem tem medo desse bicho-papão?

arranco de varsóvia, “na cadência do samba” (dubas música/universal music) – o grupo carioca investe numa apropriação moderna e sem fronteiras do samba, sem medo da raiz & da tradição, mas sem medo tampouco de chacoalhar dorival caymmi com zeca pagodinho, pixinguinha com leoni, dona ivone lara com naná vasconcelos, luiz bandeira com caetano veloso.

artificial, “free u.s.a.” (ping pong) – blimp, plim, boing, boom, tschak. & o amalucado kassim aprontando bobagens com zazueiras de videogame & computador.

banda calypso, “volume 8” (produções calypso) – a burguesia nacional, dentro dela setores-chave, er, “intelectualizados” da academia ou do jornalismo musical (alô, pas!), segue comandando a aversão agressiva contra trabalhos como o desses tecnobregas do pará. a questão se traveste de estética, embora entre os críticos ninguém nunca explicite muito bem quais são os, er, “pecados” estéticos da cafonália popular brasileira – no caso de joelma & chimbinha, há temas simples e repetitivos, vocais precisos embora melosos, temática superficial entre a animação da dança feliz & o romantismo melancólico (pós)iê-iê-iê, ritmo frenético no triângulo brasil-caribe-latino-américa… a pergunta é: por que um som tão direto e despretensioso teria o poder de afetar, irritar e ameaçar tanto assim os setores burgueses que seguram a sociedade a freio? uma tentativa de resposta: atrás do trio elétrico da censura estética a quem ouse criar e produzir e se comunicar nos modos “bregas”, segue uma série de carros alegóricos típicos do subdesenvolvimento e da arrogância dos estratos mais, er, “de cima” da sociedade brasileira: rancor e intolerância (não vou usar desta vez o termo-clichê “preconceito”, ok? ops, usei…) contra o diferente em termos de classe social, região, estética não musical (já reparou o visual e os quilinhos a mais dos calypso? você não agüenta, não, ô, fragilidade?), arbítrio, cotas que os “ricos” de espírito e/ou de matéria acreditam piamente ter sido instituídas pela própria providência divina. pois sim, o som do calypso vem dizer que NÃO com muito topete & ciência de direitos civis igualitários – e diz gostoso, sem muxoxo, sem legitimar o chororô dos não-me-toques, sem “tomar o lugar” (eta, expressão careta…) de ninguém, sem deixar dor de ouvido após uma audição tão despretensiosa quanto o próprio som. abaixo as ditaduras.

cachorro grande, “pista livre” (deck disc) – rock’n’roll sulista do rio grande, sem medo de ser feliz, acelerado, inconseqüente, sujo, feio, malvado (&, por que não?, limpo, bonito, bonzinho)… e a gente? a gente gosta e se diverte às pampas, aos pampas.

caito marcondes, “auto-retrato” (maritaca) – sons percussivos, indígenas, afrobrasileiros, mouros, ciganos…, brasileiros.

cansei de ser sexy, css (trama virtual) – está na fórmula da pedra filosofal da música para divertir: juventude, energia, entusiasmo, brabeza, tesão, alegria, raiva, inconseqüência, irresponsabilidade, pouco siso, culpa, responsa, tristeza, sinceridade, ocultação, transparência, deslumbre, paixão. não falta nenhum desses elementos à explosão de vitalidade que é o cansei de ser sexy. eles hão de selecionar os componentes preferenciais dentro da fórmula, para definir se css é mais fogo de palha, ou mais experiência libertária, ou mais revalidação de velhas regras mercadológicas, ou mais pote de permanência, ou mais leveza, ou mais o quê. nós seremos seus cúmplices (não se esqueça!), na falta e/ou na fartura, no descrédito e/ou na exultação. o futuro, dela(e)s e nosso, está por ser rascunhado, mas a diversão é mais que presente: ela é real, cotidiana, e não cansou nem um tiquinho assim de ser sexy.

carlinhos brown, “candombless” (candyall music/tratore) – dirigido por carlinhos brown sob ruídos pop, eletrônicos, tropicalistas, submissos, roqueiros, arredios, inconsistentes, bossa-novistas, conchaveiros, rituais, um elenco arrebatador de mães & pais de santo do candomblé congelam na curva do tempo discussões esterilizantes sobre se isso é “primitivo”, ou se aquilo é “moderno”, ou se brown é baiano demais ou baiano de menos ou brasileiro demais ou brasileiro de menos. peço permissão aos navegantes nauseados para declarar que o resultado catuca o êxtase, o gênio, o sublime. se os navegantes nauseados não me concederem a permissão, declaro mesmo assim: o resultado catuca o êxtase, o gênio, o sublime. catuca mãe, catuca pai, catuca filha, catuca o samba que nasceu no mar, num navio negreiro, como carlinhos mesmo já fincou ao definir riachão (Riachão, o sambistão, não o ribeirão).

ceguinhas de campina grande, “a pessoa é para o que nasce” – também foi fartamente tematizada aqui a trilha sonora do documentário sobre as três cantadeiras cegas que vivem à margem da mendicância (não)musical na paraíba-mulher-macho-e-fêmea deste grande brasil (dá lá um pulinho, de ré, em “pobre coitado é o cacete”, mas também em com os olhos bem abertos). para ouvi-las, é preciso primeiro firmar o olhar desfocado pelo aparente primitivismo de suas cantorias. depois que os olhos-ouvidos estiverem acostumados com tanta claridade (& com intervenções criativas do quase-cego hermeto pascoal), irá aparecendo de mansinho a imensa sofisticação dos poemas, palavras & sons com que maroca & poroca & indaiá (& uma multidão de invisíveis) enxergam o que há de mais belo e/ou sofrido no mundo. o cd 2, de releituras por paralamas do sucesso, bnegão, mombojó, lenine, junio barreto, eddie, nervoso & canastra, zé renato & teresa cristina, lirinha, otto, pato fu, fausto fawcett & laufer, cabelo, silvério pessoa, elba ramalho, lula queiroga, bráulio tavares, pedro luís & a parede e originais do sample, enxerga menos que as cantadeiras em pessoa – mas também enxerga muito, de montão.

céu, “céu” (ambulante/tratore) – a moça surgiu, e boa parcela da crítica musical se apressou em promessas demais, cantarolando desde logo “eu te darei a céu, meu bem, e o meu amor também”. pessoalmente, acho que ainda é cedo, fico um tantinho incomodado na hora da partida com maneirismos demais, com a originalidade algo intimidada por algum sentido de cópia (pela angústia da influência?), com o ar gélido que parece emular as fauces mais esnobes de marisa monte. mas o(a) céu de carreira já vai sendo riscado, adornado pelo padrão de produção de beto villares aqui, pel'”o ronco da cuíca” de bosco & blanc acolá, pelo cantar bonito da moça em todo lugar.

chico césar, “de uns tempos pra cá” (biscoito fino) – o regresso de chico não é de fácil e rápida assimilação (ele nunca é), mas intrigam e instigam suas experiências em fazer confluir os ambientes popular & erudito, sob canções intrincadas, regravação da datada & sempre presente “cálice” (do outro chico com o outro ministro), abordagem corajosa do delicado tema do triângulo amoroso (“1 valsa p/ 3”), e assim por diante. a jóia da coroa é “orangotanga”, uma celebração irônica, mas direta sobre o brio plebeu da música popular: “olha, foi jóia/ mas agora é miçanga”.

cidadão instigado, “o método túfo de experiências” (slag records/selo instituto) – “o circo da dê.cadência” (2002), o primeiro disco do grupo cearense liderado por fernando catatau, já era incrível, mas este segundo tem cara de elo perdido, ou melhor, de elo encontrado. é nó de confluência e ponto de convergência entre roberto carlos & nação zumbi, entre o tributo às ceguinhas de campina grande que saíra antes & o tributo a odair josé que sairia depois, entre a brasil-latinidade caribenha & o hip hop brasil-paulistano, entre os píncaros de pop sofisticado & o máximo em ternura brega, entre a faísca cafona de “te encontra logo…” e “o tempo” & o fogareiro trans-electro-pop de “chora, malê” e “o pinto de peitos” [“sim, meninos, o pinto de peitos tem o bico preto e o seu pio é escuro”, assum preto, blackbird, belchior, nos respondam, o passado & o presente & o futuro sempre mais]. há que se ouvir “apenas um incômodo”, para se decantar a incorporação do pai simbólico belchior [aquele que em 1976 já advogava que, “veloso, ‘o sol (não) é tão bonito’ pra quem vem do norte e vai viver na rua”], catatau falando tudo tudo tudinho sobre maroca & poroca & indaiá & joelma & chimbinha & o brasil 2005: “por que eu lhe incomodo tanto?/ (…) será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana/ ou será simplesmente porque eu me aceito assim, e até gosto de mim?/ (…) se você me chamar de paraíba ou baiano não vai me soar estranho/ pois eu sei que aos teus olhos eu sou apenas um incômodo/ que veio do nada para empestar o mundo, mas escute/ eu que vim do nada (…) só tenho um sonho que já é meu/ e duas palavras para lhe dizer neste instante: me agüente!”, canta(rá) catatau em 2006. entenda-os como quiser ou puder o freguês, localizo aqui os versos com mais cara de brasil 2006 que (não) ouvimos em 2005: “imagine, o pobre dos dentes de ouro/ quer sim, quer sim, quer sim/ um pouco de dente de ouro michelin”.

cláudio jorge e luiz carlos da vila, “matrizes” (selo rádio mec) – o samba se areja em um passeio minucioso, que singra o brasil sob combustível de samba, congada, baião, capoeira, coco, partido-alto, maracatu, xote, boi, jongo, catira, ijexá…

claudio zoli, “zoli clube vol 1” (trama) – receoso, hesitante, conservador, sim, talvez, mas quem há de se queixar de um disco em que um soulman decida recolocar em pauta souls e funks de quilate histórico de tim maia, cassiano, robson jorge & lincoln olivetti, dom beto, hyldon, carlos dafé, tony bizarro etc.? eis.

a comunidade samba da vela, “a comunidade samba da vela” (pôr do som/atração fonográfica) – mora numa roda de samba onde não se bebe álcool, onde se canta até que a vela se apague, onde os fundadores são chapinha, maurílio, paqüera e magnu, onde o canto encanta e quase cansa por soar sempre em coro, onde a pauta é a vida em comunidade? mora, mora na filosofia…, para que não rimar essas novas velhas rimas?

dj dolores, “aparelhagem” (azougue discos/distribuidora independente) – loops mundiais, nordestes locais, a voz-raiz de isaar, o espírito errante de dolores: música do mundo.

daniel carlomagno, “daniel carlomagno” (trama) – uma estonteante canção chamada “na minha cabeça”, à altura do melhor de marcos valle, e maiores detalhes em dentro da cabeça, um baile pelo lado b.

daniela mercury, “balé mulato” (emi) – em 2005, daniela se bipartiu em duas: pariu o constrangedor “clássicas” (com “standards” jazzeados da mpb, ai, que sono), mas também este vigoroso “balé mulato”. insistindo tanto em percussão afro-axé como em eletrônica, em prol de conservar sua identidade, encontrou tonalidades fortes e belas no badauê (“levada brasileira”), na balada (“toneladas de amor”), na vida real (“nem tudo funciona de verdade”: “a dor sobrepuja a felicidade/ a barriga cresce/ a maçã perece/ nem tudo funciona de verdade”), no afro-samba-jóia (“meu pai oxalá”, de vinicius & toquinho); na diversidade, enfim.

dexter, “exilado sim, preso não!” (alta voltagem fonográfica/porte ilegal) – se todo mundo anda abrindo armários nesta era lula, isto é bossa nova, isto é muito natural: um dos mais corpulentos discos de hip hop do ano veio de dentro da prisão (ou do exílio, como define seu autor – será que de lá do desterro a terra também é azul?). é que os aprisionados também estão saindo do armário, camarada!, num país que devagarinho descobre a existência de uma palavrinha chamada “auto-suficiência” – ou teus preconceitos te impossibitam de farejar & enxergar arte fina & bruta brotando de dentro da cela de uma cadeia? “acordei com uma vontade/ de saber como eu ia/ e como ia meu mundo…”, canta jorge ben ao final de “tamo junto”, enchendo de poesia as janelas das cadeias e de fora delas. disco de fibra & respeito, viu, dona daslu?

elba ramalho e dominguinhos, “elba ramalho-dominguinhos” (rca/bmg) – tal como citado lá acima a respeito de alceu valença, esses dois aqui também robustecem quando se beneficiam dos tons mansos, despidos, densos (& populares), essencialmente nordestinos.

elton medeiros, “bem que mereci” (quelé/acari/biscoito fino) – é a tradição do samba em seu estado elementar, é preciso dizer algo mais? bem que merecemos.

erasto vasconcelos, “jornal da palmeira” (candeeiro records) – irmão de naná vasconcelos, erasto é em si a paisagem musical pernambucana, na pororoca entre a tradição & a modernidade. assim é o rico & anárquico “jornal da palmeira”.

f.ur.t.o., “sangueaudiência” (epic/sony & bmg) – marcelo yuka supera a vivência n’o rappa, balangando entre a clareza mental extraída da política & da música e a confusão mental extirpada da violência brasil-carioca. seus pares na “comunidade cultural” estão preparados para lhe dar ouvidos?

gal costa, “hoje” (trama) – difícil, mulher difícil. arisca, teimosa, arredia, “snob”, bailarina equilibrista na corda bamba de uma tranqüilidade apenas aparente. quase desagradável, talvez, é o seu disco “independente” – mas menos que os anteriores, de quando a tranqüilidade se aparentava apenas de apatia.

hamilton de holanda, “01 byte 10 cordas – ao vivo no rio” (biscoito fino) – de instrumentista-chave de apoio para zélia duncan a instrumentista-chave de apoio para si mesmo, o bandolinista dá banho de virtuosismo onde quer que esteja.

los hermanos, “4” (sony & bmg) – o mar, a maré e a marola evocam um pouco das maresias comentadas acima a respeito da cantora e compositora céu. estes 4 são, com poucas sombras para dúvida, alguns de nossos mais interessantes jovens em música popular. mas os maneirismos demais, o ar algo gélido e a melancolia chororô puxam los 4 uns passinhos para trás, se mirarmos o baile de valsas que já contou com o ápice de “o bloco do eu sozinho” (2001). quando tudo isso vem, ainda por cima, como trilha sonora de fundo para tempestades músico-políticas-marqueteiras de roberto jefferson, então, ai, ai, ai…

itiberê orquestra família, “calendário do som” (maritaca) – em disco, a impressão é de que não se pode captar mais que uma fração dos gestos libertários de que são capazes esse itiberê zwarg, discípulo amalucado (e poderia não ser?) de hermeto pascoal, e sua jovem orquestra de jovens inquietos. ao vivo é que é de cair o queixo a quixotaria da orquestra família, que abre armários “clássicos” e coloca abaixo concepções tipo teia de aranha sobre música erudita & música popular.

izzy gordon, “aos mestres com carinho – homenagem a dolores duran” (rio 8/distribuidora independente) – izzy é negra, tem suingue e é sobrinha de dolores duran. assim também é seu tributo black-bossa às doídas e polpudas fossas da tia que naufragou ao batizar, com uma garrafa de éter, o futuro transatlântico bossa nova.

jair rodrigues, “alma negra” (trama) – embora freqüentemente rechaçado nos comitês de mpb dasluzete, jair é lenda & história & monolito. de volta às inéditas, apresenta mais um pouco daquilo que apaixona poucos e é rechaçado por muitos. e ainda produz, entre outras, a faixa-título, um contundente afro-samba de orgulho negro co-interpretado com garra pela filha luciana mello.

jards macalé, “real grandeza” (biscoito fino) – tributo ao eterno retorno é, em parte, a homenagem de macalé a seu mais importante parceiro, waly salomão. a tarefa gera mais versões de clássicos macalé-salomônicos, como “vapor barato”, “mal secreto”, “negra melodia”, “rua real grandeza” etc. o disco gira em círculos, e, como homenagearia gonzaguinha, é bonito, é bonito e é bonito.

juliana diniz, “juliana diniz” (mercury/universal) – não é fato corriqueiro, mas agora já podem ser a mesma pessoa a garota linda de morrer cujo visual televisivo assanha globos e gravadoras multinacionais & a intérprete de samba de espinha dorsal irretocável tipo monarco-paulinho da viola-zeca pagodinho-marisa monte. a juventude e o dogma duelam com respectivos trunfos e fraquezas, na espera(nça) de que o duelo, mais adiante, termine em beijo na boca.

kid abelha, “pega vida” (mercury/universal) – você pode até torcer o nariz, mas paula toller canta doce feito mocotó, gostoso como maria mole, leve como catavento, ploc feito chiclete, eletrizante como a descarga de dor da ratoeira após o queijo. “eu tô penando pra driblar o fracasso/ eu tô brigando pra enfrentar o cagaço”, que ouvinte despreconceituoso conseguiria não se derreter junto com o trio fofo que dribla com a transparência possível o “declínio” “natural” que é a maldição do pop? versão reggae meio desenxabida à parte, fetiche à parte é a doce belezura de “será que eu pus um grilo na sua cabeça?” (de guilherme lamounier e tibério gaspar, lançada pelo “white soulman” lamounier em 1973), que evoca saudades doidas do álbum original, pertencente aos acervos warner e jamais relançado em cd.

luiz tatit, “ouvidos uni-vos” (dabliú discos) – o canto choroso de tatit é quase um espanta-tubarões, mas ele sabe disso, nos avisa disso e transforma isso em poesia confessional de primeira linha. sem caixa 2.

mg calibre, “brazzonia” (clandestina produções) – jazz, caribe, mangue bit, funk, eletrônica, tudo passado na máquina paraense de processar diferenças e convertê-las num novo som, no novo som.

marcos valle, “jet-samba” (dubas música/universal music) – a volta a temas de sua veia pop universal, como “selva de pedra”, “previsão do tempo” e “esperando o messias”, em versões jazz-instrumentais, fica a meio prumo, a meio palmo, a meio termo. mas marcos valle é marcos valle, ontem, hoje e sempre, ainda que você fique aí só se lembrando de joão gilberto.

margareth menezes, “pra você” (emi) – de lá, ivete sangalo se enfurna por hábitos frenéticos (o que você pode chamar de “sucesso”, se raciocinar quantitativo, ou de “auto-sabotagem”, se bailar qualitativo). de cá, margareth conquista a festa serena (chame-a você de “fracasso” ou “maturidade”). certamente não vendeu caminhões de discos (ivete também não, embora digam que sim), mas o bel-canto e a espontaneidade de “pra você” não desonram a melhor música baiana de celebração, nem a artista, nem mesmo a gestão (ex-?)feroz do “mago” trapalhão marcos maynard na gravadora.

maria bethânia, “que falta você me faz – músicas de vinicius de moraes” – no decorrer do percurso sentimos cansaço e preguiça (meu cu, vinicius!), mas impressões iniciais permanecem registradas (e válidas, acredito) em maria modernista.

maria rita, “segundo” (warner/wea) – simbólica a paridade entre o que fizeram de 2005 los hermanos e o que fez de 2005 maria rita. por certo ainda jovens e imaturos, talvez tenham sido esses meninos & menina os que mais traduziram em música o susto jeffersoniano de 2005. maria rita, por si, encaramujou-se numa derivação (o caso ipod) de que ela não necessitava e que desviou olhos e ouvidos de onde eles mais poderiam estar – na música, nas motivações ocultas atrás de roberto jefferson, na criação, no sucesso desjabazeiro. o desgaste e a dor não fariam morada num painel-cenário em que tudo estivesse bem, mas os tropeços talvez não se demonstrem tão maus assim: depois de “segundo”, maria rita estará zerada para reiniciar, se reinventar, dar de ombros (se quiser) para tudo de passadiço que esteve cristalizado em sua música, no ofício e na indústria a que ela pertence, neste brasil parido por sua mãe, por brizola, por lula e pelo irmão do henfil, de que ela é (e nós somos) filha(os) alegre-triste(s).

maricenne costa, “movimento circular” (canto discos/tratore) – relicário da bossa, maricenne grita um “bolas!” às tradições e se diverte entre canções moças de moisés santana, beatriz azevedo, fernanda porto, mais tropicálias & anti-tropicálias, bossas & anti-bossas. nas hordas da tradição, vai de elzo augusto, o “samba da periferia”, olha que beleza: “sou samba, venho da periferia/ não alugo moradia/ eu sou a voz do povão/ sou pobre de pobreza absoluta/ mas tem rico que me escuta/ copo de uísque na mão, meu irmão”. nas hostes da “modernidade”, é pela pena de moisés santana que a antiga dama chama-convoca: “você tem compromisso!” – cê tá escutando?

martinho da vila, “brasilatinidade” (mza music/emi) – antenado dos choques de integração progressista que varre a latino-américa & o mundo que não se comunica em inglês, martinho foi salpicar o samba brasileiros com latinidades em espanhol & em português de outros sotaques, by nana moskouri, rosário flores & otras mas. e 2005 foi mesmo o ano em que o samba arejou em mais de um sentido e vetor, como martinho & kátia guerreiro bafejam em “dar e receber”: “eu quero dar/ eu quero dar/ eu quero dar/ e receber/ e receber/ e receber”.

max de castro, “max de castro” (trama) – mais ou menos à maneira de maria rita e los hermanos, max introjetou em 2006, num disco de humor sombrio, introspectivo, de tons graves, de certa impressão de desesperança (mais em barulho no brooklin: um samba para todos).

meirelles e os copa 5, “esquema novo” (arte clara/dubas música/universal music) – meirelles foi, é & será o coringa por trás de invenções como jorge ben, samba-jazz & o samba-jazz de jorge ben. precisa complementar?

moacir santos, mario adnet e zé nogueira, “choros & alegria” (adnet música/zenog/biscoito fino) – na mesma linha, moacir é crucial como meirelles, e, como se não bastasse, é negro. mesmo limitado por questões de saúde, continua dando asas à criação. precisa complementar?

moisés santana, “terra em trânsito” (lua music) – pop bem brasileiro, tropicália, pós-tropicália e participações (pós)tropicalistas de arnaldo baptista & maria alcina.

mônica feijó, “sambasala” (independente) – de recife cantando para o mundo, mônica aborda o samba, mas sob ponto de vista essencialmente pernambucano. mais conhecidos como criadores de mangue bit & adjacências, os sambistas da massa reunidos por ela se chamam fred zero quatro, ortinho, junio barreto, roger man, felipe s, fábio trummer… é o regime de cotas querendo vigorar também no gênero brasileiro por excelência, mas radicado carioca por supremacia e exuberância.

moraes moreira, “de repente” (rob digital) – na contramão das rotas 2005 de alceu valença, elba ramalho & dominguinhos, moraes moreira optou pela fusão entre modas & tradições – é por isso que o bom & gostoso baião-de-dois renasce rebatizado “baião d2”. a bênção, filhote marcelo d2.

nação zumbi, “futura” (trama) – “hoje, amanhã e depois” é uma das grandes músicas de 2005, abrindo um disco todo ele redondo & inspirado. o mangue bit já vira história, sem acumular poeira, e o botão de sintonia fina é o de fusões cada vez mais profundas, cada vez mais harmoniosas, como se jorge ben, burt bacharach, roberto carlos, serge gainsbourg, nancy sinatra, marcos valle, doris monteiro, beck, arnaldo & rita, björk, lou reed, tim maia & mais uma porção de gente estivessem morando em comunidade na e fazendo serenatas pela veneza brasileira.

naná vasconcelos, “chegada” (fábrica/azul music) – irmão de erasto vasconcelos, naná é em si a paisagem musical pernambucana, na pororoca entre a tradição & a modernidade. assim é, como de costume, o rico & anárquico “chegada”.

nereu, mocotó e swing, “samba power” (yb music/tratore) – dentro do trio mocotó, o incrível pandeirista de grave & zombeteiro vozeirão nereu é bamba inconteste do samba-rock. em aventura solo, ele surpreende e, com intensidade antes não notada, se vira de frente para a tradição do samba “puro”. e vira bamba do samba-samba, era só o que faltava.

nilson chaves, “maniva” (outros brasis) – patrimônio humano-pop-cultural do pará, nilson comemora a si próprio sob produção do incansável catalisador cultural zeca baleiro, por sobre musicalidades das finas profundidades brasileiras & entre convidados como celso viáfora, ceumar, chico césar, edmar da rocha, flávio venturini, jean garfunkel, moska, vital lima, zeca baleiro. a gente do brasil afora começa a ter mais acesso, benditos sejam o acréscimo de amor próprio, a melhora de auto-imagem, a lapidação de auto-estima do povo paraense.

nilze carvalho, “estava faltando você” (finaflor/rob digital) – arejando-se, o samba volta a se tornar mais e mais feminino (a bênção, clementina, clara, ivone, beth, alcione, leci, jovelina…). o coro de novas pastoras que vêm reivindicar o direito de ocupar o centro do palco é protagonizado por teresa cristina (presente também em 2005, infelizmente apenas com o ao vivo quase-redundante “o mundo é meu lugar”) e por esta bela e serena nilze.

nuno mindelis, “mindelis apresenta: outros nunos” (gravadora eldorado) – onde tudo que é bacana se mistura, o blueseiro nuno mindelis quebrou as barreiras dos sons e ultrapassou as fronteiras dos estilos num momento de atordoante polifonia (mais e melhores detalhes em outros rumos, novos nunos, todos os olhares).

os the darma lóvers, “laranjas do céu” (independente) – psicodelia impopular gaúcha, “laranjas do céu” acolhe rock rural, mutantes em fase progressiva, a suavidade de azimuth & marcos valle, climas viajandões, lirismo místico, um borbotão de esquisitices. “fantástico”, uma paródia sarcástica (mas séria) ao dito cujo, é fantástica. o resto do disco também é.

osvaldo pereira, “as árvores” (dubas música/universal music) – samba elegante, melódico, jovem & antigo, seguro. esse não morre, nem sequer agoniza.

parteum, “raciocínio quebrado” (trama) – irmão menos conhecido de rappin’ hood, parteum começa a jornada, sob arranjos sofisticados, certa insegurança, ímpeto criativo, a voz dos excluídos bradando cada vez mais potente, até que enfim.

pato fu, “toda cura para todo mal” (rotomusic/epic/sony & bmg) – a usina inventiva de belo horizonte segue a todo vapor, já conversamos sobre isso no blog, com entusiasmo & empolgação, em pato fu & o sítio do picapau verde-amarelo.

patrícia ahmaral, “vitrola alquimista” (independente) – a mineira por vezes pende ao careta na interpretação, mas os textos & autores (raul seixas, fernanda takai, zeca baleiro, ela própria, edvaldo santana, suely mesquita, pedro luís…) reunidos desvendam um faro raro, de compromisso com a atualidade. não chegassem aos ouvidos de tão poucos, os versos já antigos de walter franco em “mixturação” poderiam definir com desenvoltura o brasil convulso de 2005: “eu quero que esse teto caia/ eu quero que esse afeto saia“. pois o teto não caiu?, o afeto não saiu?, não estamos todos ao ar livre?

pierre aderne, “casa de praia” (santa música/distribuidora independente) – bossa nova nada dogmática, delicadeza, melodia, redes colaborativas entre os novos cariocas (com participações de rodrigo maranhão, domenico, adriana maciel, alexandre moreira do bossa cuca nova…), melancolia, suavidade.

pitty, “anacrônico” (deck disc) – como ela mesma sabe, seu rock baiano pesado guarda algo de anacrônico. mas o tempo é de reemancipação feminina, de revalorização da música & do rock que vão além da mera linha de montagem, e pitty é, sim, vitamina para tudo isso.

preta gil, “preta” (geléia geral/universal music) – preta é o lado b de pitty, como pitty é o lado b de preta. sendo mais desbocada e menos paciente com as convenções que a conterrânea, preta é menos levada em consideração como moça séria pelos brasileiros embotados por convenções e preconceitos do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. entre tais brasileiros talvez se inclua a própria filha “fútil” do ministro “profundo” do minimistério, mas essa menina pós-baiana tem recado à beça a proclamar, se você quiser ouvir-enxergar, a bênção maroca, poroca, indaiá.

la pupuña, “belém – pa” (independente) – o surf rock caribenho-brasileño do grupo paraense circula, por enquanto, num mini-cd ultra-exclusivo e mega-restrito – mamão papaia com palmito melado para quem acredita que a quantidade não é a alma do negócio.

quinto andar, “piratão” (quinto andar/l&c editora) – lançado na revista “outracoisa”, de lobão, “piratão” é um primor de hip hop funkeado em modos & moldes zombeteiramente cariocas, de crítica sócio-político-econômica, de enfrentamento aos vícios prediletos da indústria músico-político-cultural (preguiça, jabá, caixa 2, mensalão, manja aquela coisarada toda que te querem fazer acreditar que foi inventada por ali babá na terra do axé?). divertido de montão.

rappin’ hood, “sujeito homem 2” (trama) – se o samba se areja e se espalha soberano por outros territórios, muito disso ele deve a seu grupo caçula de filhotes, sob o guarda-chuva do hip hop. dentro desse, rappin’ hood tem lugar de mestre-sala & porta-estandarte, desde há um tempão. “sujeito homem 2” solidifca a saída do rap de diversos armários, misturando-se com a tropicália de caetano & gil, com a antitropicália de geraldo vandré & jair rodrigues (“disparada rap” é o máximo), com o samba duro de arlindo cruz (“muito longe daqui”, espetacular), com os pops-brasil de zélia duncan & claudio zoli… infelizmente, o sampling fulminante de “a história de um homem mau“, de roberto carlos, restou inédita, por conta das idiossincrasias proibitivas do “rei” – um dia o decreto de ocultação há de ser revogado, ah, se há.

roberta sá, “braseiro” (mp,b/universal music) – como no caso de céu, o grau de desdiferenciação em relação a marisa monte age como complicador, mas roberta sobrepuja bons obstáculos. o conglomerado atemporal abarca marcelo camelo, rodrigo maranhão, teresa cristina & pedro amorim, pedro luís & a parede (“no braseiro”, segmento-chave do cd), lula queiroga, paulo césar pinheiro, ney matogrosso, paulinho da viola, hermínio bello de carvalho, mpb 4, chico buarque (numa versão xaroposa de “pelas tabelas”), janet de almeida, dorival caymmi…

roberto carlos, “roberto carlos” (amigo records/sony & bmg) – primeiro foi rappin’, depois veio roberta, agora é roberto. o “rei”, ah, o “rei”… bem, o “rei” ex-rei do iê-iê-iê gravou a guarânia paraguaia-brasileira “índia”, um passinho a mais para o (auto)reconhecimento de que ele, roberto carlos, é mesmo o mais brasileiro de todos os brasileiros. a estrada é comprida.

rolando boldrin e renato teixeira, “rolando boldrin-renato teixeira” (kuarup discos) – o que ainda é custoso para roberto vem com a facilidade de um 2 + 2 para rolando e renato. regras e timidezes e caretices à parte, o brasil de dentro exulta nessas re-versões de “vaca estrela boi fubá” (patativa do assaré), “zé ponte” (lupicinio rodrigues & felisberto martins), “chico mineiro” (tonico & francisco ribeiro), “três nascentes” (joão pacífico), “minha história” (joão do vale & raymundo evangelista), “ventania” (geraldo vandré & hilton acioli), mais luís peixoto, volta seca, chico buarque, boldrin, teixeira, almir sater…

ronei jorge e os ladrões de bicicleta, “ronei jorge e os ladrões de bicicleta” (independente) – mais rock visceral baiano, agora em versão masculina (a bênção, pitty!). destaque especial para a deliciosa “daikiri”.

sandra peres e paulo tatit, “pé com pé” (palavra cantada/mcd) – vanguarda paulistana, mais poesia, mais ternura, mais música responsável para a criançada: bingo!

seu jorge, “the life aquatic studio sessions” (hollywood records/universal music) – a burguesia reativa instalada nos corações e mentes da imprensa musical e da “sociedade civil” do brasil diz “não” dia sim dia não ao sempre marqueteiro, sempre extraordinário seu jorge. a desculpa, desta vez, é a “profanação”, sob letras simplórias, dos clássicos de art rock bissexual de david bowie (o que antes era pansexual agora virou também bleque pau, cê tá entendendo que a transgressão resiste?). ora, mas o que seria do pop-rock se ele cessasse de profanar? seu jorge é que, isto sim, mantém bowie, hollywood & o brasil vivos com um mínimo de dignidade, o resto é uma dose algo exagerada de puritanismo, intolerância e (falso) moralismo. abaixo as ditaduras.

silvério pessoa, “cabeça elétrica coração acústico” (luni produções) – missão difícilima era suceder o êxtase do transgressivo “micróbio do frevo” (2002), o que ensombrece a audição do disco seguinte do ex-líder extra-mangue bit do cascabulho. seja como for, o coração agreste de “cabeça elétrica coração acústico” assegura novas, supimpas & abundantes emoções.

os skywalkers, “zenmakumba” (baratos afins) – nascido no coração da zona leste paulistana & filtrado no nervo exposto do centrão da cidade, pela empolgação amorosa do selo-loja de luiz calanca, “zenmakumba” tenta radicar anarquia & diversão na (quase) sempre sisuda e reacionária megalópole. o que há de imaturo e cru no som dos três meninos e uma menina não se oculta na audição, mas perde de lavada para o que há de vigoroso & entusiasmado em canções como “cores de domingo”, “papo furado com irene” & “irene caiu”, a sarcástica & autocrítica “a garota do sábado à noite” (“a banda tocando é boa, mesmo assim irrelevante/ todo público é artista, jornalista ou aspirante”), “27 ou quem quer ser kurt cobain?”, “são jorge na lua”… a tropicália é o mote, sob caudalosas citações a caetano veloz & kurto cobain & jorge bastante ben & etc. e tal – mas o alto grau de originalidade surge do fofo sincretismo, musical, religioso (candomblé branco-moreno espalhado pelo cd, viva!, é a zona leste espanando também os seus armários) & ideológico.

sonic junior, “pra fazer o mundo girar” (mundo perfeito) – grooves & eletrônica & pop brasileiro à moda alagoada, sob filtro paulistano. e bacanudo, especialmente em “pulsar”.

tara code, “azul e roxo” (tratore) – esquisitice eletrônica baiana, áspera e difícil, tara code é o reverso transverso seja de pitty, seja de preta, seja de ronei jorge. desconstrução proto-eletrônica nativa, tesa e retesada, a liga entre andréa may & gilberto monte é o reverso do reverso do reverso de bruno verner & eliete mejorado, da entidade tetine, do brasil eletrônico-conceitual que foi morar em londres.

tetine, “bonde do tetão” (bizarre) – mais londrina que nunca, a dupla paulista-mineira volta às mais transgressoras e subversivas das próprias origens e se apaixona perdidamente pela brasilidade impura do funk carioca. na versão tetine, a ousadia sócio-política do povo carioca que vive mais perto d(a cidade d)e deus é retrabalhada em ainda mais protesto psicossexual – e, mais que nunca, é preciso ter peito forte para tomar de frente o ideário, a musicalidade & a rebeldia do tetine.

thedy corrêa, “loopcinio” (orbeat music) – a obra cafona & genialmente musical de lupicinio rodrigues erige um capítulo constrangedor na história da música popular brasileira, se nos detivermos no ultra-romantismo vingativo, misógino e autodestrutivo de seus textos – e se concedermos nos mirar como o brasil que “caminha a passos largos para ser dono do seu nariz” de que fala el presidente lula. dito tudo isso, ainda soa construtiva a subversão do velho gaúcho pelo astronauta de mármore (também gaúcho) thedy, sob loops às vezes legais, às vezes datados, sempre emotivos. afinal, como haveríamos de superar nossos ímpetos autodestrutivos, se não os conhecêssemos de frente, de peito forte & aberto?

tom zé, “estudando o pagode – tom zé na opereta segregamulher” (trama) – transbordante de contradições, conflitos, contextos & questões conhecidas de peito forte & aberto & frontal, o trabalho mais recente de tom zé é um jorro de expressividade, de referências encontradas & desencontradas, de riqueza textual-musical-política-ideológica, de confronto afetivo. a tropicália assimilada pelas multidões (ou, ao menos, pelas multidinhas) continua sendo a de caetano & gil, enquanto tom zé segue tomando na testa pechas como as de excêntrico, tortuoso, chato, complicado, experimental “demais”. mas, ah, se caetano & gal & gil & rita acalentassem por dentro o mesmo tanto de chama criativa… bem, antes que eu me esqueça: de chato “estudando o pagode” não tem nada, nada, nadinha. é um trovão, salve-se quem puder/quiser, dê-lhe ouvidos moucos quem quiser/puder.

totonho e os cabra, “sabotador de satélite” (trama) – o paraibano arretado totonho é um discípulo de tom zé, no aspecto de quão intrincado, complexo, difícil, contraditório, rico & de difícil assimilação parece o material musical que oferece. eu sigo estudando os pagodes de totonho aos pouquinhos, enquanto ainda não consigo emitir uma opinião segura sobre que tal são tais peças pós-pop pós-nordestinas. mas, vá lá, um palpite feliz & irresponsável? eles são do balacobaco.

uakti, “oiapok xui” (natura musical) – a bênção, pai milton nascimento. a bênção, tribos & percussões. a bênção, povos das florestas, das cidades & das gerais.

velha guarda musical de vila isabel, “sou velha guarda, muito prazer…” (mza music/universal music) – não vou chover no molhado: sobrepujando as conhecidas adversidades, a velha guarda musical da escola de samba de noel (da rosa) & martinho (da vila) lançou um disco. viva.

zeca baleiro, “baladas do asfalto & outros blues” (mza music/universal music) – demorei imensamente a conseguir ouvir sem óculos ou máscaras este disco daquele que considero o popoeta mais interessante do brasil pós-anos 90. um pouco à maneira de los hermanos, maria rita, max de castro etc., parecia tristonho, desanimado, derrotista, submisso aos clichês que nos assombraram depois que roberto jefferson ousou dizer seu nome. ouvindo as baladas de zeca agora, quase um ano depois, elas soam ainda daqueles modos, mas, ah, quanta beleza & justeza & acerto & alívio foram brotando por entre elas à medida que os meses & o surto foram passando…

zeca pagodinho, “à vera” (mercury/universal music) – embora amplamente eficaz, o formato embalsamado dos pagodinhos de zeca às vezes exasperam, impacientam, amortecem. “à vera” não foge muito à regra, mas é pena que tenha passado em brancas nuvens, por um lado, o encontro democrático com jorge aragão, marcelo d2 & seu jorge, em “zeca, cadê você?”, e, por outro lado, o discurso assustador, de defesa e proselitismo do alcoolismo e do mercantilismo tipo brahma (ou schin, vai saber…), em “dona esponja” e “ninguém merece”. pelo que encerra de contradição, essa última poderia virar mote para debate nacional. não virou.

zélia duncan, “pré pós tudo bossa band” (mercury/universal music) – zélia segue em frente, compenetrada na tarefa libertadora de se transformar em muitas, em todas, nela mesma. o formato híbrido, de quem se anda embrenhando sem timidez pelo samba antigo, pelo ideário de itamar assumpção, pela herança de simone e/ou pela substituição de rita lee nos mutantes, compõe a espinha dorsal de “pré pós tudo bossa band”, prenhe em releituras & parcerias de & com lenine, moska, itamar, mart’nália, pedro luís, lucina, alice ruiz, guerra peixe,, beto villares, lulu santos etc. todo(a)s cabem dentro & ao lado de zélia.

vários, “ainda somos inúteis! – um tributo ao ultraje” (migué records/monstro discos) – sintonizado com o espírito do tempo, uma homenagem da estirpe do tributo às ceguinhas de campina grande, da estirpre do tributo a odair josé (esse só foi sair em 2006, espera aí, que já, já a gente chega lá). mais em ainda somos inúteis?. não somos mais inúteis?

não somos!!! olha aí para cima, quanta coisa, enquanto você(eu) fic(o)a o tempo todo resmungando da pasmaceira da música brasileira & da cultura brasileira & da política brasileira & da sociedade brasileira. será que é mesmo assim?, ou você(u) é que não está(ou) enxergando bem? viva a faculdade plena de tato-audi-visão!, a sua bênção, maroca!, poroca!, indaiá!

[ei! quem eu esqueci?! quem eu deixei de fora?! me ajuda?!]

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