então os tremoços vieram à superfície do planeta parado. uma legião todinha deles. uma coletividade. uma população.

os tremoços inauguraram sua existência na terra em alta estica, fazendo bonito. chegaram arredondados e discóides, algo assim como discos voadores brotado das profundezas da terra fofa. eram amarelados e rosados, algo assim como moluscos dentro da casca, ou cascas sem molusco dentro. eram macios por dentro e plastificados por fora, algo assim como um danoninho com o valor nutricional de um bifinho, protegido por uma cápsula de pílula, ou de vírus.

eram uma graça os tais tremoços. formavam a mais nobre de todas as colônias.

vistos macroscopicamente eram, no entanto, todos idênticos uns aos outros, os tremoços. uma planície de tremoços. uma monotonia amarelada e molhadinha. um samba de um nota só de casquinhas ploct, suquinhos salgadinhos, polpas crock crock.

logo a uniformidade se pôs a gerar controvérsias, pois, como se sabe, a igualdade é o fermento e o fomento de toda desigualdade.

e os tremoços, rebeldes, deram de se modernizar. avante!, empenharam-se por fugir à mesmice, à pasmaceira, à bruta desdiferenciação que os massacrava e os tornava, cada um deles, invisíveis no exército-multidão de tremoços anônimos.

a diversidade das espécies brotou em todo o viço, não sem o auxílio loquaz de cada um dos tremocinhos em fogo. surgiram tremoços e tremoças de todos os sexos. o planeta tarado entrou em movimento de frenetic dancin’ days.

do ímpeto violento pela diversidade, surgiram tremoços arredondados sem as bordas discóides, e esverdeados da cor da grama. disseram-se ervilhas, esses tremoços, pobres tremoços redondinhos.

outros empalideceram, ganharam hastes, adquiriram firmeza nipônica, encorparam consistência sexual. em fuga resfolegante da antiga identidade sem-gracinha, autobatizaram-se champignons.

corados de vergonha do vexame orgiástico que vira-lateava a patuléia tremoçéia, outros estufaram-se, ficaram túrgidos, encheram-se de sementinhas por dentro: tomatinhos-cereja, que até nomes compostos os tremoços em fúria já copulavam.

subprodutos da fase vermelha-tomate, outors se encheram de rugosidades e, espremidos de tontura mareada, voltaram a esverdear: repolhinhos.

mais excêntricas, repolhinhos enrugadinhos optaram pelo botox e pelas formas mais obtusas, rombudas, daquelas de causar escândalo aos tremocinhos que resistiam impávidos-moralistas ao espetáculo da diversificação dos seres viventes: azeitonas.

adeptas do exercício físico e detratoras de pitanguy, tremoças coradinhas de sol malharam os corpos em formas moduladas, maleáveis, ardidas feito pimenta: pitangas, pitangos, azeitonos intumescidos daquilo roxo.

e de repente eram tantos, tantos, tantos. acerolas. lentilhas. uvas verdes & roxas, sedentas por virarem vinhos. casulos ocos lotados de bichos-da-seda, futuras borboletas. ovinhos-de-codorna. ameixas pálidas & ameixas ressequidas de sol. feijões brancos, pardos e pretos. gergelins. grãos-de-bico. grãos estouradinhos de milho maduro, já saudosos da espiga-mãe. cabeças de alfinete. bolas de gude. olhinhos saltados de pequineses, shitzus & lhasas. porcas à caça de parafusos. tantos, tantos, tantos.

milícias mais redicais já partiam rapidamente para a gana de afrontar as cores & os gostos & às padronagens a que mesmo tremoços mais moderninhos ainda se apegavam.

foi daí que, bronzeando-se até o marrom e adoçando-se até o açúcar mascavo, um grupo ainda discóide de tremoços fundou a dinastia dos confetes.

foi de lá que, carnavalescos e apaixonados por cores as mais berrantes, confeitos-confetes tingiram-se de todas as cores do arco-íris, & outras mais: m&m’s. gomas de mascar. chicletinhos adams (quadrados!!!). camisinhas-de-vênus ainda não desenroladas. suspiros de gema e de clara de ovos.

pronto, estava definitivamente descaracterizada a existência do tremocismo enquanto pedigree. o que ia acontecer daqui por diante ninguém se atrevia a prever. mas é sabido que, em pleno vigor e governo da diversidade, sementes de igualdade já pulsavam fermentando, fomentando no caldo nutriente viscoso da desigualdade. sem saber que dançavam no ritmo dos séculos, os tremoços eram sístole, eram diástole, e assim seriam assim até a contração definitiva do tremoção chamado universo, da tremoçona ovalada-espiralada dita via láctea.

se outrora seus pais se indignavam com o claustro eterno da uniformidade, os pós-tremoços de agora adquiriam o vício de se coçarem de aflição a cada vez que se deparavam na rua com um tremoço ou tremoça pertencente a outra tribo, muito diferente-divergente deles próprios. mal-estar, raiva, rivalidade, competição, agressividade, violência. os discóides xingavam os verdes, que espezinhavam os vermelhos, que maltratavam os rombudos, que tremiam de medo das metamorfoses mutantes chamadas melancias, que esmagavam indefesas bundinhas de formigas içá.

o caos. os muitos gêneros e subgêneros de tremoço guerreavam uns com os outros, substituindo lascivia por violência, muitas vezes esquecidos de que eram, antes de tudo, tremoços.

até que, em pleno reinado da discórdia, num belo e cinzento dia apareceu na superfície do planeta pirado a menina que tinha fobia de bolinhas.

sim, você há de rir do ridículo da situação. mas tente se colocar no difícil lugar da menina. apaixonada por alfaces, iogurtes, bifes de bisteca, aipos e picanhas, a menina com fobia de bolinhas não podia entretanto ver pela frente uma bolinha. como é óbvio e ululante, sofria intensamente com a hiperpopulação de bolinhas por sobre o planeta redondo.

descobrira a fobia comendo, é claro, comendo um mero tremoço mortiço qualquer, ou quem sabe uma colherada gulosa de ervilhas. mesmo redondas, as ervilhas desceram quadradas, raspando a garganta, causando uma revolução interna que nem a menina nem ninguém mais conseguia entender o que era. nunca mais a menina colocou uma bolinha na boca, prometeu resistir bravamente à avalanche de bolinhas, feito cascão recusando teimosamente o banho de chuveiro.

mas era um martírio. era ver qualquer comida em forma de bolinhas e a menina já se punha a suar frio, a decidir num piscar d’olhos redondos se vomitava as bolinhas que nem comera ou se saía correndo do exército de bolinhas deletérias que pululava o planeta lotado. mesmo sem comer, perdia minutos e horas e dias imaginando a invasão rolante, goela abaixo, de tomatinhos, limões cascudos, mussarelas de búfala, bolas de pêlo que o gato engoliu e depois desengoliu, amoras, morangos, cerejas, framboesas.

após inúmeros enjôos, náuseas, vômitos, olhos tapados, pesadelos e fugas, entendeu que não era mais possível continuar assim. as bolinhas atormentavam dia e noite, mesmo as não comidas. era enfrentar a fobia ou viver para sempre numa matemática maluca de evitar a bolinha que indevitavelmente vai aparecer fazendo careta na próxima esquina.

o único modo de a menina com fobia de bolinhas deixar de ter fobia de bolinhas era, (com o perdão da redondeza do termo) bingo!, enfrentar as bolinhas de bocão aberto, bem redondão.

e a menina enfrentou. e foi o maior extermínio de tremoços a que o planeta pálido jamais assistiu. a menina saiu desabalada devorando azeitonas, bulbos de alho, sementes de girassol, cebolas, cebolitos, pingos d’ouro, antepastos de manteiga, laranjas, limas, carambolas (pois até a bola dita dentro da palavra embolava o estômago), tatus-bolinha, besouros rola-bosta, coquinhos, bagos de fruta e de bicho, coquinhos. e, naturalmente, indo com fome ao pote-origem de todas as espécies, os nobilíssimos vovôs tremoços aos montões.

nunca houve tamanho alvoroço entre os tremoços do meu brasil. aqueles que não eram engolidos para depois voltar à terra na forma de tremoços digeridos perceberam que era tempo de guerra, tempo de agir. os que escapavam à sanha tremocicida da menina com fobia de bolinhas se desprendiam às centenas dos galhos d’árvore onde haviam se trepado para escapar de quem mais tinha medo deles. e começaram a chover, chover, chover. mór temporal.

choveram tremoços, ervilhas, azeitonas, mamonas assassina(da)s, gotas d’água, flocos de neve, grãos de gelo, nozes, castanhas, avelãs, cágados, tartarugas, jabutis, m&m’s, tudo quanto é tipo de bolinha choveu do céu naquele dia de clímax.

era a salvação da lavoura. aconchegados no adubo fofo, tremoços destroncados de todas as espécies e tamanhos e cores e sabores debulharam-se, germinaram, fizeram-se lulinhas brotados do chão. germinados, deixaram escapar de dentro de si próprios a fibra. fizeram-se árvores. reproduziram aos milhares novos caquizinhos, abobrinhas, amendoinzinhos, aspirinas, melõezinhos, pontos, vírgulas, reticências etc. etc. etc.

reagrupados provisoriamente em torno da ameaça comum e maciça que lhes parecera a atitude feliz da menina, de reinventar sua própria vida, os tremoços pós-modernizados esqueceram por ora de guerrear uns com os outros. da chuva de bolinhas, um novo ciclo de paz se ergueu, franco período manso e produtivo de entre-guerras. e os tremoços e as tremoças foram viver despreocupados das diferenças que pareciam agora até bobalhonas, felizes para sempre, até o próximo soluço. enquanto isso, foram aprender espírito democrático, coexistência pacífica, irmandade, tolerância. tolerância. tolerância.

a menina? a menina seguiu sem entender por que tivera fobia de bolinhas, mas nunca mais teve fobia de bolinhas.

já septuagenária, num belo dia azul, a menina-moça-senhorinha-senhora quis se certificar dos avanços tecnológicos que habitavam o planeta hipertrofiado e providenciou um exame de dna. queria saber de onde viera, quem era, para onde iria – não custava tentar. e, toda assim sem querer, acabou por descobrir de chofre a razão misteriosa da fobia de bolinhas que tantos anos atrás a levara ao quase-desespero: segundo desvendou o dna, a menina com fobia de bolinhas era tremoço também.

[p.s. 1: o exercício acima atende ao desafio lançado por marcia e por madamada (e já abraçado por vange), de que se instale por aí uma corrente de tremoços e de que quem conte um conto aumente um ponto, quero dizer, uma bola, quero dizer, um tremoço. repasso adiante o desafio a todos os blogueiros amigos do nosso blogsil, sonhando com uma torrente de contos tontos & delírios-colírios de tremoços remoçando a blogosfera. avante!]

[p.s. 2: defini a personagem principal como “menina” porque sou “menino” medroso, fugidio, e porque assim, na forma de “menina”, me foi contada a história da menina com fobia de bolinhas. mas, evidentemente, a “menina” com fobia de bolinhas É o “menino” com fobia de bolinhas – porque, afinal, os tremoços e as tremoças foram, são e serão, sempre, todos iguais em sua infinita diversidade.]

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