e então falávamos de tipos e tipos de pop stars. de modelos semelhantes & diferentes, de misturas, de onde/quando/como/por que tudo se mistura. abordamos a novata maria rita. enfrentamos o veterano netinho. e eu fiquei de chegar a um terceiro exemplo, a uma terceira torre, a uma terceira casa. então eis aí. “carta capital” 363, de 12 de outubro. dr. luís maurício pragana dos santos. ou melhor, lulu santos.

LULU, O POP STAR
Sucessos, rotina, agrados, rusgas com animadores de tevê, CPIs: não é assim tão fácil a vida de um astro popular

Por Pedro Alexandre Sanches

Soem as trombetas, vai se pronunciar sua excelência, o pop star: “Eu sou o melhor surfista da minha rua/ não tenho saco para escola/ minhas notas sempre são vermelhas“. O tempo passou tão de repente e hoje Lulu Santos já tem 52 anos, mas sabe que a ode à juventude é um dos artifícios indispensáveis para quem quer “virar um astro” (como diz a letra da canção acima, recém-gravada por ele) e para os figurinos corriqueiros da cultura pop.

Dom Lulu repete há contados 20 discos o ritual de tornar assoviáveis canções genialmente simples como Adivinha o Quê, Como uma Onda (Zen-Surfismo) (1983), O Último Romântico (1984), Sincero (1985), Toda Forma de Amor (1988), Apenas Mais uma de Amor (1992), Assim Caminha a Humanidade (1994)…

Mas os afazeres por trás do bel-prazer constroem um outro ritual, por vezes circular como um disco furado: compor novo repertório, gravar CD, apresentá-lo à imprensa, divulgar-se pelo rádio e pela tevê, ouvir rapapés, receber críticas, espalhar-se por ciganas turnês… E, não, ele diz que não se cansa dos movimentos repetitivos do monjolo: “A gente está acostumado, tem um mapa para fazer. Isso é zen-surfismo, o que se pratica aqui. A gente tem nos tornozelos e no quadril um jogo”.

Refere-se com simpatia à lida de se autopromover nas rádios, da qual diz que se afastara nos últimos oito anos, como fez nesta tarde que termina numa entrevista hoteleira para uma revista. “O nível das pessoas, dos jovens, dos que vieram duas gerações depois que comecei isso, melhorou muito. Hoje fiquei muito impressionado, porque tive um dia de rádio que não posso dizer que tenha sido desagradável.”

Define a experiência atual como diferente da antiga “caitituagem”, termo que pesca do passado com carinho agridoce: “É lindo esse termo, caitituar, a pessoa ir pedir ao radialista para tocar a música dele com simpatia, agrados. Isso está hoje evidentemente profissionalizado, num nível em que os agrados passam por cima da cabeça da gente, às vezes por cima dos pés”.

A rotina de bastidor oprime menos que no passado, porque, afirma, já se livrou de alguns dos desconfortos do ritual. Abdicou, por exemplo, de depender da vitrine global do Domingão do Faustão para difundir sua imagem. Fez isso por intermédio de uma carta aberta publicada em seu site em 2003, em que criticava a rispidez e a grosseria como, entendeu, o animador Fausto Silva havia interrompido sua apresentação.

“No meu primeiro encontro com o novo presidente da minha gravadora (Alexandre Schiavo, da Sony & BMG), na notória pizzaria Capricciosa, ele chegou, sem eu conhecê-lo, e disse: ‘Olha, Lulu, eu queria lhe cumprimentar pela sua atitude naquele programa daquela pessoa, alguém com seu cacife precisava fazer isso’. Esse retorno, das pessoas que dizem ‘ah, você falou o que todos nós queríamos dizer’, é diferente do retorno popular, e é um reconhecimento de que, realmente, tudo tem limite.”

“Era um pouco a mensagem que eu queria passar: por favor, não me desrespeite como forma de entretenimento”, arremata dom Santos, astro pop de légua tirana. “Senti certa tomada de posição de outras pessoas em relação ao que estão a fim de agüentar em termos de indignidade para poder promover seu trabalho.”

Pois, se “dignidade” entrou na roda-ciranda, é forçoso perguntar ao “macaco velho” como vê um episódio que causa frisson nos bastidores atuais da música pop, o do “presente” com que a gravadora Warner agraciou jornalistas que entrevistaram Maria Rita na apresentação do segundo álbum da cantora: um iPod, aparelho vendido no Brasil por preços que variam de R$ 562 a R$ 1.190.

“Quem iPod, iPod, quem não iPod se sacode”, proclama o pop star. “Mas me pergunte sobre minha ética, não sobre a dos outros.” E na sua ética, se sua gravadora fizesse o mesmo, Lulu Santos? “Eu não sou a gravadora. Ela não me representa. Ela processa o meu produto cultural. E o máximo que eu faço é me submeter.” Ela não é co-participante de tudo o que envolva seu produto? “Não sou responsável pela promoção do meu produto.”

Não seria escapismo, esse isolamento do dono da bola e do palco? “Todo mundo sabe que a prática das indústrias é tratar bem, se puder, a quem for interessante tratar bem. Você agracia. Por outro lado, não me parece que isso seja escuso. É ilegal, antiético? Eu não acho.”

Se a entrevista parece tomar rumos de CPI, caberia um paralelo entre outros pop stars – os da política – e a classe de quem hoje revoga o “eu vejo a vida melhor no futuro” do primeiro sucesso (Tempos Modernos, de 1982) e canta, em versos lúcidos do álbum Letra & Música, que “hoje acordei duvidando que o futuro vai mesmo nos endireitar/ porque, no duro, tudo depende de hoje o que a gente faz“? “Não, não. A política é a coisa pública, não é a coisa privada. Não é o que você faz com o lucro, de que forma você compra o seu lucro. Por que a gente vai só demonizar o corruptor, não o corrompido?”, rebate.

Sobre a postura da imprensa, que seria o lado “corrompido” nessa hipotética CPI, a estrela pop prefere o resguardo (“aí é contigo”). Mas dialoga de raspão com o Lulu que enfrentou Faustão: “Outro dia vi uma coisa do Financial Times que eu achava interessante, que a imprensa no Brasil julga. A imprensa no Brasil julga”.

O mal-estar é menor se o assunto são outras CPIs, as reais, as do Congresso Nacional. Porque, sim, este ídolo pop também já passou pela experiência de ser convocado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Era a CPI dos direitos autorais, que em 1995 investigava supostas irregularidades cometidas pelo Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad). Tim Maia já prestara depoimento desbocado contra gravadoras e arrecadadores de direitos, e chegou a vez de sua excelência, o cantor de Mondo Cane (1992), que depôs no mesmo dia de Waldik Soriano, de Eu Não Sou Cachorro, Não (1972).

“As notícias de jornais diziam exatamente as mesmas coisas que dizem hoje, que eu havia sido evasivo, que eu poderia ter sido preso por perjúrio. Deu margem a um colega cantor sertanejo dizer a frase que depois foi publicada em manchete, ‘Lulu Santos deveria ser preso’. Eu não sei em que estado de desarranjo pessoal eu estava na época que não consegui tomar uma atitude legal”, lembra.

Dez anos depois, ele se defende: “O mensalão ali foi à base de licitações de rádios FM. A CPI do Ecad era um grupo de deputados, provavelmente donos de rádios, querendo intervir num órgão não-governamental para cessar a arrecadação de direitos. Isso é uma coisa insana”.

A então advogada (atual superintendente) do Ecad, Glória Braga, hoje se vale de razões que a imprensa da época também abordou. “Tratou-se de um movimento de deputados donos de rádio e inadimplentes, todos do baixo clero. Alguns perderam seus mandatos ou não foram reeleitos. As seqüelas foram muitas, não apenas redução da arrecadação na época. Até agora o episódio é lembrado pelos usuários nos autos de ações de cobrança que fazemos. Nada ficou provado. Em vários estados foram instaurados e arquivados inquéritos sobre o assunto. Ninguém foi indiciado.”

Lulu teve seu sigilo bancário quebrado e precisou explicar por que possuía em sua conta, então, R$ 86.720,94. “Falei ‘é, eu tenho, está aqui o recibo, para renovação de contrato com a gravadora’. Isso Fernando Collor me ensinou, que é melhor não ter caixa 2.”

Já que Collor também entrou na ciranda, sobre política mr. Lulu também se pronuncia. Diz que foi patrulhado em 2002 por não abrir seu voto e revela, com relutância, que votou em Lula. Reclama do governo, mas elogia o Brasil: “Este fim do mundo instalado dentro do governo também está instalado num patamar de lisura tão absoluta que garantiu que um operário fosse eleito presidente da República. O patamar institucional, na realidade, é muito elevado, há que se notar isso. Eu vejo a vida melhor no futuro”.

Sobre como seria esse tal futuro, faz uma cândida confissão, enquanto opina que “pobre da sociedade que não produziu uma elite”. “Eu quero ter um presidente da República que adore Lulu Santos.” Quem? “Aecinho, né? Aécio Neves.” Voltam as trombetas, o pop star se cala.

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