na quebrada da soleira, este blog já se deixou permear pelas vozes de intelectuais dedicados a examinar questões afeitas à situação das minorias, às lutas das minorias, aos avanços seguidamente obtidos pelas minorias nesta lavanderia chamada brasil.

foi assim que já habitaram estas quatro paredes virtuais teses, hipóteses e sínteses de helio santos, mv bill, luiz eduardo soares – helio versando sobre negritude, preconceito racial, abismo social; bill rimando negritude, preconceito racial, abismo social, desigualdade, violência; luiz eduardo refletindo sobre violência, desigualdade, abismo social, preconceito racial e sexual, política, polícia…

já não era sem tempo, acrescento agora o protagonismo do componente sexual inerente aos conflitos de minorias & maiorias silenciosas. para tanto, convoco para cá o pensamento de joão silvério trevisan, no já clássico “devassos no paraíso – a homossexualidade no brasil, da colônia à atualidade” (lançado em 1986 e revisto e ampliado após longa ausência para reedição em 2000 pela editora record). com a chegada de joão silvério, a discussão se amplifica para preconceito sexual, discriminação sexual, violência sexista, ideologia, política…

seu livro traça uma quase-história da homossexualidade no brasil, dos dias de inquisição e punição do brasil-colônia à sexualidade de consumo “guei” (como ele prefere grafar) dos anos 1990, atravessando um percurso demorado & doloroso, mas contínio & progressivo de suspensão de patrulhas morais, religiosas, policiais, sanitárias, psiquiátricas, médicas de por sobre a homossexualidade.

pioneiro brasileiro do ativismo homossexual desde os tempos do jornal alternativo “lampião da esquina”, o ex-cineasta trevisan peitou “devassos do paraíso” em plena era de treva, na fase de vigência mais aguda do panicoduto gerado pela aids. escrito no calor do horror, o livro deixa registradas resistências que talvez fossem causadas pela impossibilidade de admirar toda a paisagem anuviada dentro do espesso nevoeiro do aqui-agora da luta antidiscriminação – deve ser por isso, por exemplo, que o texto de joão silvério ainda se recusa a aceitar a validade e a legitimidade do comportamento bissexual.

em outros casos, a visão obnubilada pela luta sangrenta em pleno ato redunda em momentos de pura e comovente história – história do brasil, da política brasileira, da sexualidade, das minorias & das maiorias brasileiras. remeto especificamente a dois capítulos que colocam em fricção as origens do movimento homossexual brasileiro e do movimento político de esquerda pós-ditadura militar. os títulos (tristonhos) dos capítulos são “cooptação, institucionalização, diluição” e “um saldo melancólico”.

ali, trevisan narra os imbricamentos, na virada 1979-1980, entre polítca e militância sexual. documenta o nascimento do movimento gay local e os assédios de participação (e/ou cooptação mal-intencionada, segundo a visão ainda acuada dos anos 80) por parte de correntes esquerdistas trotskistas e stalinistas (por militantes não necessariamente homossexuais). relata a coexistência, até mesmo num ato público do dia dos trabalhadores no abc paulista, entre o movimento gay e o operariado em fase de forte articulação. estamos falando, se é que é preciso explicitar, do nascimento do partido dos trabalhadores.

descreve um cisma, uma diáspora, uma suposta sabotagem do movimento gay por parte dos comissariados de esquerda que então se estruturavam e profissionalizavam. não cita nomes, mas é automático deduzir que entre esses deveriam se contar caciques reconhecíveis do noticiário político-policial tucano/petista/comunista/socialista de hoje. às vezes persecutório, trevisan se lamenta de que os “cooptadores”, obsessivos na pregação de que o fim político deveria sobrepujar qualquer outro interesse humano, empurravam os militantes gays de então a uma situação-limite em que o prazer, o contato sexual e o amor já eram subordinados e marginalizados pelo dever da prioridade política.

não houvesse a luta política, teriam os militantes homossexuais trepado & amado mais nos anos 80? e os militantes políticos, esses que hoje dependem tanto de madame jeany corner, o que diriam a respeito disso?

parece-me curiosa a interpretação melancólica do autor sobre os resultados do embate político-sexual, provavelmente rascunhada nos anos 80 e revisada no final dos 90, quando as paradas gay ainda não haviam conhecido o processo de radical agigantamento que as enrijecem hoje, 2005. a rivalidade fratricida entre gays, esquerdistas e operários (entre minorias igualitariamente achatadas, reprimidas e perseguidas, portanto) aparece como fiel da balança e não vê, por trás da cortina maciça de fumaça, que desde as brigas entre semelhantes da origem até hoje, tanto o libertário movimento gay quanto as convicções políticas progressistas materializadas no partido dos trabalhadores se tornaram vencedores e assentaram lugar entre as hegemonias em construção do brasil anos 2000.

ambos os movimentos venceram, mesmo por sobre tanta divergência, rivalidade, incompreensão mútua e preconceitos recíprocos. teriam vencido com maior velocidade, se se tivessem assentado nos surrados princípios-irmãos de liberdade, igualdade, fraternidade.

continuam avançando entre passos largos, ainda que os teatros da birra se revalidem enquanto brigam feito adultescentes de pepeta no beiço lula, gabeira, bornhausen, severino, heloísa, jefferson, marta, serra, dirceu…

não fosse suficiente a intolerância recíproca praticada entre a política e a sexualidade (com flagrante desfavor para a última), joão silvério segue adiante na descrição de outro cisma, outra diáspora: o que caracterizou e caracteriza as relações periclitantes entre a militância gay e a militância intelectual. a considerar as palavras e experiências do autor, reprimidos eram os homossexuais pelos militantes de esquerda (heteros, bis ou gays), reprimidos foram os homossexuais pelos intelectuais (gays, bis ou heteros). liberação sexual manteve o status de tabu, ainda mais com o vírus-fantasma da aids tomando conta do pedaço e instalando o pavorduto entre gregos & tucanos, entre militares & paisanos.

é dessa discussão que quero extrair dois grandes parágrafos de “devassos no paraíso”, que parecerão esotéricos a quem não queira saber de petismo, homossexualidade, luta de minorias, luta de classes e o escambau, mas têm tudo a ver com dilemas vigentes e dominantes no brasil de 2005, este bebê que só agora está começandinho a aprender a necessidade política/humanista do respeito e da admiração desinvejosa pelo próximo. vai, silvério, vai:

“nesse universo espremido entre a cooptação política e a epidemia da aids, os temas debatidos pelo movimento de liberação homossexual brasileiro acabaram indo parar, direta ou indiretamente, em salas de universidades, na década de 1980. sobretudo nas áreas de sociologia e antropologia, instaurou-se uma tendência mais crítica ao liberacionismo guei, com base em referenciais teóricos típicos do período. na esteira das reflexões do francês michel foucault, sobretudo, esss estudiosos partiam do pressuposto de que o liberacionismo homossexual incentivaria a formação de uma ‘identidade guei’ e, portanto, estaria reinstaurando a função normatizadora dos médicos e psiquiatras, por colocar a sexualidade dentro de definições e categorias estritas. assim, sua crítica centrava-se contra a ideologia identitária, que levaria a uma nova compartimentalização e a uma nova forma de poder. esse debate alastrou-se entre os jovens universitários, mas não conseguiu apresentar propostas alternativas àquelas criticadas e que reorientassem as lutas pelos direitos homossexuais no país. ao contrário, o debate teórico contribuiu para minar as incipientes idéias políticas do abalado movimento homossexual, necessariamente fundado na construção de uma identidade possível. o mais próximo da prática que tais críticas conseguiram chegar foi a máxima: ‘não sou homossexual, estou homossexual” – ostentada como signo de modernidade em certos grupos de intelectuais gueis de então. ora, sinais emitidos compulsoriamente pela sociedade bastam para comprovar que, em contrapartida, não se pode estar heterossexual. ao contrário, a sociedade exige ser heterossexual e, portanto, impõe a heterossexualidade como padrão de normalidade. além das punições sofridas, alguém que esteja homossexual irá, na melhor das hipóteses, integrar a horda dos mendigos da normalidade – em busca, talvez, de um casamento de conveniência, como nos velhos tempos. não é de estranhar que muitos estudos de gênero produzidos no período resultaram em dissertações discutíveis e distanciadas da realidade, beirando a masturbação intelectual e levando à mesmice.”

“ainda assim, parece-me impossível uma adequada análise dos caminhos e descaminhos da homossexualidade tornada ‘questão’, no brasil, sem levar em conta os antropólogos e outros estudiosos de gênero que, receio eu, podem constituir uma nova elite do controle da sexualidade – especialmente em se tratando de um país onde a universidade costuma deter todo o acesso ao saber. aliás, por semelhante motivo, o poeta e ensaísta octavio paz dizia que os antropólogos correm o risco de se tornar os herdeiros diretos dos missionários católicos. apesar das justas críticas que se possam fazer aos rumos tomados pelo fragilizado movimento homossexual brasileiro na década de 1980, isso não justifica o menosprezo que certos antropólogos da sexualidade muitas vezes manifestaram, de modo quase hostil, contra o liberacionismo homossexual como um todo, talvez ressentidos diante de certa tendência antiintelectual comum entre os ativistas gueis de então. a verdade é que, protegidos pelos muros do saber universitário, tais professores acabaram ignorando as sutilezas e ricas contradições do ativismo guei historicamente realizado e tenderam a deixar de lado discussões importantes ocorridas em muitas de suas áreas, no brasil ou fora dele; a questão da autonomia política, por exemplo, e suas ressonâncias no universo das relações humanas e sociais. nesse sentido, receio que o titubeante movimento homossexual tenha tomado os rumos mais conformistas, na época, exatamente por causa da omissão de muitos intelectuais homossexuais, que preferiram não sujar as mãos, inclusive para não atrapalhar sua carreira universitária, e assim deixaram morrer à míngua propostas muito promissoras. se vários desses intelectuais chegaram a namorar e até mesmo privar com o movimento homossexual, é muito estranho que, fazendo a crítica do que vivenciaram, tenham se colocado acima da crítica. além do mais, ao fugirem do espinhoso problema da ‘identidade guei’ como o diabo foge da cruz, suspeito que tais estudiosos reproduziram um antigo pudor universitário e, com isso, o enrustimento como estilo de vida comum entre homossexuais de antanho. da minha parte, prefiro usar um argumento dos antropólogos contra médicos e psiquiatras, para lembrar que, assim como esses últimos, também antropólogos e intelectuais ‘participam ativamente na história do homossexualismo’ [peter fry e edward macrae]. seria saudavelmente subversivo se eles, enquanto homossexuais, vivessem essa história por dentro, de modo a se fazerem resolutamente sujeitos e não camuflados (porque pretensamente neutros) objetos de suas próprias análises. com certeza, é essa pretensa ‘neutralidade’ que tem mantido a homossexualidade trancafiada nos armários da universidade brasileira”.

engraçado, a omissão dos intelectuais sentida por trevisan desde os longínquos anos 80 parece ser a mesma moeda corrente da nova modinha de “denunciar” o “silêncio dos intelectuais” diante da suposta ruína do castelo petista. se, na curva de espaço-tempo de quase 30 anos, a omissão intelectual pode caber como fio unificador dos reclames dos pirracentos radicais da esquerda e da sexualidade, pode-se enxergar aqui um sinal de que os velhos irmãos às turras são bem mais parecidos do que dissonantes, não?

eis aqui onde eu gostaria de chegar, reivindicando o auxílio luxuoso de joão silvério trevisan. se tratada como pretenso compromisso de “neutralidade”, a manutenção, por qualquer pessoa, de zonas-tabu em sua identidade (sexual, física, racial, moral, social, política, afetiva, amorosa, psíquica, econômica etc.) se torna, por si só, a bactéria letal, o vírus, a aids, o ímpeto suicida, o câncer instalado, a morte-em-vida. não é o et de varginha que estraga nossa festa, é o rombo guardado escondido lá dentro.

a robotização causada pelo hábito de tornar “invisíveis” – clandestinas – nossas características, er, “diferentes” redunda em zonas de medrosa clandestinidade, em pequenas zonas-fantasma rondando identidades que não podem dizer orgulhosamente seus nomes, em pequeninos segredos guardados que fariam ruir o mundo se descobertos pela sociedade implacável (como se a sociedade, sendo composta por indivíduos “imperfeitos”, já não conhecesse um a um todos aqueles segredinhos).

se despida de qualquer laço de orgulho (mesmo que discreto e resguardado), a identidade individual violentada de cada um de nós redunda coletivamente no silêncio dos intelectuais, no autoritarismo da mídia, na covardia dos vira-casacas, no preconceito contra as mil e uma minorias (seja ele praticado por quem for, maioria ou minoria), na chantagem, no suborno, na propina nossa de cada dia, na corrupção, no mensalão, na auto-ilusão que torce também secretamente pela ruína ética da sociedade toda (ou, no mínimo, do “bode expiatório” que constitui o hemisfério supostamente miserável de nossa sociedade-mente maciça, inteiriça).

fora do namoro (antinarcisista) diante do espelho com nosso mosaico de identidades, mesmo que o reflexo resulte confuso e todo esburacado, há apenas uma sina: a de todos – malufistas & troianos, hedonistas & baianas – termos que nos resignar em ser para sempre mendigos auto-iludidos da “normalidade” inalcançável, praticantes protestantes de uma ética que vale para o universo inteiro, menos para nós mesmos da boca para dentro.

roupa suja se lava em casa. mas o vento puro do ar livre é necessário para que a roupa limpa seque rapidamente, solta, leve e livre das traças do bolor.

[* este texto tem um tópico-irmão, logo aqui embaixo; a síntese entre os dois nós faremos depois, juntos, aqui, ali, em qualquer lugar]

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