então. se los hermanos 2005 têm motivado muita discussão, é necessária agora uma vírgula. ao contrário do que parece, los hermanos 2005 não são apenas los hermanos – junto com eles hoje, o multimúsico alexandre kassin é quinta figura por trás do álbum “4” (“4” também é “5”), cuja produção ele assina (como já assinava, aliás, a de “ventura”, aventura los-hermânica anterior).

kassin espanta, por ora, a poeirada varrida para debaixo do tapetão chamado indústria fonográfica pelos produtores burocratas, subgrupo que dominou a música popular brasileira nos últimos anos e se montou, em grande medida, na fórmula da produção associada a grandes gravadoras e fissurada na necessidade premente de lucro, grana, liquidez – os patrões lá de fora assim o exigem, o tucapitalismo brasileiro dos anos 90 assim o decretou.

não é o caso de kassin, que acumula papéis, funções, habilidades e prazeres bem mais variados: liderou a banda carioca acabou la tequila, participa do projeto múltiplo [moreno +2, domenico +2, kassin +2], produziu caetano veloso & jorge mautner, vanessa da mata, disco infantil de branco mello, discos adultos de adriana calcanhotto, hb big band, thalma de freitas etc. ainda não ajudou a produzir nenhum projeto de zezé di camargo & luciano, como seu parceiro moreno fez há pouco – mas não duvide que venha a fazê-lo. no balaio de cães & gatos dos anos 2000, mistura pouca é bobagem.

hiperativo, kassin se tornou um dos líderes espontâneos, no rio de janeiro, de uma usina de produtividade, experimentalismo e desobediência desleixada aos cânones da decadente indústria fonográfica multinacional & às convenções dos sempre imponentes modos cariocas de fazer música popular. kassin tem sido uma das setas que levam adiante a criatividade de nomes como moreno veloso, domenico lancellotti, berna ceppas, pedro sá, rodrigo amarante, marcelo camelo, nervoso gabriel thomaz etc. etc. ele é carioca, mas guarda afinidades eletivas com baianos, pernambucanos, paulistas, gaúchos, norte-americanos e japoneses, só para ficar nas mesmas dinastias surradas de sempre.

há mais sobre kassin: no velho e consagrado e depois por muito tempo abandonado espírito do “faça você mesmo”, ele abriu um selo indie com o parceiro berna ceppas, o ping pong, que veicula por aqui os projetos +2, um cd póstumo do acabou la tequila e discos gringos do cabeçudo arto lindsay e do desmiolado señor coconut. agora é hora de o ping pong lançar o amalucado “free u.s.a.”, creditado a um tal artista-banda-coisa denominado, simplesmente, artificial. artificial é, adivinhe, kassin, convertido agora num piloto de videogame interessado em se contrapor por alguns instantes ao excesso de sons “naturais” dispersos pela ionosfera (alô, “acústico mtv”!).

em contraste absoluto com o humor chororô (“natural”?) de “4”, “free u.s.a.” insere-se com desenvoltura num veio que até se poderia rotular “bobo-alegre” – é um disco dedicado à mais desbragada e despretensiosa diversão, composto e gravado num aparelho infanto-juvenil de game boy. é o lado de baixo, o outro lado da lua, o subterrâneo brincalhão dos tons cinzentos de “4”. pense em achar kassin um mala, contrapondo-o à ternura lôs-hermânica; prefira a despretensão artificial à solenidade de los hermanos; ou os rejeite em bloco, dando uma banana aos sons do presente; qualquer que seja a opção tomada, terá de se lembrar, antes de marcar o xis na lacuna: a existência de ambos os projetos, nestes dias turvos de 2005, está ligada por afinidades umbilicais, por laços quase sangüíneos – os mesmos que ligam o presente ao passado e ao futuro.

áspero apesar da descontração, “free u.s.a.” causa um outro tremor no tímpano, na córnea, no palato, no hipotálamo: nos minutos arrastados de uma aguda crise brasileira, parece se alinhar mais ao caos que igualou a musicalíssima nova orleans (alô, idelber! força aí, camarada!) ao cotidiano de qualquer favela carioca que às estripulias de um brasil que ainda não consegue aceitar que ocupem o mesmo lugar no espaço ali babalula, seus 40 (mil) opositores, o pt convulso, oportunistas do pl ao pv e a cruzada neo-moralista dos que elegeram um nada severo severino e agora querem depô-lo num tapinha sumário, daqueles que ardem assim: “um golpezinho antidemocrático não dói”.

pós-kraftwerkiano, “free u.s.a.” enfileira canções (canções?) de nomes tais como “feel like makin'”, “nurse”, “let’s make”, “time to change”, “orange”, “joy”, “my sound will kill you”, “dirty disco”, tudo assim em inglês, mesmo quando kassinartificial quer gritar “façamos!!!!”. o que mais se possa aprochegar do brasilês em “free u.s.a.” soa em títulos dúbios, tipo supra-idioma, como “palestina”, “pa pa pa” e o próprio nome do projeto.

mas por quê? por que tudo isso, por que o ímpeto estrangeirófilo que voa para longe do mar caymmiano de “4”? este blog propôs, e kassin topou, um papo pingue-pongue por e-mail. seguem abaixo as perguntas e resposatas – conclusões a mais serão quiçá atingidas mais além, além-mar, além-janelas virtuais, além-gerações mpb, além-nacionalidades (extra)musicais, além-solidões. agora é aqui (artificial é natural?), aqui é agora (natural é artificial?).

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pas – artificial é um codinome em contraposição ao que seria “natural”, “música natural”? que exemplos concretos você daria para definir “música natural”, essa que é diferente do que o artificial apresenta em “free u.s.a.”?

k – ARTIFICIAL é um nome que eu achei bom porque não precisava necessariamente ser um nome fechado ao português ou ao inglês. minha vontade é continuar fazendo esse projeto de uma maneira bem livre. o que realmente não é muito natural nesse disco pra mim é eu ficar cantando em falsete o tempo todo, mas é bem divertido de fazer.

pas – o texto de apresentação de “free u.s.a.” para a imprensa faz aquele contraponto que mencionei na primeira pergunta, falando de experiências musicais “naturais” que “usam até o som do corpo humano como base de suas criações”, mas cujos resultados “geralmente são um saco”. você não acha que, por outro lado, a repetição de recursos bem circunscritos do game boy podem raspar nos ouvidos e arriscar, da mesma maneira, a tornar o som artificial “um saco”?

k – eu achei isso na primeira versão do disco, que não tinha vocais, aí achei que a única maneira de não tornar aquilo um saco era fazer um falso disco pop de 1982. pra isso eu mudei um pouco as músicas.

pas – num momento crucial do brasil, o artificial produz um disco chamado “free u.s.a.”, cantado em inglês. o que causa esse descompasso de idiomas e geografias? um artista brasileiro pregando a liberdade dos estados unidos em inglês é também artificial?

k – tenho nacionalidade brasileira e americana. meu pai é americano, minha mãe é brasileira, mas mora nos estados unidos, casada com um americano. quando estive lá uma semana antes da guerra no iraque fazendo shows com os +2, havia bairros inteiros em minneapolis com bandeiras americanas e faixas escritas “free iraq” em cada porta, uma visão desconcertante e triste: uma cidade inteira, fora o bairro gay, apoiava explicitamente aquela atrocidade. paralelamente, aqui no Brasil vejo cada vez mais manifestações regionalistas, conservadoras, que vêem a música como uma forma de atingir uma raça pura “brasileira”. esse disco foi feito para essas pessoas que precisam se libertar.

pas – quais são as opiniões de kassin sobre a profunda crise política do brasil de 2005? e as opiniões de artificial?

k – votei no pt e em lula. quando ele ganhou, senti uma profunda esperança que nunca havia sentido antes na política. ao mesmo tempo sentia que, se seu governo fracassasse, seria o início de uma grande era direitista e conservadora. acho agora que, atrás de toda essa bagunça, o que me preocupa não é se lula sofrerá impeachment ou não, pois o pt já traiu essa esperança que os brasileiros depositaram nele. o que me preocupa é essa onda direitista que vai começar agora.

pas – repetindo a mesma pergunta, de um modo ligeiramente modificado (artificialmente): artificial é kassin? kassin é artificial?

k – os dois. eu tenho bastante de ARTIFICIAL e ARTIFICIAL tem bastante de mim. mas claramente é um projeto bem livre e com muito humor.

pas – idem, idem: “free u.s.a.” é acabou la tequila? “free u.s.a.” é kassin (moreno-domênico) + 2? “free u.s.a.” é electroclash, grime, funk carioca? “free u.s.a.” é música sertaneja brasileira?

k – eu tenho parte em todos esses citados acima, fora a musica sertaneja, por enquanto. daí, ARTIFICIAL tem um pouco desses outros, sim.

pas – como você conectaria artificial e “free u.s.a.” ao atual cenário de música brasileira? quem são seus pares, quem são seus opositores no terreno do que se faz de mais contemporâneo no pop local?

k – pra mim nunca houve competidores. não estou competindo, porque senão ganharia, hahahah. acho que as coisas do claudio antunes (monjope), mauricio takara, hurtmold, dj marlboro têm certas similaridades, mas certamente não há outro disco como esse, ao menos por enquanto.

pas – a música popular brasileira, como nos acostumamos a conhecê-la, está velha e conservadora?

k – não acho. acho o que existem bandas ótimas surgindo e movimentos isolados, como o funk carioca e o tecnobrega no pará, que possibilitam uma palheta bem ampla do que poderá vir a ser considerado mpb nos próximos anos. acho que sempre haverá esse campeonato de djavan e caetano entre compositores novos querendo ser medalhões. acho, por exemplo, que djavan fez um ótimo disco, esse último, e caetano acho excelente compositor, sempre mantendo um padrão bem alto de composição (engraçado falar isso com você, que sei ser abertamente contra) [pós-comentário de pas, soprado longe dos cyber-ouvidos de kassin: por que é que você acha isso, kassin???]. acho que os artistas já estabelecidos não estão tão estagnados quanto os pretendentes a esse cargo. me irrita mais a repetição do que a manutenção.

pas – você tem as letras de “free u.s.a.” aí, para a gente tê-las por escrito?

k – as letras do disco são bem abstratas, o disco não se calca nelas. são parte da música, e não poesia. por isso, se são compreensíveis ou não pra mim faz pouca diferença.

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