bob dylan faz pensar em joão bosco, que faz pensar em tom zé…

o pré-tropicalista-tropicalista-pós-tropicalista tom zé foi o protagonista de texto da “carta capital” 337, de 13 de abril de 2005, que é texto-irmão de outro publicado aqui no blog, “tom zé em pílulas”. vem ver a banda passar:

TROPICÁLIA GIRATÓRIA
Aos 68 anos, Tom Zé tumultua a cultura atacando o machismo e outros preconceitos e defendendo… o pagode

Por Pedro Alexandre Sanches

Do alto de seus 68 anos, o músico baiano/paulistano Tom Zé lançou duas iscas ao Brasil ao apresentar, na semana passada, seu 13º álbum, Estudando o Pagode. A isca presa ao título foi mordida pela mídia, que reagiu prontamente à defesa do pagode pelo artista. Colocando sua música sempre sofisticada a serviço da crítica ao preconceito das classes intelectualizadas contra gêneros mais populares, o músico fomentou revides, discordâncias, discussões localizadas. O pagode polarizou o debate.

A reação mais irritada veio de uma leitora da Folha de S.Paulo, a socióloga mineira Marilza Siléia de Almeida Jota, que atacou com violência o paternalismo de Tom Zé diante dos ritmos populares – ela viu escondidos atrás de tal atitude preconceitos “de classe, de cor e de cultura”. “A arte engajada sabe ser desagradável, enfadonha e pedante na maioria das vezes. O povão sabe o que dói na pele: a desigualdade social”, revoltou-se.

Marilza foi das únicas a morder a segunda isca da intricada obra de subtítulo Tom Zé na Opereta Segregamulher e Amor. “As mulheres não precisam de que nenhum intelectual politicamente correto lhes abra os olhos para verem a existência do desprezo a elas”, completou, irritada. Na letra de Mulher Navio Negreiro (cujo título equipara os estigmas do machismo e do racismo), Tom Zé engancha em carne ferida essa segunda isca: “O macho pela vida se valida a molestar a mulher”.

Protagonizando o programa de tevê Roda Viva, na segunda-feira 4, ele viu as discussões focarem quase sempre o horror do pagode mauricinho, quase nunca o terror do machismo – mesmo com várias mulheres presentes no debate. “O assunto da segregação da mulher foi minimizado, evitado, e essa estratégia da ocultação, do velamento, em se tratando de problemas femininos, já é observável há muito tempo”, afirma a CartaCapital, comentando o silêncio geral sobre a maior provocação presente em um dos discos mais criativos e audaciosos a nascerem no Brasil dos anos 2000.

Nem ele próprio se safa das questões contra as quais investe qual um Dom Quixote pós-moderno, como demonstrou com agressividade a socióloga mineira. Após entrevistas em que parecia se referir ao pagode como um gênero menor, arrepende-se e tenta corrigir a rota: “Bater em pessoa colocada em posição vulnerável é uma covardia, e eu não faço isso. Peço desculpas a todos”.

A questão feminina vai se ocultando, talvez também graças ao pensamento delirante de um artista que, em meio ao caos, se depara com moinhos concretos como pedra e os converte em música de primeira. A metralhadora giratória do disco transborda rebeldia contra racismo, sexismo, homofobia, cultura de massa, até mesmo o abandono da malha ferroviária brasileira (no incrível pós-samba A Volta do Trem das Onze) – tudo ao mesmo tempo agora. Se política e políticos não habitam o CD, não seja por isso – ei-lo a opinar sobre o Brasil atual: “Nesta eleição ainda votarei em Lula, porque a quinta-coluna que ele enfrenta, configurada na irresponsabilidade da classe média, é de uma eficiência maquiavélica”.

Uma classe oprimida que passa à margem do pandemônio criativo de Estudando o Pagode é aquela à qual o próprio autor pertence: a dos (homens) nordestinos que migraram para o Sul. “Ainda quando cheguei a São Paulo, em 1965, falava-se que aqui o imigrante italiano fora muito evitado pelas chamadas famílias quatrocentonas. Era uma vergonha admitir um ‘carcamano’ no sangue e no nome do clã. Também a expressão ‘baianada’ era muito repetida, mas, curiosamente, nunca me senti ofendido”, tateia a questão latente.

“Para mim é mais doloroso, presentemente, ver que a classe média alta brasileira está protagonizando um novo e indisfarçável racismo, uma direita radical que tem ódio do pobre e toma o excluído como raça inferior, o que, como ondas concêntricas, aumenta a má vontade contra a mulher, os gays, as lésbicas”, prossegue.

A crueza de estratégias de ocultação de opressões tem outro contra-exemplo na própria casa que concebeu a Opereta Segregamulher. Esposa e produtora do músico há mais de três décadas, Neusa Martins, 64 anos, está sempre por perto, parecendo atuar como parceira artística, cúmplice, co-autora, mentora do helicóptero Tom Zé. O Roda Viva reproduziu ao vivo cena corriqueira para quem já entrevistou o artista, de o marido variadas vezes pedir socorro à mulher para completar idéias e lembrar nomes, datas ou conceitos. Neusa decifra seu pensamento de imediato, sem jamais titubear. Mas, convidada a dar um depoimento à reportagem, esquiva-se, afirmando o orgulho de se preservar e de não ter “a mínima vocação para figura pública”.

Isso não significa que Tom Zé omita vozes femininas na sustentação de seus argumentos. Estudando o Pagode chama a se expressarem as cantoras Zélia Duncan (magistral no lirismo de Duas Opiniões), Luciana Mello (surpreendente no modo acaipirado de cantar Quero Pensar), Patrícia Marx (lírica ao extremo em Prazer Carnal) e Suzana Salles.

Intérprete aguda e personal da vanguarda paulistana, Suzana tornou-se voz feminina principal do disco e do show. Vinda de dentro da Opereta Segregamulher, é ela quem opina, em tom brincalhão, sobre o tema-tabu que vai e vem: “Não me sinto segregada, nunca me senti. Quem deveria se sentir segregado por ser homem lá em casa era meu pai, que teve sete filhas, todas mulheres. Coincidência ou não, volta e meia canto personagens segregados, excluídos e marginalizados. No selo infantil Palavra Cantada, já fui pulga, barata e rata. Ninguém se lembra de mim para interpretar borboleta, joaninha, rouxinol. E, para falar a verdade, prefiro mil vezes ser a torta que a certinha”.

Avançando além de guerras dos sexos e tiroteios de preconceitos, Tom Zé também reserva papéis de proa às vozes masculinas. Além de cantar disciplinadamente em várias faixas, o jovem Jair Oliveira (seu colega na gravadora Trama) é o produtor do CD. Em Vibração da Carne e Para Lá do Pará, mestre e discípulo bagunçam coretos se revezando em interpretar personagens femininas da opereta.

Também Edson Cordeiro trava com o dono do disco um duelo vocal, em que ambos interpretam personagens gays. Tom Zé defende que qualquer maneira de amor vale a pena e que também vale dançar homem com homem e mulher com mulher. A contracapa avisa que o CD é feito de “canções para duas vozes (masculina e feminina) – procure sua (seu) parceira(o)”, mas reserva nichos para os viscerais duetos Tom-Edson (Elaeu) e Zélia Duncan-Suzana Salles (Duas Opiniões).

Como se pode perceber, temas-tabus se concentram e se diluem entre rajadas de referências cruzadas e dentro de um parque sonoro de diversões (o som extraído de folhas de fícus é recorrente – e, acredite, causa mais prazer que irritação). Salta à frente então outro dado, o de que Tom Zé, aos 68 anos, abdica da solidão artística para conceber um trabalho coletivo, diluído e concentrado num sem-número de intérpretes e instrumentistas.

Além de “autoplagiar” em pique de chiste um outro disco crucial do autor (Estudando o Samba, de 1975), Estudando o Pagode acaba por se reportar à gestação de Tom Zé como o conhecemos hoje: a explosão criativa grupal de Tropicália ou Panis et Circencis (1968, dividido com Gil, Caetano, Gal, Mutantes e outros). Mas pouco têm a ver os dois momentos, a entender pelo curto comentário: “É muito diferente. Naquele tempo eu era uma cabeça sem destino, e agora sou um destino quase com cabeça”.

É que, contrariando a máxima de que música popular é arte de juventude, Tom Zé chega a mais um ápice artístico, pronto não apenas a proteger (e talvez vitimizar) a condição feminina e a condição pagodeira, mas a cutucar uma por uma todas as minorias oprimidas que constituem este Brasil.

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