então veio a reportagem até aqui mais ruidosa, que ocupou a capa da edição 335 (de 30 de março de 2005) da “carta capital”, sob o título “a vulgaridade em alta”. como recordar é viver, vamos a ela, sras. e srs.

(enquanto isso, nas bancas… “um quilombo do século xxi”, êêê!

O VULGAR PARA TODOS
Nos bailes funk, nos shows de tevê e no jornalismo, o Brasil perde os limites

por Pedro Alexandre Sanches

A alta classe média paulistana se diverte numa boate moderna da Vila Olímpia, numa madrugada de quarta para quinta-feira. Tudo está onde sempre esteve, exceto por uns poucos detalhes: a música eletrônica agora é cantada em (mau) português do Brasil; o DJ é um dos militantes mais aguerridos da subcultura carioca de morro; na pista, patricinhas e playboys que compõem a fauna habitual da boate Lov.e nessa noite estão descendo até o chão, rebolando o “popozão”, acompanhando o “pancadão” do funk carioca do DJ Marlboro.

A cena é exemplar de um novo momento da cultura nacional, em que avança a circulação de informações entre classes sociais que continuam sendo em quase tudo distintas e distantes.

Marlboro conduz cenas até há pouco impensáveis, convocando meninas ricas de cabelo liso e louro a cantar em coro “eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela em que eu nasci” e contagiando rapazes de roupas de marca e corpos malhados em horas de academia com o grito de guerra “é som de preto, de favelado/ mas quando toca ninguém fica parado“.

Esticando um velho elástico de tensão social latente, o DJ emite mais um grito de guerra: “Apaguem a luz que nós vamos zoar/ é hora do blecaute, acenda seu celular“. Idealizado para que jovens marginalizados dos bailes funk dos subúrbios cariocas ostentem em comunidade seus celulares, o refrão contamina seus pares na elite. “Tigrões” da Vila Olímpia, com corrente no pescoço e gorro de mano na cabeça, e “tchutchucas” do Planalto Paulista, de microssaia ou calça “popozuda” da Gang, obedecem à convocação, coreografando um balé de telefones celulares que se agitam em sincronia sobre suas cabeças.

Mas, junto com os pisca-piscas daqueles celulares, uma série de pontos luminosos de interrogação se acende na testa da cultura brasileira dos anos 2000. Nossa cultura popular desce ladeira abaixo, uma vez mais? Uma suposta vulgaridade fermentada nos estratos mais baixos da população arromba as portas da alta sociedade? Ou, por outro lado, o fenômeno vem tirar do armário e espelhar uma outra vulgaridade, nascida e criada no topo da pirâmide social?

“O mundo que eu mais gosto é o que me recebe bem, aquele em que sou bem-vindo. Se me sentir acolhido, não me importa se quem dança é a patricinha ou a favelada”, sinaliza Marlboro, indicando consciência das barreiras sociais que está ultrapassando.

Promotor da Lov.e na noite Pancadão, Ricardo Gonzalez comemora a lotação da casa, documentando a superação de uma resistência inicial à noite funkeira na casa por freqüentadores de elite: “Há um boicote de parte da classe mais elevada, que não aceita freqüentar, mas outra parte já aderiu. Tem gente que vem para zombar, é verdade. Vem porque acha tosco, ruim, mas acaba gostando. O funk é contagiante, descompromissado, debochado”.

O fenômeno não se detém nos limites geográficos do País. Freqüentemente vistos aqui como “toscos”, Marlboro e alguns dos artistas que ele orienta, como Tati Quebra Barraco (aquela que proclama, orgulhosa, que “eu sou feia, mas tô na moda”), têm feito giros constantes pelo planeta.

“O gringo reverenciar o funk é o mesmo que aconteceu com o samba, a capoeira, a feijoada. O que é a feijoada? As sobras do porco dando efeito diferente das melhores partes do porco”, compara Marlboro, fotografando um cenário que contempla orgulho, exotismo e toda uma herança de abismo social.

Também lá fora a cena funk se espraia por outras classes sociais e culturais. A festejada compilação Slum Dunk Presents Funk Carioca saiu na Inglaterra sob a curadoria da dupla Tetine, composta por uma paulistana e um mineiro, ambos de classe média. Sempre ligada ao experimentalismo musical, a dupla radicada em Londres acaba de aderir de vez ao funk carioca, lançando no Brasil o CD Bonde do Tetão, que usa o linguajar debochado e explícito do gênero para criticar os setores médios e altos da sociedade daqui.

“A garota de Ipanema está morta e enterrada. Hoje a garota é da Cidade de Deus e se chama Deise Tigrona”, provoca Eliete Mejorado, metade feminina do Tetine (a funkeira “tigrona”, por sinal, foi a convidada especial da última quarta no Pancadão da Lov.e).

A professora e pesquisadora em comunicação Ivana Bentes diz não crer na invasão de modismos de periferia como agente de uma vulgarização da sociedade. “O que se costuma chamar vulgar muitas vezes é questão de gosto de classe social. O que é um novo rico gastando em Miami, não é tão ostensivo quanto? Em vez do funk não poderia ser o country?”, indaga, passando de raspão pelos caubóis brasileiros que pululam na novela global América.

Ela tenta compreender o fenômeno de assimilação do funk carioca pelas classes médias e altas: “Tati Quebra Barraco tem um discurso de liberação sexual que dá de dez em qualquer feminismo. Professa uma sexualidade autônoma que é muito antenada com o discurso de meninas da classe média”.

Seu depoimento reverbera no de uma dessas meninas, a cantora, atriz e apresentadora Preta Gil, filha do ministro da Cultura, Gilberto Gil, que reúne atributos de patricinha e de funkeira e causou desconforto há dois anos ao se atirar à mídia com um disco ancorado por fotos em que aparecia nua, mesmo não possuindo um corpo que correspondesse a medidas-padrão de beleza.

“Tenho em comum com as funkeiras o fato de acabar passando uma imagem um pouco confusa. Elas têm essa necessidade de se auto-afirmar, de falar de sexo e desejo, é um pouco uma revanche das mulheres contra o machismo. Tati Quebra Barraco, mesmo com esse discurso, é uma mãe de família que batalha, tem seu marido, quer emagrecer, faz lipoaspiração”, analisa Preta.

“O papo de ‘tô feia e tô na moda’ é legal, mas no fundo não é real. Nós assumimos o que somos, mas isso não quer dizer que a gente não quer melhorar”, completa, afirmando que entende que recorreu a várias lipoaspirações e cirurgias plásticas também, em parte, como forma de “autoflagelação”.

Preta sabe que representou nos últimos anos também um outro segmento: o da exposição pública de toda e qualquer intimidade, que vem ajudando a forjar a cultura brasileira dos anos 2000 sob moldes quase sempre de imagem, quase nunca de conteúdo.
Crítica e autocrítica se somam no discurso atual de Preta, que debate sua própria relação com a mídia fazendo trocadilho com os títulos de dois programas vespertinos de fofocas na TV que se apossaram de sua figura pública, O Melhor da Tarde e A Casa É Sua: “Comecei despreparada, não era algo pensado ou marqueteiro. Minha superexposição foi genuína. Dei o material numa entrevista de que me arrependo à revista Vip. Aí há a imprensa que pega e deturpa, me vi retratada em O Pior da Tarde e A Casa Não É Sua como a gordinha homossexual que fez suruba na rua. Pensava ‘meu Deus do céu, para que isso?’. Foi um choque ver como o país ainda é moralista e como eu entreguei o assunto de bandeja para a mídia.”

O psicanalista Jurandir Freire Costa traduz à CartaCapital a atual voga da superexposição da vida privada: “De uma maneira geral, as pessoas querem encontrar na vida dos outros exemplos para entender e resolver questões de suas próprias vidas. O erro é que essas pessoas que se expõem são as menos indicadas para servirem como parâmetro, como exemplo de vida. Elas, em geral, são as mais superficiais, as que menos refletem sobre seus problemas. Cultivam a cultura do espetáculo onde não há a prática da reflexão”.

Para a psicanalista Maria Rita Kehl, “Os ‘príncipes’ e ‘princesas’ da cultura de massas, ao abrir para a imprensa e a tevê sua vida íntima – se é que é íntima –, trabalham de graça para fazer as pessoas acreditarem que participam da festa deles”. E completa: “Assim é possível recobrir todos os momentos de nossas vidas banais com as imagens das vidas supostamente interessantes dos ídolos de massas. Digo supostamente, porque você pode imaginar coisa mais tediosa do que um fim de semana no Castelo de Caras?”.

Atuando num meio permeável às imagens apelativas, o publicitário Washington Olivetto é daqueles que vêem, sim, sintomas de uma nova arrancada da baixaria no Brasil de hoje. “Parodio a frase de Andy Warhol, que dizia que no futuro todos seriam famosos por 15 minutos: nos anos 2000, todos serão vulgares por algumas horas”, compara ele, que freqüentou o epicentro dos exageros na recente guerra sem limites entre marcas de cerveja.

Olivetto assinala o ponto e dá o contraponto: “Também não podemos negar que um pouquinho de vulgaridade tem que haver e é bom que haja, senão o que resulta é um quadro social muito chato. O que não pode é a vulgaridade imperar, como vejo acontecer agora. Acho que logo vem a ressaca”.

O professor e pesquisador em comunicação Laurindo Leal Filho faz sua avaliação sob a ótica do caldo “cultural” da televisão brasileira: “Vejo que a tevê incorporou um rebaixamento de expectativas de grande parte da sociedade. Isso pode ser cíclico, mas acredito também que estejamos num ciclo um pouco mais duradouro, que vem desde o meio dos anos 90, com aqueles programas tipo Aqui Agora e Programa do Ratinho.

Ele comenta o fôlego do formato de reality shows, que se auto-recicla com as altas audiências do Big Brother Brasil 5. Desde a edição de 2004, o programa de voyeurismo de celebridades instantâneas (e efêmeras) vem se adaptando à experiência de laboratório de colocar em conflito representantes de diferentes camadas sociais e hoje discute até orientação sexual, por intermédio do participante Jean Wyllys, homossexual assumido.

“O BBB eliminou a dramaturgia, só tem edição, mas é muito pobre em termos de produção de tevê. Pode incluir e trazer aceitação a personagens gays, pobres e nordestinos, mas isso é irrisório perto da vulgaridade que o caracteriza. É como quando se fala de merchandising social em novelas: é muito pouco para a Globo pagar o mal que já fez à sociedade”, opina Leal Filho.

De dentro do próprio sistema televisivo saltam tímidas vozes rebeldes, como a do dramaturgo Lauro César Muniz, para quem “a telenovela se sofisticou tecnologicamente e esvaziou o conteúdo temático”.

Autor de novelas rebuscadas como O Casarão (1976), ele acaba de romper com a Globo após anos de geladeira e deve vir a escrever novelas na Record. E divaga: “Com incrível habilidade o sistema absorveu e o megashow vulgarizou todos os ícones, de variadas origens e ideologias. Os guerrilheiros inspiraram trajes que desfilam nas passarelas, Che Guevara foi para a Broadway e pode virar até marca de perfume que ninguém vai se surpreender”.

O exemplo da tevê é pescado pelo músico Max de Castro para descrever seu desconforto: “Hoje qualquer pessoa aparece fazendo qualquer coisa na tevê, e tudo tem o mesmo peso. Antes um artista podia ser comparado com outro que fizesse algo parecido, hoje ele tem que concorrer com a eliminada da semana no Big Brother“.

Filho caçula do cantor Wilson Simonal (que viveu extremos de ascensão e queda nos anos 60 e 70), Max testa uma autocrítica de sua própria classe: “O foco se perdeu também por culpa dos artistas, que hoje resolvem fazer disco quando querem trocar de carro, comprar apartamento. Uma coisa ruim de hoje é a obsessão pelo sucesso, por saber quanto cada um ganha. Em conversa reservada, artista só fala isso, ‘peguei um disco de platina’, ‘fiz 300 shows neste ano'”.

Em seu novo CD, Max de Castro, ele elaborou uma crítica sutil em parceria com Lulu Santos, que sugeriu o mote da canção Sempre aos Domingos, em parte estimulado por uma desavença com o apresentador Fausto Silva, apontado ao lado de Gugu Liberato, Ratinho e João Kleber como um dos líderes do ranking do mau gosto na tevê pela campanha Quem Financia a Baixaria É contra a Cidadania. “Eu não posso acreditar/ que não há nada melhor pra fazer/ numa tarde de domingo que ver televisão“, diz a letra do sofisticado funk não-carioca, que Lulu ajudou a compor, mas cuja interpretação deixou a cargo do parceiro menos conhecido e menos popular.

Outro que centra fogo no Domingão do Faustão e em seus pares é Rafael Borges, ex-empresário da banda roqueira dos anos 80 Legião Urbana. “Faustão é pernicioso. Fica incensando uma determinada atriz, dizendo que é talentosíssima e está num momento de glória, e termina fazendo a moça dançar com a versão reformulada do É o Tchan. As pessoas são coniventes, Renata Sorrah vai ao Faustão. É horrível Pedro Bial ficar naquele negócio de Big Brother, o cara é especialista em Guimarães Rosa, não dá.”

“É tudo só vender, vender, vender, há uma falência de valores mais humanistas em favor do lucro. Só se pensa em comercializar show, em jabá, em MTV. É só gente calada e conivente. Não se fala mais de concepção, de obra. Era um prazer para a Legião Urbana conceber turnê, dizer não ao Faustão”, compara, em tom nostálgico.
Ele salva a pele do programa Pânico na TV. “Eles são grosseiros, mas colocam no lugar essas celebridades que estão se achando muito, essa Daniela Cicarelli”, diz, referindo-se a outro episódio recente de vulgaridade: a exploração exaustiva, pelos humoristas da Rede TV!, da “revelação” de que a modelo recém-casada com o jogador de futebol Ronaldo teria seis dedos num dos pés.

Um cenário complexo vai se compondo. No Brasil dos anos 2000, as casas ricas e supostamente felizes da revista Caras convivem com as atividades múltiplas de um personagem como Alexandre Frota que se desdobra entre celebridade de reality shows no Brasil e em Portugal, empresário de funk e ator pornô – sem por isso cair à margem da mídia.

No Brasil dos anos 2000, o gesto obsceno dirigido pelo jogador Fininho à torcida e os pés famosos de Ronaldo e Daniela Cicarelli se equiparam ao tititi que envolveu no início do mês o compositor e escritor Chico Buarque, que se viu imerso no mundo cão ao ser flagrado beijando uma mulher casada numa praia carioca.

As revistas de variedades Quem e Contigo comandaram o espetáculo na mídia, adquirindo o pacote dos fotógrafos free-lance por cerca de R$ 1.500 (o preço sairia por volta de R$ 3.500, se as fotos fossem oferecidas com exclusividade a um veículo). A Veja deu continuidade ao alarde, criticando jornais que haviam decidido não publicar as “notícias” sobre a vida particular do artista.

Um assessor de Chico que prefere não se identificar apimenta o caldeirão das responsabilidades pela invasão de privacidades e de limites, citando a informalização do trabalho jornalístico e comparando o atual loteamento da orla carioca entre os paparazzi ao trabalho dos flanelinhas que “guardam” automóveis nas ruas das grandes cidades brasileiras.

Para o professor e pesquisador em comunicação Micael Herschmann, organizador do livro Mídia, Memória e Celebridades e autor de estudos sobre o funk carioca, Chico não deixa de fazer parte desse cenário: “A proposta dele, a longo prazo, é não operar no registro da celebridade. Mas por isso mesmo, por não quererem essa posição, personalidades reservadas como Chico, Rubem Fonseca ou Greta Garbo acabam também constituindo mitos. Produzem imagens raras, que agregam um valor maior quando aparecem”.

Maria Rita Kehl analisa o caso: “A exposição pública de Chico só nos parece mais escandalosa porque ele, talvez até por sua origem de classe, despreza e evita a todo custo a breguice de tal exposição. Ele é mais fino, mais sofisticado do que Ronaldo e Daniela, por exemplo. Fora isso, como disse Freud ao conhecer o Einstein, nosso querido Chico ‘é um pobre diabo como todos nós’. Distraído pelo amor, ou pelo desejo, marcou bobeira – como todos nós”.

Jurandir Freire Costa expõe opinião contundente: “É um caso de voyeurismo puro. Esse era um comportamento restrito à imprensa sensacionalista, que se esgota por si só e em si mesma. Nesse caso, foi absorvido pela imprensa em geral, com raras e honrosas exceções. É um dos sintomas mais execráveis dessa vulgaridade, e foi ocorrer logo com um homem que nunca cultivou a celebridade e que sempre se apresentou ao público pela produção do seu espírito. Houve, também, uma exposição inclemente de uma família”.

E o psicanalista conclui: “O jornalismo aí ficou próximo da pornografia. Uma coisa baixa, canalha até”.

Na faixa de personalidades avessas ao esvaziamento da própria imagem, parecem se localizar artistas como Maria Bethânia e Marisa Monte, que, por exemplo, não freqüentam programas de tevê.

O empresário de Marisa Monte, Leonardo Netto, relata o caso de exceção: “Não é que ela consiga escapar disso. Se é personalidade pública, está exposta a isso. Mas ela não fica em badalação, não dá mole. Acho muito triste ver que a gente está indo para um caminho desses. É resultado de malharmos tanto o corpo e tão pouco a mente. Os meios de comunicação também não podem se eximir de sua responsabilidade pelo que oferecem ao povo”.

Outro segmento em que o exibicionismo e o comportamento dos meios de comunicação rendem material de trabalho e críticas é o da moda. Fugindo da banalidade de um meio que à mesma época absorvia o funk carioca e as câmeras da novela global Celebridade, o estilista Jum Nakao causou uma avalanche de reações negativas na imprensa de moda quando ironizou, na São Paulo Fashion Week de 2004, a futilidade daquele ambiente, propondo uma coleção de roupas de papel, que eram rasgadas ao final de um desfile que fugia do “mundinho” e fazia referências diretas às artes plásticas.

Nakao também co-habita crítica e autocrítica: “Em moda se usa muita cortina de fumaça, nariz de palhaço, confete, besteira pseudo-artística, sexualidade apelativa. Cada vez mais a moda depende de celebridades, escândalos, coisas que agregam um valor falso, não resultam em leitura nenhuma e apontam para um vazio enorme. É tanto verniz que nem se vê mais a obra. Hoje o trabalho de moda é raso, também muito em função de pessoas da imprensa que têm os estilistas quase como reféns e estão mais preocupadas com quem está nas primeiras filas dos desfiles que com a obra”.

Nascida na alta classe média e criada na sofisticação da bossa nova, a cantora Beth Carvalho mudou o curso de sua história e se tornou desde os anos 70 herdeira de uma linhagem de nobreza do morro e do samba de raiz que remonta a Nelson Cavaquinho e Cartola. Apegada à nobreza da tradição, ela faz sua avaliação sobre o momento atual: “Na população brasileira, principalmente nos morros cariocas e nas favelas paulistas, o samba não é mais majoritário, infelizmente.O funk e o hip hop tomaram conta. Esses gêneros, não trazem nenhum predicado à música no Brasil, mas sim os desejos e conceitos do mundo capitalista”.

No passado, Cartola celebrou um ideal de morro onde “ninguém chora, não há tristeza”, aproveitado com ironia em uma das cenas mais violentas do filme Cidade de Deus (2002). O extremo mais radical da inversão atual se chama “proibidão”, um subgênero do funk carioca ainda confinado às favelas, até porque remete de forma crua e cruel ao cotidiano de violência e crime plantado no coração das periferias cariocas.

“O proibidão é muito chocante, nunca ouvi nada tão violento em música, com alguns achados de poesia, de pulsão de morte”, diz Ivana Bentes, que desenvolve seu trabalho em proximidade com as favelas. “Entramos num outro campo, que é o da cultura do crime, mas mesmo aí tenho muita dificuldade de botar rótulo de vulgar. Eles estão dizendo coisas profundas, as músicas são um massacre, ali você entende todo o mecanismo da violência. A questão é se quero ou não saber quem é esse cara que é meu inimigo social – o traficante, o bandido. E eu quero conhecer esse cara”, decide.

Ivana começa a fazer a curva que nos levará de volta ao início desta reportagem: “”or que não posso consumir proibidão, mas posso consumir Arnold Schwarzenegger, Duro de Matar 5? A pulsão de morte não está só na favela, está no capitalismo, no mapa de desigualdade social, na relação empregado-patrão. A única novidade em termos de cultura brasileira contemporânea é que as classes inferiores começam a se expressar em pé de igualdade com as superiores. O preconceito está sendo rompido de dentro, da favela para fora. Essa nova consciência social não veio pela universidade nem pelo Estado. Veio pelo hip hop, pelo funk, pela própria favela, que pode até ser modelo de política pública. O Estado aprende mais com esses movimentos comunitários que o contrário.”

“É preciso sair dos dois pólos, do maniqueísmo. O garoto rico e o filho do favelado, o diretor de empresa e o traficante, todos estão dentro do mesmo caldo. O caldeirão que está prestes a explodir é o da pobreza. E ele não explode justamente porque existem esses campos de vazão, de troca, de permeabilidade”, ela reflete, como se dançasse ao mesmo tempo com os manos da Cidade de Deus e com os playboys na terra rica da Lov.e. Nesse rebolado, o Brasil vai mostrando suas muitas caras.

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