tatá disse a que veio já ao nascer. veio ao mundo para ser um garoto desde sempre muito inquieto, imaginoso, hiperativo, uma mistura assim humana entre um helicóptero e o taz, o diabo da tasmânia lá do desenho do pernalonga.

apesar de viver em meio a tanta tecnologia que invadia o mundo no final do século xx, tatá era um menino brasileiro. como tal, vivia com um olho pregado na sua vidinha serena de garoto interiorano, o outro apontado para o mundão. guerra&paz, dois tatás competiam dentro de tatá. e, coisa estranha, os dois acabavam ganhando a parada, empatados vitoriosos.

como menino brasileiro crescendo em anos de início de abertura política após uma cruel ditadura e de uma nova onda de distensão dos costumes, tatá era muito, muito, muito, muito fã do… roberto carlos. no início dos anos 80, nem era assim tão de bom tom ser fã do roberto, mas tatá era.

era fã de roberto, como era fã de didi, dedé, mussum e zacarias. para sempre iria relacionar imediatamente um aos quatro, os quatro ao solitário roberto. nem entendia bem o porquê dessa associação de idéias & ideais (os sorrisos tristes dos cinco, será?). mas ela era para sempre, “porcaqui, caqui é o meu lugar…“.

como fã do roberto, tatá tenta até hoje entender porque foi ser assim tão fã do cafoníssimo roberto. as memórias povoam sua mente como fagulhas que coriscam feito o pisca do vagalume, distanciadas umas das outras no tempo-espaço.

tatá lembra que, desde pequeno, ia à sears com seu pai, para a tradicional compra natalina anual. o novo álbum carlista de cada natal era compra certa, seu pai nunca sairia de lá sem o robertão. daí em diante, era só esperar o especial natalino, o bimbalhar dos sinos, a sempre medonha virada de ano da “jovem para sempre” rede globo.

tatá lembra que, pixote, tentou por toda obra convencer a mãe e o pai a batizar o novo irmãozinho, que estava para chegar, pelo pomposo nome duplo de… roberto carlos. a mãe não quis – porque roberto carlos era rei, e ela preferia que o pitoco que estava para chegar fosse apenas mais um na multidão. batizou o caçula de um outro nome qualquer, talvez jefferson. e tatá seguiu infância adentro chamando o maninho de… roberto carlos. “mãe, o roberto carlos tá chorando!” “mãããe, dá chupeta pro roberto carlos.” “pai, roberto carlos me beliscou!!!”

roberto carlos para cá, para lá, para acolá, tatá só desistiu do apelido quando caçulinha largou a chupeta e a mamadeira e aprendeu a andar. nunca soube o porquê daquela brusca interrupção, talvez porque o ato de andar e a figura roberto carlos fossem imagens incompatíveis dentro de sua cabeça – rc era nosso paralisado mais querido, tinha aquela perna meio dura, se apoiava no microfone qual numa muleta. peça ímpar do nosso folclore, roberto-carlos-pai era amado por tatá como um boitatá, um curupira, uma cuca maravilhosa, um saci pererê hibernado dentro do gomo do bambu.

tatá lembra que jeffersonzinho (ou o nome que fosse), falso-rc, depois de aprender a andar, cismou de aprender também a falar. era 1980, época em que o verdadeiro rc estava em guerra pela paz, ou em paz pela guerra, cantando a todo pulmão “a guerra dos meninos”. “lalalalalá, lalalalalá… hoje eu tive um sonho, que foi o mais bonito…” jeffzinho mal falava, mas já sabia cantar, cantarolar. não sabia a letra, mas provindenciava a sua própria, em espertíssimo embromês: “one one one, one one one, one one one oneeee”, a melodia do lalalala do coro infantil gringo em “portinglês” como guia mestra para o enlevo.

tatá lembra que “a guerra dos meninos” era a predileta do pai à época – o véio gostava tanto da guerra dos meninos que nem se incomodava quando tatá e ex-robertocarlinhos se pegavam a tapa no corredor. pai chegava do trabalho, o caçula pulava à toda em seu colo e homenageava sua paixão musical: “one one one, one one one…”. o pai exultava, orgulhoso – a mãe, nem tanto, pois era “one one one” o dia inteiro, um treco assim beirando o insuportável.

mas assim seguia a vida no interior – aeroplanos voando alto no céu, um fusca parado na garagem, o mundão lá fora girando à velocidade da luz.

depois tatá cresceu, e virou cantor de rock’n’roll.

[* este texto baseia-se livremente em fatos reais, e reutiliza o truque do livro “como dois e dois são cinco”, de criar em itálico capítulos de “ficção” nos intervalos entre as análises cronológicas das obras de roberto carlos & erasmo carlos & wanderléa (entre alguns outros malucos). como o livro acabou e já foi publicado, mas as historinhas reais nunca param de chegar, eis aqui este blog cumprindo a função extra e itálica (mas não negativa) de continuar, no mesmo banco da mesma praça, o que não tem fim, nem nunca terá. lalalalá.]

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